Fitossanidade

 

OS REMÉDIOS contra as principais doenças

Ferrugem, mofo-branco, mancha-alvo, míldio, oídio, crestamento foliar e muito mais. Ao todo, são 40 doenças que atacam a sojicultura brasileira. O que fazer para evitá-las ou combatê-las? Os problemas têm solução

Cláudia V. Godoy e Claudine D. S. Seixas, pesquisadora das Embrapa Soja

As doenças que incidem na cultura da soja intensificaram-se nos últimos anos com o aumento da área semeada, a expansão da cultura para novas regiões e a entrada de novos patógenos no País. Aproximadamente 40 doenças causadas por fungos, bactérias, vírus e nematoides já foram identificadas no Brasil. A importância econômica de cada doença varia de ano para ano e de região para região, dependendo das condições climáticas de cada safra. Em safras com maiores volumes de chuva durante a implantação das lavouras, logo após a emergência da cultura, pode ser observada a morte de plântulas ou tombamentos que podem estar associados a fungos de solo.

O mofo-branco ocorre principalmente em regiões com altitude superior a 700 metros, já que o fungo é dependente de temperaturas amenas e alta umidade para se desenvolver

Fungos como Rhizoctonia solani, Sclerotium rolfsii, Fusarium spp. e o chromista Phytophthora sojae podem causar sintomas semelhantes, sendo difícil para o produtor identificar o agente causal. Colletotrichum truncatum, que pode estar na semente ou em restos de cultura, pode também causar morte de plântulas. De forma geral, essas doenças ocorrem em reboleiras, em razão da distribuição desuniforme dos patógenos no solo, com maior frequência em condições de alta umidade e temperatura. Os sintomas geralmente se manifestam com a morte inicial da plântula, podendo ser observado estrangulamento da haste no nível do solo, resultando em murcha, tombamento ou sobrevivência temporária com emissão de raízes adventícias acima da região afetada.

A mancha-alvo é uma doença que tem aumentado sua incidência nas lavouras em razão do aumento da semeadura de cultivares suscetíveis e da baixa eficiência dos fungicidas

A ocorrência dessas doenças pode ser reduzida com medidas como o tratamento das sementes com fungicida, para proteger contra fungos presentes no solo durante a emergência. Assim como com a rotação de culturas, cujo objetivo é reduzir a população de patógenos que sobrevivem de uma safra para outra nos restos de cultura e a eliminação da compactação do solo, para promover o bom desenvolvimento das raízes e diminuir o acúmulo de água em períodos chuvosos. Para P. sojae, cultivares resistentes estão disponíveis, embora ocorra uma grande diversidade de patótipos do patógeno, alguns com capacidade de quebrar essa resistência.

Os sintomas mais comuns observados durante o desenvolvimento da lavoura são as manchas foliares, causadas por diversos fungos e bactérias, incidindo em diferentes fases da cultura. As primeiras manchas foliares observadas são associadas a fungos que sobrevivem em restos de cultura como Septoria glycines, que causa a mancha-parda. Esse fungo é necrotrófico e coloniza tecidos em senescência. Quando ocorre amarelecimento das folhas no início do desenvolvimento da lavoura por excesso de população de plantas, compactação do solo, deficiência nutricional ou aplicação de herbicidas, é possível observar sintomas de mancha-parda nas folhas senescentes.

Esse fungo, no entanto, não ocasiona desfolha significativa nos estádios iniciais e, nessa fase, está mais associado à senescência de folhas em decorrência de outro estresse. No final de ciclo, quando ocorre a maturação das plantas, há uma maior incidência de mancha-parda, associada ao crestamento foliar de cercospora (Cercospora kikuchii), formando o complexo chamado de doenças de final de ciclo (DFC). As DFC podem antecipar a desfolha da lavoura, causando redução de produtividade. O controle mais eficiente é obtido pela rotação de culturas. O controle com fungicidas na parte aérea é recomendado durante a fase de formação e enchimento das vagens.

