Eduardo Almeida Reis

 

LEITÃO

EDUARDO ALMEIDA REIS

Mês passado, a imprensa esqueceu o Mensalão e o Petrolão para concentrar no Leitão a culpa da inflação. Com o dólar a R$ 3,14 conseguiram filmar, na gôndola do supermercado, um litro de leite sendo vendido por R$ 7,55. Qualquer coisa como US$ 2.40 por litro de leite.

Passei “séculos” vendendo leite tipo B a 12 centavos de dólar. Amigos que ainda pelejam com o líquido fisiológico branco, opaco, secretado pelas glândulas mamárias das vacas dizemme que mês passado receberam pouco mais que 1 real por litro de leite fornecido às cooperativas. Ainda de acordo com a minha nova calculadora, substituta da chinesa de nove reais, os produtores estão recebendo 28 centavos de dólar por litro.

O resto “acontece” no caminho entre a sala de ordenha e a gôndola do supermercado. Adjetivo e substantivo masculino, o lexema atravessador entrou em nosso idioma no ano de 1628: “Que ou o que exerce suas atividades colocandose entre o produtor e o comerciante varejista (diz-se de negociante); intermediário”. Peço perdão pelo lexema, que aprendi outro dia e preciso aproveitar: é a unidade de base do léxico, que pode ser morfema, palavra ou locução.

Nos anos todos em que morei na roça, nunca vi produtor que começasse a vender seus produtos diretamente ao consumidor nas cidades e não se transformasse em atravessador, isto é, intermediário entre os produtores e consumidores. É providência elementar e inteligente.

Difícil de explicar é o número imenso de pessoas que mergulham no negócio leiteiro, como o autor destas bem traçadas mergulhou há mais de meio século. Só agora descobri explicação para o mergulho lácteo de muitos cavalheiros e damas bem-sucedidos em seus negócios, alfabetizados, que sonham ganhar dinheiro produzindo leite no Brasil.

E o motivo, ainda uma vez, tem relação com o sexo, faz parte da sexologia, ciência que tem por objeto o estudo da sexualidade e dos problemas fisiológicos ou psíquicos com ela relacionados. Ciência tão complicada que teve como expoente a hoje senadora Marta Suplicy, capaz de se casar com um bobão e de trocar o pai dos seus filhos por um picareta internacional alcunhado Luiz Favre, nascido Felipe Belisario Wermus.

Freud, Lacan, Medina e outros estudiosos tentaram explicar o sexo, ora dizendo que não existem relações sexuais porque a pessoa se relaciona consigo mesma, ora dizendo que o cavalheiro hétero não se relaciona com a parceira, mas com a sua própria mãe. Teoria que provocou protestos em nosso clube de bêbados, quando um dos sócios, engenheiro de família árabe ligeiramente trêbado, protestou: “Eu não! Minha mãe está muito magrinha...”.

Penso que o fenômeno tem mesmo relação com a mãe, mas através do primeiro alimento de todo recém-nascido, o leite materno. O negócio deve ficar gravado na memória do cidadão e da cidadoa, que mais tarde se metem no negócio leiteiro mesmo lecionando Economia em uma famosa universidade. Um dos meus vizinhos de fazenda, respeitado economista, vivia repetindo que no leite a soma dos insumos era maior do que o valor do produto final. Morria de rir e continuava produzindo leite.

Falei que o produto é secretado pela glândula mamária da vaca, mas também pode ser obtido pela glândula mamária da égua, da esposa do camelo, da búfala, da senhora do iaque. Aqui em Minas, na região do Campo das Vertentes, há criadores animados com o leite das búfalas e um deles já tem 200 fêmeas. Diz que respeitam as cercas e aceitam ordenha mecânica, mas vi na tevê que estavam peludas pelo frio de Barbacena. Cidade original em que dois clãs, os Bias e os Andradas, fingem que se detestam e dividem o eleitorado entre biista e bonifacista garantindo votos que os conservam no poleiro.

Em 15 minutos de tevê colorida desaprendi tudo que havia estudado sobre búfalos-asiáticos e visto nas fazendas de amigos criadores de bubalinos. De repente estudei nos livros errados e visitei fazendeiros que são pontos fora da curva.

Hoje em dia tudo é ponto fora do padrão, o que nos permite desconfiar do padrão. Homem e mulher, com alguns muitos desvios, que foram durante milênios a base de comparação consagrada como modelo por consenso geral, o padrão, cederam lugar ao Orgulho LGBT ou LGBTI, o que não impede que muita gente combine LGBTIQ ou LGBTQI, enquanto o planeta caça Pokémons Go e há de atingir a perfeição no dia em que inventarem o Transpokémons Go, isto é, o Pokémon Go transexual.

Pelo visto, o leite responsabilizado pela inflação mexeu com o meu psiquismo e fez-me abusar do direito de escrever asneiras. Peço desculpas.