Reportagem de Capa

 

Boas práticas para DEFENDER a lavoura

As condições que fazem a agricultura tropical ser capaz de produzir duas ou até três safras em um mesmo ciclo são as mesmas que desafiam os produtores ano a ano. Pragas, doenças e plantas daninhas encontram situações favoráveis para proliferação no clima quente e úmido típico da maior parte do Brasil. O combate aos inimigos tem recomendações que focam a prevenção acima de tudo. São as boas práticas que auxiliam no monitoramento da lavoura e na redução das perdas. A proteção via defensivos também requer racionalidade. Nessa etapa, a tecnologia e o manejo correto são fundamentais para garantir a eficiência e a segurança do trabalho

Denise Saueressig
denise@agranja.com

Um dos ditados mais conhecidos que existe diz que “prevenir é melhor do que remediar”. Se essa é uma verdade incontestável para a saúde humana, vale também para a sanidade das plantas. São recomendações tradicionais que devem acompanhar os produtores em todas as etapas de desenvolvimento da lavoura para minimizar os problemas provocados pela presença de doenças, pragas e plantas daninhas. No entanto, esses conselhos disseminados há bastante tempo, muitas vezes, são deixados de lado. O resultado são perdas que afetam, sobretudo, a rentabilidade da safra.

Nos últimos anos, o custo com defensivos está maior do que o valor investido nos fertilizantes, alerta o presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja/MT), Endrigo Dalcin. “Isso vem ocorrendo devido à resistência percebida em muitas regiões”, resume.

Segundo cálculos do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea), na safra 2013/2014, as despesas com adubos na soja transgênica cultivada no estado foram de R$ 625,94 por hectare, enquanto os gastos com fungicidas, herbicidas e inseticidas foram de R$ 426,23. Para a safra 2016/2017, a estimativa é de que o custo com fertilizantes fique em R$ 729,11, enquanto as despesas com agroquímicos, em R$ 899,65 por hectare.

Com base nas observações sobre o que vem acontecendo no Brasil e já ocorre há mais tempo nos Estados Unidos, a Aprosoja investe na “Campanha Antirresistência”, em parceria com a Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), o Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso (Indea), a Embrapa e o Consórcio Antiferrugem. Inicialmente, desde 2014, a orientação central estava voltada à adoção de fungicidas com diferentes modos de ação para controle da ferrugem asiática, mas este ano também envolve recomendações para herbicidas e inseticidas.

Além das indicações sobre o uso os produtos químicos, os técnicos desenvolvem um trabalho de conscientização a campo, com enfoque prático no manejo integrado de pragas (MIP) e de doenças (MID). “Destacamos o quanto as aplicações calendarizadas podem ser ruins e como é importante o produtor voltar a praticar a agricultura tradicional, olhando com atenção para a sua lavoura”, observa Dalcin.

A especificidade de algumas moléculas também faz com que o uso de defensivos fique acima do recomendado. “Por isso, é tão importante a agilidade dos registros para novos produtos, o que só poderá acontecer a partir de mudanças na legislação. Não podemos aceitar que uma nova molécula demore entre oito e dez anos para ser aprovada, como acontece hoje”, frisa. Segundo o dirigente, a Aprosoja está acompanhando os debates da comissão especial da Câmara dos Deputados que analisa o PL nº 3.200/2015, que propõe uma nova lei para regulamentar desde a pesquisa até a comercialização de defensivos.

Outra diretriz do trabalho da associação envolve o cultivo da soja convencional, ferramenta que também auxilia na rotação de princípios ativos e, consequentemente, prolonga a vida útil dos químicos. “Existem programas importantes de melhoramento voltados à semente convencional, além do incentivo da indústria, que paga um prêmio por essa soja que tem demanda principalmente da Europa e da China”, ressalta Dalcin.

Endrigo Dalcin, presidente da Aprosoja/MT: "destacamos o quanto as aplicações calendarizadas podem ser ruins e como é importante o produtor olhar com atenção para a lavoura"

Valorização da tecnologia — A proteção da lavoura inicia muito antes da aplicação de defensivos, enfatiza o gerente de Educação e Treinamento da Andef, Fabio Kagi. Segundo ele, uma das grandes preocupações da indústria é justamente o manejo incorreto que resulta em altos volumes aplicados. “Uma parte da sociedade enxerga os fabricantes apenas do ponto de vista comercial, como empresas que só querem vender. A realidade não é assim, porque o uso inadequado reflete em problemas para as indústrias”, relata.

