Gestão

 

Como reter funcionários QUALIFICADOS

A mão de obra rural, além de não ter muita qualificação, está se tornando escassa, visto a comparação com as condições de emprego no meio urbano. Estudo com técnicos agrícolas no Rio Grande do Sul apurou como segurar – ou conquistar – gente qualificada para o trabalho no campo

Produtor rural Rodolfo Arns, bacharel em Administração e mestre em Agronegócios pela UFRGS, eng. agronômo, Dieisson Pivoto, doutorando em Agronegócios pela UFRGS, e eng. agrônomo Paulo D. Waquil, professor do Departamento de Economia da UFRGS, e doutor em Economia Agrícola

As propriedades rurais brasileiras tiveram avanços em uso de tecnologias, aumento de produtividade e produção nos últimos anos. No entanto, a gestão da mão de obra não tem acompanhado esses indicadores. Além disso, a qualidade de vida no meio rural, muitas vezes, é inferior ao urbano, já que, em muitas regiões, as melhorias nas condições de vida e trabalho ocorridas nas cidades foram mais efetivas do que as do campo. O tratamento insatisfatório dado aos trabalhadores do meio rural tem feito com que os jovens que possuem escolaridade mais elevada, e que gostariam de trabalhar no campo, migrem para a cidade. É válido ressaltar que isso ocorre mesmo que eles recebam salários inferiores ao rural em áreas urbanas. Algumas das motivações para que isso ocorra decorre do fato de os jovens terem acesso a uma qualidade de vida superior no urbano, tendo fácil acesso a opções de lazer, bens de consumo, educação, saúde, dentre outros elementos.

Observa-se uma redução da população no meio rural e seu envelhecimento. Somado a esse contexto, está o fato de nos últimos anos as máquinas e os implementos agrícolas passarem de simples e desconfortáveis para complexos, com mais equipamentos eletrônicos incorporados. Se por um lado isso trouxe vantagens em termos de eficácia, produtividade e conforto, por outro, passou a exigir outro tipo de mão de obra, mais qualificada do que a existente. Com base no exposto, o objetivo deste trabalho foi analisar os fatores importantes para a retenção da mão de obra qualificada em propriedades rurais no Rio Grande do Sul.

A atenção e a valorização do trabalhador rural não pode mais ser secundária na gestão de uma propriedade rural

Mão de obra rural — A mão de obra rural é constituída por pessoas de baixa escolaridade quando comparada à urbana e apresenta, muitas vezes, menor capacidade de receber o treinamento necessário para exercer suas funções e para solucionar problemas mais complexos. Esse despreparo da mão de obra tem causado prejuízos aos produtores, já que, apesar de possuírem máquinas e empregarem tecnologias de alto valor, não dispõem de trabalhadores com capacidade técnica para operá-las corretamente.

Para solucionar esse problema, alguns agricultores têm buscado oferecer mais treinamentos e tentado contratar e reter pessoas mais qualificadas. Entretanto, eles têm tido dificuldades para encontrar a mão de obra qualificada necessária para suprir suas novas demandas. Essas dificuldades decorrem principalmente do já citado baixo interesse dos jovens em trabalhar no meio rural, em razão da qualidade de vida que é oferecida, e de os produtores desconhecerem os fatores responsáveis por reter a mão de obra no meio rural. Tendo em vista todo esse contexto, observa- se que, se por um lado há jovens com o anseio de trabalhar e com vontade de aprender a exercer as novas funções do meio rural, por outro há os agricultores que não sabem como gerir e reter essa nova mão de obra – mais exigente e qualificada.

Assim, por meio de um estudo realizado no Centro de Pesquisas e Estudos em Agronegócios (Cepan) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) com 149 técnicos agrícolas do Rio Grande do Sul, foi possível identificar os fatores relevantes para retenção de mão de obra qualificada dentro de empresas agrícolas. Os técnicos agrícolas foram escolhidos para pesquisa como um possível público que pode sanar essa nova demanda dos produtores devido ao fato de possuírem usualmente interesse em trabalhar no meio rural e por possuírem escolaridade mais elevada que a média rural. Para participar da pesquisa, os respondentes tinham que preencher dois requesitos básicos: 1) já terem trabalhado ou estarem trabalhando no meio rural e; 2) terem se formado em uma escola técnica agrícola.