Outra doença que ocorre no início do desenvolvimento da lavoura é o crestamento bacteriano, causado por Pseudomonas savastanoi pv. glycinea, sendo a doença bacteriana mais comum em soja, presente em todas as regiões onde há cultivo, mas sem importância econômica. Seus sintomas são manchas aquosas, semitransparentes quando observadas contra a luz, que necrosam e coalescem, formando áreas grandes de tecido morto.

No período inicial ainda é possível observar a ocorrência de míldio (Peronospora manshurica) e oídio (Microsphaera diffusa), ambas sendo favorecidas por temperaturas amenas (20°C a 22°C). O míldio ocorre em condições de alta umidade e o oídio, de baixa umidade relativa. Os sintomas do míldio são lesões verde-claras, que passam a amarelas com posterior necrose dos tecidos. No verso dessas lesões, na face inferior da folha, aparecem as estruturas de frutificação do patógeno, de aspecto cotonoso e coloração acinzentada.

Para o míldio, não há medidas de controle recomendadas em razão da pouca importância econômica da doença. À medida que as folhas envelhecem e as temperaturas aumentam, os sintomas dessa doença diminuem. Os sintomas do oídio ocorrem em toda a parte aérea, onde se observam estruturas brancas constituídas de micélio e esporos pulverulentos do patógeno. Para oídio, o controle químico é recomendado quando há incidência ainda no período vegetativo.

A ferrugem é a doença mais importante na soja em decorrência do seu potencial de dano, e o fungo dissemina-se pelo vento e pode incidir em qualquer estádio da cultura

Maior presença de mancha-alvo — Uma doença que tem aumentado sua incidência nas lavouras é a mancha-alvo, causada pelo fungo Corynespora cassiicola, em razão do aumento da semeadura de cultivares suscetíveis e da baixa eficiência dos fungicidas mais comumente utilizados na cultura da soja. Os sintomas mais comuns são manchas circulares, de coloração castanha com pontuação no centro, semelhante a um alvo, daí o nome da doença. Cultivares suscetíveis podem sofrer desfolha, com manchas na haste e nas vagens. As estratégias de manejo recomendadas para essa doença são as seguintes: a utilização de cultivares resistentes, o tratamento de sementes, a rotação/sucessão de culturas com milho e outras espécies de gramíneas e o controle químico com fungicidas. Fungicidas contendo os ingredientes ativos protioconazol ou fluxapyroxad tem apresentado as maiores eficiências de controle dessa doença nos ensaios em rede.

Destaque à ferrugem — A ferrugem-asiática, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, é a doença que tem mais destaque na cultura em decorrência do seu potencial de dano. O fungo dissemina-se pelo vento e pode incidir em qualquer estádio da cultura, porém, é mais comum após o fechamento do dossel, em razão do acúmulo de umidade e da menor incidência de radiação solar nas folhas baixeiras, por onde a doença tende a começar. Seu controle é feito por meio da integração de medidas como a adoção do vazio sanitário (período de 60 a 90 dias sem soja na entressafra), com objetivo de reduzir o inóculo do fungo que só sobrevive em plantas vivas; semeaduras no início da época recomendada com cultivares precoces, para escapar da época de maior incidência do fungo; utilização de cultivares com genes de resistência e utilização de fungicidas.

Um total de 120 fungicidas possui registro no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para o controle da ferrugem, porém, a eficiência dos fungicidas vem sendo reduzida em razão da seleção de isolados do fungo menos sensíveis ou resistentes aos mesmos. Resultados de pesquisa recentes recentes devem ser consultados na escolha dos fungicidas para o controle da ferrugem, priorizando sempre a utilização de misturas prontas de diferentes modos de ação e a rotação de fungicidas.