Para que uma nova molécula seja lançada, são necessários em torno de US$ 350 milhões em pesquisa e desenvolvimento. Uma das prioridades das empresas e, ao mesmo tempo, demanda da sociedade, é a elaboração de produtos menos tóxicos. “Para os fabricantes, o ideal sempre será ofertar um produto com alta eficiência de controle, de amplo espectro e que apresente menos riscos”, sustenta Kagi.

A Andef é a favor do manejo integrado e contra a calendarização das aplicações, salienta o executivo. O desafio, no entanto, é vencer os muitos gargalos percebidos no processo produtivo, como carência de informação e de mão de obra. “Sabemos inclusive que alguns produtores não cumprem o vazio sanitário porque consideram que vale a pena pagar a multa. Essa é uma lógica difícil de mudar”, constata. As tecnologias, acrescenta Kagi, precisam ser valorizadas para que tenham eficácia prolongada, o que só poderá acontecer com esforço de todos os elos da cadeia. “Além das soluções inovadoras que são esperadas da indústria, o trabalho envolve a pesquisa, os especialistas que vão a campo e os produtores, que estão na ponta do processo”, conclui.


Mudança de consciência é necessária

O Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) realiza treinamentos em que aborda as boas práticas na aplicação de agroquímicos. O tema integra a Norma Regulamentadora (NR) 31, que define as regras de segurança e saúde para o trabalho no campo. Instrutor do Senar em Goiás, o engenheiro agrônomo e engenheiro de segurança do trabalho Andres Peter Brito, conta que as principais dúvidas que surgem durante os cursos estão relacionadas a utilização dos EPIs, limpeza das vestimentas, higienização dos respiradores, sintomas de intoxicação e o que fazer se ocorrer contaminação.

“As dúvidas sobre intoxicação e contaminação são compreensíveis, pois os agroquímicos podem ter uma reação bem lenta e os sintomas aparecerem depois de muito tempo após a exposição, as chamadas intoxicações crônicas. A maioria dessas intoxicações são originadas da exposição a produtos mediamente ou pouco tóxicos. Esses produtos não causam sintomas imediatos e passam para o trabalhador a falsa sensação de segurança, e é aí que mora o perigo”, avalia.

Na opinião do instrutor, o principal desafio nessa área é cultural e precisa ser superado com informação. “O trabalhador treinado entende a importância da utilização do EPI. Esse é considerado um problema pelo produtor que costuma alegar que entrega o equipamento, mas o funcionário recusa-se a utilizá-lo. Com a conscientização dos trabalhadores, esse problema diminui consideravelmente”, declara.

Outro desafio é a utilização do EPI nas condições climáticas do Brasil. Segundo Brito, a solução encontrada por algumas empresas é a execução desse tipo de trabalho, quando possível, nos períodos do dia com a temperatura mais amena, ou seja, no início da manhã ou final da tarde. “Quanto à qualidade dos equipamentos, acredito que isso não seja realmente um problema, mas sim uma escolha, já que existem diversas marcas e modelos no mercado”, complementa o instrutor.

Brito lembra que o setor não pode alegar desconhecimento sobre a questão, já que a NR-31 foi publicada em 2005, mas desde 1988, as NRRs (Normas Regulamentadoras Rurais) já falavam em proteção para o trabalhador. “É um pensamento comum achar que trabalhar com segurança irá demorar mais ou render menos. Essa é uma crença que não é correta. Claro que durante o período de adaptação o tempo para a realização das atividades será maior, mas logo, o rendimento será equivalente”, assinala.


Entre os problemas identificados nas medidas de controle fitossanitário estão o desrespeito à rotulagem e as soluções “mágicas” incorporadas por indicações indevidas. “Esse imediatismo é muito arriscado”, argumenta Kagi. O executivo lembra que as condições de aplicação são cada vez mais extremas, envolvendo áreas maiores de abrangência e redução de mão de obra. “A ciência deve estar sempre presente nesses processos. Além de atingir corretamente o alvo, é fundamental não atingir o que não é alvo”, completa.

