O Segredo de Quem Faz

 

Esforço para elevar a PRODUTIVIDADE

Denise Saueressig
denise@agranja.com

Atuar em questões que impactam diretamente na renda no campo, como a produtividade e o seguro agrícola, é um dos objetivos do novo presidente da Associação dos Produtores de Soja do Brasil (Aprosoja Brasil), Marcos da Rosa. O engenheiro agrônomo e produtor em Canarana/MT assumiu o cargo em maio deste ano e, até 2018, vai comandar a entidade que tem sede em Brasília e representa em torno de 12 mil produtores em 11 associações estaduais. A seguir, ele fala das prioridades da sua direção para ajudar a fortalecer a produção nacional e a Aprosoja como instituição.

A Granja – Quais são as principais conquistas da Aprosoja nos últimos anos?

Marcos da Rosa – A Aprosoja trouxe um novo ânimo para a representação coletiva da produção agropecuária do País. A associação existe desde o início dos anos 1990, mas naquela época houve um direcionamento para as organizações estaduais. Inicialmente, a Aprosoja Mato Grosso passou a frequentar todos os níveis do Executivo e do Legislativo em Brasília sem, no entanto, ter estrutura na capital federal. Também realizamos viagens internacionais de onde trouxemos alguns exemplos de representatividade. O projeto da Aprosoja Brasil foi resgatado em 2005, e o fortalecimento do trabalho motivou outras entidades do setor. Assim, inicialmente em parceria com a Ampa (Associação Matogrossense dos Produtores de Algodão), criamos o Instituto Pensar Agro que hoje conta com 40 entidades sócias, inclusive de empresas que representam nossos fornecedores. O trabalho envolve todas as necessidades que a produção tem, tanto no Congresso Nacional, quanto no Executivo, trabalhando junto com a Frente Parlamentar da Agropecuária, espaço onde reunimos conquistas, por exemplo, relacionadas à legislação, como é o caso da lei ambiental, que foi amplamente discutida. Todas as semanas, por meio do Instituto Pensar Agro, acompanhamos a pauta do Congresso e do Executivo para os próximos dias. Em seguida, nos reunimos com os parlamentares para discutirmos os assuntos de interesse do setor. Assim, conseguimos atuar sobre temas importantes, como as leis trabalhistas, de cultivares e de defensivos.

A Granja – Em quais estados a Aprosoja tem representação?

Rosa – As associações estaduais estão no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Tocantins, Piauí, Maranhão, Pará e Amapá. Representamos em torno de 12 mil produtores no País.

A Granja – Quais os seus principais objetivos institucionais à frente da associação?

Rosa – Como fortalecimento institucional, queremos reorganizar a Aprosoja na Bahia, em Rondônia e em Roraima, e estruturar associações em São Paulo e em Minas Gerais. Quando falamos em reorganização é porque essas associações já existiam, mas deve ter havido algum problema interno que ocasionou o enfraquecimento. Em São Paulo e em Minas Gerais vamos conversar com as lideranças locais para iniciarmos o trabalho.

A Granja – E em relação à produção, quais são os desafios para os próximos anos?

Rosa – A nossa grande meta é trabalhar pela produtividade. Os custos chegaram muito próximos dos rendimentos e se isso aconteceu é porque a produtividade não aumentou. No início dos anos 1980 e 1990, tínhamos poucas variedades produtivas e que eram plantadas com um terço da tecnologia de hoje. Essa fórmula dava uma rentabilidade que oferecia ao produtor possibilidade de crescimento com evolução do modelo de produção. Quando chegamos aos anos 2000, com novas variedades e com a transgenia, alcançamos custos muito próximos à produtividade, que no Brasil fica, em média, em torno de 47 sacas por hectare, já que sempre enfrentamos seca de um lado ou de outro do País. Em Mato Grosso, a média não passa das 50 sacas por hectare. Então, se os custos em grande parte do Brasil ficam em 43 ou 44 sacas por hectare e a nossa média de produtividade não passa de 50 sacas, podemos dizer que há pouco espaço para resultados positivos.

