Plantio Direto

 

Investimentos para ESTABILIDADE da produção em SPD

Álvaro Vilela de Resende, Emerson Borghi e Miguel Marques Gontijo Neto, pesquisadores em Fertilidade do Solo, Fitotecnia e Sistema de Produção, respectivamente, na Embrapa Milho e Sorgo

Mesmo após ampla comprovação dos benefícios do sistema plantio direto, em diversas regiões do País é comum constatar que áreas manejadas sem preparo do solo têm apresentado problemas de estagnação ou até declínio das produtividades obtidas. Parte das causas está relacionada à simplificação excessiva da diversidade de espécies vegetais e à degradação das condições de fertilidade do solo em camadas mais abaixo da superfície, na zona de exploração radicular. Desse modo, muito do que é contabilizado como área de plantio direto Brasil afora não poderia ser efetivamente considerado como tal, a exemplo da exploração exclusiva e continuada da sucessão soja/milho safrinha. Definitivamente, sistemas de cultivo muito simplificados acabam por deteriorar a qualidade química, física e biológica do solo, além de acentuar desequilíbrios entre organismos benéficos e prejudiciais às plantas.

Um projeto apoiado pela Fundação Agrisus vem sendo conduzido na Embrapa Milho e Sorgo/MG e consiste em um campo demonstrativo de agregação de tecnologias em sistemas de produção em plantio direto sob condições de sequeiro e pivô central

Um dos principais desafios atuais dos agricultores é lidar com o aumento das incertezas em relação ao clima e à incidência de pragas e doenças. A falta e o excesso de chuvas, os extremos de temperatura, além da profusão de ataques de insetos e fitopatógenos ao longo ciclo das culturas provocam estresses que podem comprometer o potencial produtivo. Associado a isso, tem-se baixa previsibilidade de cotação dos insumos utilizados e dos produtos colhidos nas lavouras. Muitas vezes, as sementes, os fertilizantes e os defensivos são adquiridos a custos elevados e nem sempre os preços de venda das colheitas remuneram o produtor à altura do que foi gasto. Todos esses fatores geram insegurança na tomada de decisão de investimento para o cultivo a cada safra.

Nesse cenário, a palavra de ordem é produzir com mais eficiência, buscando criar condições que permitam tirar o máximo proveito dos recursos disponíveis para a condução da lavoura. É preciso priorizar práticas de manejo e tecnologias que contribuam para o maior aproveitamento da água e dos nutrientes no sistema solo-planta e que, ao mesmo tempo, promovam condições para a cultura manter-se mais vigorosa e, portanto, com menor necessidade de aplicação de produtos para proteção das plantas.

Enfim, torna-se cada vez mais relevante ter como meta a obtenção de resiliência e estabilidade nas áreas de produção, como forma de ganhar competitividade. A matéria orgânica é o constituintechave nesse processo, e manter um perfil de solo fértil e estruturado é pré-requisito para o alcance desse objetivo.

O desenvolvimento da braquiária semeada em consórcio com milho para produção de palhada prolongase no período de entressafra: imagens de cima para baixo, dezembro/2015; junho/2016 (início da seca); e setembro/2016 (auge da seca)

Uma dificuldade para avançar nesse sentido está ligada à necessidade de conciliar práticas de custo acessível, adaptadas aos condicionantes climáticos locais e passíveis de harmonização na rotina operacional da fazenda. Algumas opções tecnológicas têm se mostrado aplicáveis e vantajosas em diversas situações de lavouras e perfis de produtores. Como exemplos, destacam- se a possibilidade de reforço na utilização de corretivos e fertilizantes e a inclusão de braquiária na composição dos sistemas de culturas em solos da região do Cerrado. Trata-se de estratégias de intensificação de manejo com retorno certo e, por isso, sua adoção deve ser incentivada.

Normalmente, as boas práticas relacionadas à melhor utilização dos nutrientes oriundos da adubação pelas plantas também favorecem maior exploração da água O desenvolvimento da braquiária semeada em consórcio com milho para produção de palhada prolongase no período de entressafra: imagens de cima para baixo, dezembro/2015; junho/2016 (início da seca); e setembro/2016 (auge da seca) A GRANJA | 61 disponível no solo e vice-versa. Embora existam alternativas bem definidas para ganhos de eficiência nos sistemas de produção de grãos, ainda são insuficientes os esforços no sentido de se demonstrar as vantagens e difundir as técnicas para o universo de produtores. É preciso reforçar os meios para aproximar a pesquisa agrícola dos seus potenciais beneficiários.