Nelson Harger, da Emater/ PR: experiências com o MIP revelaram economia equivalente a duas sacas de soja por hectare por redução do uso de inseticidas

As empresas, representadas pela Andef e pelo Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), elaboram e distribuem uma série de manuais que abordam as boas práticas em temas como transporte, armazenamento e aplicação de defensivos, assim como instruções para o uso correto dos equipamentos de proteção individual (EPIs). As cartilhas, que são revisadas constantemente, estão à disposição no site da associação e também são impressas para utilização por universidades, serviços de extensão rural e revendas. Em 2015, sem considerar os manuais distribuídos individualmente pelas associadas, a Andef contabiliza em torno de 15 mil exemplares entregues em todo o País.

Alexandre Ferreira da Silva, da Embrapa Milho e Sorgo: sucessão soja/ milho safrinha pode favorecer o aumento da incidência de problemas comuns às duas culturas

Prova de eficiência com o manejo integrado — Um trabalho realizado nos últimos três anos em lavouras de soja no Paraná tem demonstrado que a adoção do MIP pode reduzir em torno de 50% o uso de inseticidas que controlam lagartas e percevejos. Nas 123 unidades de referência acompanhadas por especialistas da Emater e da Embrapa no ciclo 2015/2016, a primeira aplicação do defensivo foi feita, em média, aos 67 dias após a emergência da planta. Já a média total do estado foi de 36 dias, revela o engenheiro agrônomo Nelson Harger, coordenador do Projeto Grãos da Emater/PR. “Notamos que existe uma pressão pela aplicação preventiva e calendarizada. Mas quando o inseticida deixa de ser utilizado na fase vegetativa, o ambiente produtivo se mantém em equilíbrio e assim pode permanecer durante toda a safra”, explica.

O projeto que envolve o MIP nas áreas de soja integra a Campanha Plante seu Futuro, que envolve outras instituições do estado, como Federação da Agricultura (Faep), Senar, Organização das Cooperativas (Ocepar) e Instituto Agronômico (Iapar). O programa também realiza, nas propriedades atendidas, treinamentos de boas práticas de aplicação de defensivos, com foco em aspectos como tamanho de gota e inspeção de pulverizadores.

O MIP, lembra Harger, é um manejo que busca manter o ecossistema o mais próximo possível do equilíbrio, colaborando colaborando para a preservação do meio ambiente e para a sustentabilidade da lavoura. As práticas adotadas são associadas e incluem a amostragem de pragas, o monitoramento da área, o plantio de cultivares mais resistentes, o uso de químicos mais seletivos aos insetos benéficos e a utilização de alternativas de controle biológico. “O monitoramento antecede todas as ferramentas tecnológicas”, destaca. “A agricultura moderna precisa dessas práticas para que possamos parar de enfrentar o aumento de pragas de difícil controle e a diminuição da eficiência dos inseticidas”, defende.

O número médio de aplicações também diminui nas áreas que utilizaram o MIP. O resultado foi de 2,1 operações, enquanto a média estadual foi de 4,5. Esses números, conclui Harger, revelaram uma economia média de duas sacas de soja por hectare em comparação com o restante das propriedades do Paraná. “É preciso destacar que os desempenhos econômico e ambiental não são antagônicos”, aponta. Mesmo nas áreas com cultivares Bt, as aplicações foram reduzidas, da média de 3,1 no estado do Paraná, para 2,8 nas lavouras monitoradas. A liberação da tecnologia Bt no País a partir de 2013/2014 é uma das mais recentes ferramentas incorporadas ao manejo das principais lagartas da soja. No entanto, é fundamental que sejam observadas as regras de áreas de refúgio para garantir a eficácia da tecnologia.

Esforço contra perdas bilionárias — Assim como no manejo contra as pragas, o monitoramento é fundamental para evitar a ferrugem da soja, doença causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi que provoca desfolha precoce e compromete o desenvolvimento das vagens e o peso final do grão. O problema tem custo estimado de US$ 2 bilhões a cada safra no Brasil, considerando o gasto com fungicidas e as perdas de produção.

Com o fim do período do vazio sanitário, os pesquisadores do Consórcio Antiferrugem estão identificando a presença do fungo em soja voluntária ou “guaxa”. Com 25 ocorrências relatadas no Paraná, São Paulo e Mato Grosso, no mês passado, os especialistas da Embrapa reforçam a importância da inspeção constante das áreas e não recomendam a antecipação das aplicações de fungicidas, já que o inóculo da ferrugem ainda é baixo. Quando o controle químico for necessário, o indicado é o uso de produtos formulados em misturas com diferentes modos de ação.