A Granja – Quais são as estratégias para melhorar essa equação?

Rosa - Primeiro, temos que defender o uso de tecnologias. Se elas existem para melhorar a produtividade, o que estamos fazendo para não conseguir resultados melhores? Precisamos incentivar a pesquisa e, consequentemente, a Embrapa, que é nosso maior órgão na área, com pessoas muito capacitadas trabalhando. No entanto, sabemos que há limitação de recursos e que o pesquisador não é bem remunerado. Então, há empecilhos para descobrirmos as razões que não deixam nossa produtividade aumentar, assim como há dificuldades e excesso de burocracia para acessar os recursos existentes para a pesquisa.

A Granja – E como o produtor pode trabalhar nesse esforço pela maior produtividade?

Rosa – Acredito que neste momento as tecnologias estão esgotadas. Quando se utiliza um herbicida e determinada erva daninha sobrevive a ele, alguma coisa foi feita errada. Então, é preciso olhar para práticas agronômicas utilizadas no passado e que as tecnologias existentes fizeram com que o uso fosse automaticamente modificado. Aí, existe um problema também dos nossos fornecedores, que atuam com os produtores. Enfrentamos, por exemplo, problemas de resistência com algumas plantas daninhas, como a buva. Nós produtores precisamos olhar o corredor da estrada como um pedaço da propriedade para evitar a infestação da nossa lavoura com essas plantas resistentes. São práticas que precisamos avaliar e que incluem a sustentabilidade econômica, ambiental e social da nossa atividade.

A Granja – Como é a produtividade na sua propriedade?

Rosa – Em Canarana/MT, onde fica nossa fazenda, a produtividade média na última safra foi de 41 sacas por hectare devido à seca. Nós conseguimos 47 sacas por hectare. Sabemos que esse número é resultado de práticas como a integração lavoura-pecuária e a grande quantidade de palhada que mantemos no solo. Nesta última safra, como costumo dizer, a lavoura viveu de aragem, porque não choveu. Também utilizamos o milho em rotação de culturas, mesmo sabendo que economicamente o cereal não é muito viável. De qualquer maneira, teríamos que comprar milho para a ração do gado. Gastamos hoje em torno de 80 sacas por dia para alimentar os animais.

A Granja – Quais as expectativas para a safra de soja 2016/2017? O Brasil deverá mesmo chegar a 100 milhões de toneladas de soja?

Rosa – A nossa maior preocupação é olharmos para os fatores que prejudicam a produtividade. Não acho responsável falar de números recordes, porque são informações que podem atrapalhar a sustentabilidade econômica do produtor. São estimativas baseadas em condições ótimas e que precificam o grão. Nesse momento, precisamos olhar para o clima. Para a safra 2016/2017, os climatologistas, que são poucos no Brasil, preveem a estabilização das precipitações apenas a partir da terceira semana de novembro em localidades de regiões que passaram por estiagem na safra passada, como é o caso do Centro- Oeste e do Matopiba.

Esse é um fator que poderá provocar redução na produção de soja devido à não realização do plantio na época mais indicada. Mais adiante, esse fator também poderá afetar a safra de milho. Os estados do Sul estão enfrentando excesso de chuva e ocorrência de granizo. Houve perda em algumas lavouras onde a soja estava germinando, com quebra de cotilédone. A partir da terceira semana de novembro, a expectativa é de chuvas boas no Centro-Oeste e no Matopiba e chuva razoável no Sul. Para os períodos de enchimento de grãos e colheita, deve haver muita chuva no Centro-Oeste e Matopiba e pouca chuva no Rio Grande do Sul. Por enquanto, é isso que os climatologistas estão dizendo. Então, para falarmos de produção, temos que olhar esse cenário.

A Granja – Como a Aprosoja pretende trabalhar questões importantes como a lei trabalhista e o seguro agrícola?