Além dessas doenças, existem problemas mais localizados como o mofobranco, causado pelo fungo Sclerotinia sclerotiorum, que ocorre principalmente em regiões com altitude superior a 700 metros, uma vez que o fungo é dependente de temperaturas amenas e alta umidade para se desenvolver. Os sintomas dessa doença são bem característicos, sendo observado micélio branco e denso sobre a planta. O adensamento do micélio dá origem a uma massa negra e rígida, o escleródio, que é a forma de resistência do fungo, podendo ser formados tanto na superfície quanto no interior da haste e das vagens infectadas.

Em áreas de ocorrência da doença, recomenda-se fazer a rotação/sucessão de soja com espécies não hospedeiras; fazer a semeadura direta sobre palhada de gramíneas; eliminar as plantas invasoras hospedeiras do fungo; utilizar cultivares com arquitetura que favoreça boa aeração entre as plantas; empregar controle químico com fungicidas específicos, principalmente no período do início da floração até o início da formação de vagens; e promover a limpeza de máquinas e equipamentos após utilização em área infestada para evitar a disseminação de escleródios.

A antracnose (C. truncatum) é a principal doença que afeta a fase inicial de formação de vagens e é um dos principais problemas nos Cerrados, por causa das condições de alta umidade e temperatura. Pode causar queda total das vagens ou deterioração das sementes quando há atraso na colheita em razão da ocorrência de chuva. As vagens infectadas nos estádios R3-R4 adquirem coloração castanho-escura a negra e ficam retorcidas. Medidas de manejo como tratamento de sementes, rotação de culturas, utilização de maior espaçamento entre linhas, população de plantas adequada e adubação equilibrada, principalmente com relação ao potássio, são recomendadas para reduzir a incidência dessa doença, uma vez que o controle químico com fungicida não tem se mostrado eficiente.

A podridão-de-carvão, causada pelo fungo Macrophomina phaseolina, é a doença radicular mais comumente encontrada nas áreas cultivadas com soja. O fungo é um habitante natural do solo e a doença pode ocorrer após o florescimento em condições de estresse hídrico, sendo mais importante em anos com veranicos prolongados e temperaturas elevadas. Nas lavouras onde o preparo do solo não é adequado, permitindo a formação de camada compactada, as plantas desenvolvem sistema radicular superficial, não suportando deficiência hídrica e tornando-se mais vulneráveis ao ataque de M. phaseolina. O principal sintoma na lavoura são plantas com folhas inicialmente cloróticas, que secam e tornam-se marrons, permanecendo aderidas aos pecíolos. Quando as plantas são retiradas do solo, podem ser observadas as raízes com coloração cinza, cuja epiderme é facilmente destacada, mostrando massa de microescleródios negros.

Cultivares resistentes — Com essa grande diversidade de doenças, o principal procedimento da pesquisa é tentar desenvolver cultivares resistentes para o produtor. Doenças como o cancro-da-haste (Diaporthe aspalathi), a mancha-olho-derã (Cercospora sojina) e a pústula-bacteriana (Xanthomonas axonopodis pv. glycines) praticamente não são encontradas nas lavouras, uma vez que a maioria das cultivares lançadas apresentam resistência.

Para doenças causadas por vírus e nematoides (galha e cisto), a principal estratégia de controle também é a utilização de cultivares resistentes. O controle por meio de resistência genética é a opção mais econômica para o agricultor.

Em épocas com maiores volumes de chuva, logo após a emergência da cultura, pode ser observada a morte de plântulas ou o tombamentos que pode estar associados a fungos de solo

O manejo eficiente das doenças começa no planejamento da lavoura com a escolha da cultivar, levando em conta as principais doenças na região. Todas as estratégias de controle devem ser utilizadas conjuntamente, envolvendo a adoção do vazio sanitário, a rotação de culturas, o uso de cultivares resistentes, a eliminação de compactação do solo, a utilização de sementes sadias e tratadas, a adubação adequada, a semeadura com população adequada e o controle químico para algumas doenças fúngicas que incidem na parte aérea.