Atenção para a migração de pragas — As recomendações para a soja também valem para outras grandes culturas da safra de verão no País. O pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo Alexandre Ferreira da Silva cita que existem medidas muito simples que podem ajudar a reduzir a incidência de problemas. Entre elas, estão a utilização de sementes certificadas e tratadas; limpeza cuidadosa de máquinas e implementos agrícolas vindos de outras propriedades; escolha de cultivares adaptadas à região; ajuste da população de plantas; rotação de culturas; e rotação de mecanismos de ação dos diferentes defensivos. “Também é importante realizar o controle das plantas daninhas na entressafra, em beiras de estradas, canais de irrigação e cercas para evitar a disseminação de espécies de difícil controle na área, já que algumas dessas plantas poderão servir como hospedeiras de pragas e doenças”, enumera.

Apesar de variações de acordo com a região, na lavoura de milho, de uma forma geral, os produtores têm enfrentado o aumento da incidência de espécies tolerantes e resistentes ao glifosato; e alta incidência de danos em algumas tecnologias Bt ocasionadas por lagarta-do-cartucho e lagarta- -da-espiga. “Alguns locais também apresentam problemas com pragas de solo, como larva-alfinete e percevejo- -castanho, além de doenças foliares”, continua Silva.

A sucessão soja/milho safrinha apresenta uma série de benefícios ao produtor pelo aproveitamento da infraestrutura da propriedade e pela complementaridade na exigência nutricional. No entanto, alerta o pesquisador, a sucessão, quando realizada por um longo período de tempo, ou quando mal manejada, pode favorecer o aumento da incidência de problemas comuns às duas culturas. “Um dos exemplos é a alta ocorrência de danos ocasionados por percevejo-marrom nas lavouras de milho que migraram da soja, conforme observado em vários municípios do Mato Grosso. No cenário ideal, seria interessante que os produtores realizassem a rotação de culturas”, aconselha Silva.

Nelson Dias Suassuna, da Embrapa Algodão: produtor deve eliminar as plantas voluntárias, que são verdadeiras pontes para a sobrevivência de pragas na entressafra

Práticas culturais e melhoramento - A limitada ou ausente rotação de culturas também é um problema apontado pelo pesquisador da Embrapa Algodão Nelson Dias Suassuna. No caso específico da pluma, essa característica se faz presente pela própria rentabilidade da cultura, que condiciona a fixação ou a repetição das lavouras nas mesmas áreas. Além de recomendar a rotação de espécies e de princípios ativos, o especialista descreve outras medidas de manejo, como a eliminação das plantas voluntárias (tigueras), que são verdadeiras pontes para a sobrevivência de pragas no período de entressafra.

Fonte: Imea *Estimativa

O bicudo ainda é considerado a principal praga do algodoeiro no Brasil. Também merecem destaque a Helicoverpa Armigera, a mosca branca e o pulgão. “Com relação às doenças, o principal desafio é a mancha de ramulária, que, no caso de cultivares suscetíveis, requer diversas aplicações de fungicidas para um controle efetivo. Existem outros problemas crescentes, como a mancha-alvo, o nematoide das galhas e o nematoide reniforme”, menciona Suassuna.

Como medida aliada às práticas culturais, alguns problemas do algodoeiro vêm sendo trabalhados em melhoramento genético. Para controle das pragas da ordem Lepidóptera, o mercado tem soluções transgênicas de tecnologia Bt. “Também existem cultivares com resistência a doenças, como mancha de ramulária, doença azul e bacteriose. A Embrapa está trabalhando para unir a resistência à mancha de ramulária, encontrada na cultivar BRS 372, com a resistência ao nematoide das galhas, mediante o uso de marcadores moleculares”, detalha o pesquisador.

No manejo de plantas daninhas, a liberação comercial de cultivares com tolerância transgênica a dois herbicidas tem proporcionado facilidade e economia, acrescenta Suassuna. “Entretanto, a destruição dos restos culturais do algodoeiro tornou-se mais complicada, além do controle de plantas voluntárias nas culturas subsequentes que também são tolerantes ao mesmo herbicida”, ressalva.