Rosa – A lei trabalhista é restritiva, arcaica e não demonstra a realidade do campo. Defendemos que a lei do campo não tem como ser a mesma aplicada na cidade.

Trabalhamos em determinados períodos do ano e temos data certa para colocarmos a semente na terra e data certa para a colheita. Precisamos de mudanças que sejam adequadas à realidade brasileira. Esse assunto já está na agenda do Congresso, com as propostas analisadas e formuladas pelo Instituto Pensar Agro. Em relação ao seguro, precisamos de um mecanismo que seja viável, ou seja, com custo acessível ao produtor e com a cobertura suficiente do item segurado. Se mantivermos a realidade de hoje, vamos continuar com o seguinte problema: a cada dez anos, em sete anos o produtor enfrenta processo de endividamento e precisa recorrer à prorrogação dos débitos. O essencial da política agrícola chama-se seguro rural de renda. Falamos disso há 30 anos.

Tem regiões em que o seguro cobre até 32 sacos por hectare. Se o produtor colheu 33 sacas, o seguro já não cobre. Se o custo é 40 ou 45 sacas, fica bem claro o tamanho do problema. Quando analisamos o seguro de renda, há regiões com cobertura de 80% e custo de seguro de 3% ou 4%. Em outra região, a cobertura é de 60% e o custo é de 7%. É inviável para o produtor. Precisamos de uma boa cobertura para o produtor e de retorno viável também para as seguradoras. Estamos procurando esse meio do caminho. O ministro Blairo Maggi, assim que assumiu, por meio da Câmara de Política Agrícola, nomeou duas pessoas para tratar do assunto: o ex-ministro Alysson Paolinelli e o Ivan Wedekin. Estamos procurando uma solução e acredito que no ano que vem poderemos ter novidades importantes sobre esse tema.

A Granja – Qual é a trajetória da sua família no campo?

Rosa – Meus avós e meu pai trabalhavam do campo. Eu fui criado em cima do cavalo e do trator. Nasci e estudei em Passo Fundo/RS, onde fiz faculdade de Agronomia. Meu pai tinha lavouras em diferentes regiões do Rio Grande do Sul, entre terras próprias e arrendadas. Em determinado momento, ele decidiu que queria ser apenas proprietário e concentrar todos os negócios em um só lugar. Em 1974, ele visitou Mato Grosso para conhecer o local onde moramos até hoje, em Canarana. Ele atravessou o rico triângulo mineiro, o Sul de Goiás e, com todas as dificuldades do Mato Grosso, como estradas ruins, atoleiros com as chuvaradas, ausência de pontes, estabeleceu-se em Canarana. Eu cresci em Passo Fundo, mas sabia que mais cedo ou mais tarde o destino seria o Mato Grosso.

Fui para lá no final de 1987 e cheguei a trabalhar como engenheiro agrônomo em um escritório de planejamento. Mas os serviços na nossa propriedade foram aumentando, meu pai pediu a ajuda dos filhos, até que o destino mostrou as razões. Meu pai faleceu em 1997 com 58 anos e aí eu já estava preparado para tocar os negócios da família. Hoje trabalho com meu irmão Renato e com meu filho Lucas. Ele terminou a faculdade de Agronomia em 2014, e o compromisso era ir para a fazenda como meu sucessor para eu poder assumir a Aprosoja Brasil.

A Granja – Qual é o perfil da produção atualmente?

Rosa – Na Fazenda Passo Fundo trabalhamos com integração lavoura-pecuária. Tínhamos arrendamento, mas nos últimos anos, devido aos altos custos, decidimos manter na estrutura apenas o que cabe na fazenda, diminuindo o rebanho. Obviamente que meus objetivos à frente da Aprosoja são os mesmos que tenho na minha vida. Então, trabalho para tentar manter meu sucessor na fazenda. A situação é incômoda e é por isso que vamos nos esforçar e fazer o possível para modificar o que nos preocupa.