Com esse intuito, um projeto apoiado pela Fundação Agrisus vem sendo conduzido na Embrapa Milho e Sorgo, sediada em Sete Lagoas/MG, consiste da manutenção de um campo demonstrativo de agregação de tecnologias em sistemas de produção em plantio direto, sob condições de sequeiro e pivô central. Partindo de tratamentos de monocultura de milho ou de soja com médio investimento em adubação (controles), busca-se acompanhar o desempenho de sistemas com maior intensificação, envolvendo combinações soja/milho com inclusão de braquiária para produção de palhada e níveis mais elevados de adubação. Sob irrigação, inclui-se também o cultivo de feijão.

A ideia é validar e difundir opções de intensificação aplicáveis às condições do cerrado da Região Central de Minas Gerais, onde, à semelhança de outros locais dentro e fora do estado, muitos produtores ainda utilizam preparo convencional do solo, praticam a monocultura, ou não utilizam corretamente as práticas de correção do solo e adubação. A condição climática na região também tem sido um forte limitante, com secas mais severas e mais períodos de veranico nas safras dos últimos anos, afetando inclusive as reservas de água para irrigação.

Formação de multiplicadores — O campo de demonstração vem sendo utilizado para a realização de visitas técnicas e eventos de formação de multiplicadores, além de atividades educativas e de qualificação profissional. Os diferentes sistemas são monitorados para aquisição de dados de desempenho técnico e econômico, medições da produção de palhada e acompanhamento da evolução de atributos do solo, para comprovação de benefícios em médio e longo prazos. Alguns aspectos restritivos para a agricultura praticada na Região Central de Minas Gerais e em outras zonas produtoras com características similares certamente podem ser amenizados com a intensificação de sistemas de produção tendo em vista maior produção de palhada e aprofundamento das raízes.

Determinados fatores podem tornar mais severos os efeitos prejudiciais dos veranicos sobre as culturas. Solos mais arenosos, com baixos teores de matéria orgânica e desprovidos de restos culturais na superfície ou de qualquer outro tipo de cobertura morta secam mais rapidamente quando as chuvas cessam, antecipando o comprometimento da absorção de água e das funções fisiológicas das plantas, em contraste ao que se verifica em solos com maiores teores de argila e matéria orgânica e que permanecem cobertos por palhada. Nestes, a água das chuvas que infiltra é retida no perfil e o processo de evaporação é minimizado pela cobertura morta. Assim, essa água não é perdida, permanecendo acessível às raízes por mais tempo e mantendo a recarga dos mananciais à jusante.

O aproveitamento pelas plantas da água armazenada no perfil também é afetado pela profundidade efetiva do sistema radicular, que, por sua vez, é influenciada por atributos físicos e químicos do solo. Uma baixa porosidade ou alta densidade do solo constitui impedimento mecânico ao crescimento das raízes. Já a presença de alumínio e baixa disponibilidade de nutrientes como o cálcio e o fósforo inibem o aprofundamento do sistema radicular.

Integração de práticas — A busca por soluções agronômicas passa, necessariamente, pela integração de práticas edáficas e culturais que favoreçam a retenção, conservação e aproveitamento da água e dos nutrientes nos ambientes de produção. Constituem exemplos profícuos a manutenção de palhada por meio do sistema plantio direto com rotação de culturas diversificada; a intensificação ecológica com inclusão de espécies vegetais de aptidão para múltiplos propósitos (cobertura de solo, aporte de carbono, fixação biológica de nitrogênio, ciclagem de nutrientes, condicionamento físico do perfil, controle de agentes bióticos indesejáveis); o uso da gessagem; e a conservação de um perfil de solo com fertilidade corrigida em profundidade. Em qualquer situação o incremento do teor de matéria orgânica no solo deve constituir um objetivo maior a ser atingido.

A adequação do manejo de solo em combinação com práticas culturais que preservem a matéria orgânica constitui uma das mais importantes estratégias para ganhar eficiência no uso de nutrientes e água, e na convivência com o déficit hídrico. Essa estratégia inicia-se com a “construção” de um perfil de solo com fertilidade corrigida quanto à acidez e à disponibilidade de nutrientes, de modo a privilegiar o aprofundamento radicular.

Na região do Cerrado, o plantio direto pode ser melhorado substancialmente pela intensificação ecológica, com a inserção de espécies vegetais que possam agregar benefícios ao sistema, a exemplo da braquiária, que se destaca por apresentar alta capacidade de produção de biomassa de parte aérea e crescimento radicular robusto e profundo. Um maior aporte de palhada promove proteção física, mantendo a superfície do solo com umidade por mais tempo, e preserva o carbono orgânico responsável pela maior retenção de água.

Quando o solo permanece mais tempo coberto por componentes vegetais vivos, potencializam-se os processos de aproveitamento de água, incorporação de carbono e ciclagem de nutrientes no perfil, culminando em melhorias de atributos químicos, físicos e biológicos. Isso torna o ambiente de cultivo mais tamponado e resiliente, conferindo estabilidade de produção entre anos sujeitos a estresses de maior ou menor intensidade.