Eficiência com o apoio da tecnologia — Ao mesmo tempo em que práticas tradicionais de manejo são essenciais para a prevenção de problemas fitossanitários, as inovações das máquinas auxiliam cada vez mais no controle dos inimigos da lavoura. As ferramentas da agricultura de precisão (AP) representam um importante avanço na área. Muitos benefícios são gerados pelas tecnologias de pronto uso instaladas nos pulverizadores, relata o professor e diretor da Fatec Shunji Nishimura, Carlos Eduardo de Mendonça Otoboni. “São ferramentas que ajudam a reduzir falhas e sobreposições, melhorando os rendimentos operacionais com economia de defensivos, água, combustível e tempo. Como exemplo, em uma configuração mais avançada, com piloto automático, corte de seção bico a bico e correção de sinal GNSS, a economia, somente em defensivo, pode chegar a mais de R$ 60 mil reais a cada 1 mil hectares”, revela. Em outra situação, que envolve as pulverizações considerando apenas as regiões necessárias de aplicação, ou a taxas variáveis, os trabalhos ainda estão no começo. “Em uma analogia entre os problemas fitossanitários e a AP, considerando fatores como distribuição espacial, mobilidade, diversidade, tamanho, diagnóstico e prognóstico, temos as plantas daninhas com as maiores possibilidades para a aplicação das técnicas de tratamentos localizados ou a taxas variáveis, seguidas dos nematoides, depois os insetos e, como maior desafio, as doenças das plantas”, projeta Otoboni. “Nos trabalhos que temos conduzido no campo, em plantas daninhas e nematoides, as economias chegam a mais de 70% dos recursos, em comparação com uma pulverização em área total”, completa.

Segundo o professor, os controladores dos pulverizadores já estão ou podem ser facilmente adaptados para receberem mapas de precisão, assim como já existe a tecnologia da Injeção Direta de Defensivos (IDD) que permite a realização de três ou quatro eventos (defensivos ou outros insumos) na mesma pulverização, sem a mistura no tanque. “Em locais onde existem plantas daninhas resistentes ao glifosato, não há a necessidade de se pulverizar a área total. Com um sistema IDD, posso aplicar o herbicida específico para a planta daninha nos polígonos que a imagem de drone ou satélite permitiu identificar”, ilustra.

Outras ferramentas disponíveis no mercado são os sistemas de previsão de doenças, aplicativos para smartphone que auxiliam na recomendação de defensivos, escolha de pontas de pulverização e calibração correta dos equipamentos. Na Fatec, em Pompeia/ SP, pesquisadores desenvolveram um sistema de monitoramento de pragas baseado em armadilhas inteligentes (Smart Trap). Essas armadilhas funcionam autonomamente no campo, informando em tempo real as pragas capturadas e fornecem um sistema de alerta das áreas mais infestadas.

Manutenção constante — Para que trabalhem com a eficiência esperada, os pulverizadores precisam de manutenção periódica e operação baseada em critérios técnicos. No campo, as falhas mais recorrentes antes e durante a aplicação envolvem a seleção inadequada das pontas de pulverização, deficiências na agitação da calda, má regulagem de componentes eletrônicos e o volume aplicado por hectare como padrão de qualidade para o uso das máquinas.

Professor Carlos Eduardo Otoboni, da Fatec: tratamento localizado para controle de daninhas e nematoides pode gerar economia de 70% em comparação com aplicação em área total

A observação é do pesquisador do Instituto Agronômico (IAC) da Secretaria de Agricultura de São Paulo Hamilton Humberto Ramos. “Se há uma recomendação básica a ser feita com relação à regulagem é a de que os fatores praga, produto, máquina, momento e ambiente interagem na eficácia da aplicação”, afirma o especialista, que é coordenador do Programa Aplique Bem, iniciativa do IAC, Arysta LifeScience e Fundação de Apoio à Pesquisa Agrícola (Fundag).

Pesquisador Hamilton Ramos, do IAC: Programa Aplique Bem leva treinamentos com linguagem simples para trabalhadores em todos os estados do País

O projeto foi lançado em 2006 e, até janeiro deste ano, 2.078 atividades foram realizadas, atendendo 48.495 agricultores/trabalhadores em 27 estados. A grande conquista do programa, na avaliação do pesquisador, é a mudança de hábitos que chega depois do treinamento. “Cada evento é realizado para um número baixo de pessoas, com linguagem simples e com informação transmitida por instrutores qualificados”, descreve Ramos.