Fatores de retenção de mão de obra qualificada — Diferentemente de outros departamentos de uma empresa, tal como o marketing, financeiro e produção, onde por meio de uma ação muitas vezes é possível fazer uma grande mudança, na gestão de pessoas precisa-se observar um conjunto amplo de fatores. No caso dos funcionários rurais, não é diferente, haja vista que existem diversos fatores relevantes para que o trabalhador permaneça trabalhando em uma propriedade rural. Com base na pesquisa e na percepção dos técnicos agrícolas, verificaram- se os principais fatores para retenção dessa mão de obra, os quais estão resumidos no quadro da página anterior. O item com maior peso para reter esses fun-cionários é a segurança no recebimento do salário, ou seja, produtores que atrasam pagamento aos seus funcionários ou transmitam insegurança em pagar podem ter dificuldade de reter essa mão de obra mais qualificada.

O segundo elemento destacado pelos técnicos agrícolas na pesquisa é a boa relação com os supervisores e com o produtor. Esse item faz parte do ambiente de trabalho e não demanda dispêndio de recursos, apenas um trabalho interno de comunicação. Da mesma forma, o terceiro item está ligado à responsabilidade dos colegas de trabalho, uma vez que, um ambiente com comprometimento e delimitação de funções, é importante, conforme a pesquisa, para reter esse tipo de funcionário. O quarto fator para reter essa mão de obra mais qualificada é receber cursos e treinamentos, inferindo-se que os técnicos agrícolas buscam manter-se mais atualizados e não apenas executar tarefas diárias repetitivas. O sexto fator reforça esse aspecto, a possibilidade de crescer na empresa. Ou seja, essa mão de obra tem interesse em avançar e assumir cargos de gerência dentro da organização, melhorando sua remuneração e função dentro dela.

Assim, como pode ser observado no quadro a seguir, por outro lado, os técnicos agrícolas, de modo geral, não concordam que esse mesmo conjunto de fatores que são considerados importantes estejam sendo atendidos nas propriedades rurais. Pode-se citar, por exemplo, que dentre os piores fatores avaliados pelos funcionários estão o não recebimento de recompensas por desempenho individuais, não ter direito a divisão de lucros da empresa, precisar estender o período diário de trabalho com frequência, as promoções não são baseadas em critérios justos, a falta de segurança do recebimento do salário e não possuir disponibilidade de ir para cidade com frequência.

O item com maior discordância por parte dos funcionários refere-se à divisão de lucros na propriedade rural. Esse tipo de remunerção ainda é algo raro em empresas agrícolas, devido, muitas vezes, ao fato de o produtor rural ter receio em abrir elementos ligados a faturamento e produtividade para seus funcionários. Todavia, é um método altamente eficiente para motivar os funcionários a racionarem os recursos e ajudarem a aumentar a produtividade.

Mão de obra escassa — Esses resultados demonstram que os fatores que precisam de melhorias urgentes para retenção da mão de obra qualificada estão fortemente relacionados com promoções e métodos de remuneração, uma vez que os fatores que mais tiveram discrepâncias negativas foram os relacionados a esses dois quesitos. Por outro lado, observa-se que os vinculados com o relacionamento entre colegas de trabalho e superiores são os de maior importância na permanência dos técnicos agrícolas na propriedade, mas que, apesar de ainda poderem melhorar, não apresentam níveis insatisfatórios.

Visto isso, a mão de obra será um fator cada vez mais escasso no meio rural. Países desenvolvidos como Estados Unidos, Alemanha e Holanda já passam por esse processo de carência de pessoas para exercer trabalhos no meio rural. No Brasil, isso também está se tornando uma realidade, levando os produtores a buscarem novos meios de enfrentar os recentes desafios para se adaptar a um meio carente de mão de obra. Sendo assim, novas estratégias de busca e captura de mão de obra precisam ser pensadas. A atenção e valorização do trabalhador rural não podem mais ser secundárias na gestão de uma propriedade. Por fim, os fatores levantados nessa pesquisa podem então auxiliar os gestores rurais na busca por soluções para esses novos desafios.