O sucesso do Aplique Bem no Brasil levou à internacionalização do programa, que hoje está em Burkina Faso e Costa do Marfim (África), no México, na Colômbia e no Vietnã. O pesquisador conta que na África, por exemplo, as propriedades são muito pequenas, pobres e há a predominância de pulverizadores costais na cultura do cacau. O nível de conhecimento dos aplicadores é muito baixo e a dificuldade de entendimento de textos é grande. Assim, como em alguns lugares do Brasil, os treinamentos foram desenvolvidos com fotos que ilustram os problemas e as soluções, o que elevou o nível de entendimento.

A partir de agora, um dos objetivos do Aplique Bem será sobre a análise da qualidade dos pulverizadores em uso. Em 2015, lembra Ramos, a ISO publicou a série de normas ISO 16122 específica para avaliação da qualidade de pulverizadores. “Esse processo será inovador e auxiliará tanto produtores quanto fabricantes de equipamentos, além de ser mais uma ferramenta de avaliação da eficácia das ações do Aplique Bem”, registra.

Foco na qualidade – A aviação agrícola é responsável por cerca de 25% do total de aplicações de defensivos realizadas no Brasil. Frequente alvo de críticas sobre possíveis danos causados ao meio ambiente, a operação aérea precisa seguir uma série de requisitos técnicos estabelecidos por lei para que seja executada. “Muitas das polêmicas atribuídas são por desconhecimento de que a atividade é fiscalizada por diversos órgãos regulatórios”, analisa o professor Wellington Pereira Alencar de Carvalho, do Departamento de Engenharia da Universidade Federal de Lavras/MG (Ufla).


Cuidados na pulverização

• Usar somente produtos recomendados na dose indicada para o controle, no momento e posicionamento adequados

• Atenção às condições ambientais: aplicação nos horários mais frescos do dia, temperatura menor que 30oC, em condição de vento calmo entre 3 a 10 km/h, umidade relativa do ar acima de 50%. Atenção à chuva e ao orvalho, pois são fatores que também podem interferir na eficiência dos produtos

• Escolha da ponta (bico) de pulverização e do volume de calda deverá ser realizada de acordo com a cobertura desejada, do alvo que se pretende atingir, da forma de ação do defensivo, da técnica de aplicação, entre outros fatores

• Antes de qualquer aplicação recomenda-se realizar uma minuciosa inspeção nas pontas de pulverização, mangueiras e filtros, e verificar a calibração do equipamento

• É obrigatório o uso do EPI

Fonte: Alexandre Ferreira da Silva/Embrapa Milho e Sorgo


Professor Ulisses Antuniassi, da Unesp: boas práticas da aplicação aérea incluem acompanhamento técnico, respeito às condições climáticas e uso de técnicas de redução de deriva

Segundo ele, para que uma pulverização aérea seja realizada, é necessária a presença de uma equipe básica composta por um piloto habilitado, um técnico agrícola denominado de executor, que acompanha as atividades em campo, e o coordenador, que é o engenheiro agrônomo responsável direto pela recomendações e boas práticas.

Carvalho é um dos coordenadores do programa de Certificação Aeroagrícola Sustentável (CAS), junto com os professores João Paulo Rodrigues da Cunha, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), e Ulisses Rocha Antuniassi, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp). O projeto, que tem apoio do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag), é formado por três níveis que obedecem a diferentes critérios de exigência e que passam por questões relacionadas a segurança, legislação, tecnologia e capacitação.

O programa está na fase final de seu ciclo de implantação (os primeiros quatro anos), que se encerrará em agosto de 2017. Até agora, já foram certificadas 135 empresas, correspondendo a 58% do mercado de prestação de serviços em aviação agrícola. Segundo o professor João Paulo Cunha, os problemas percebidos nas operações aéreas são decorrentes de erros pontuais, ou seja, não são causados pela aplicação aérea em si, mas sim devido à forma como a mesma estava sendo conduzida em determinada situação, por determinada equipe de trabalho. “O ponto mais importante do trabalho é o planejamento operacional”, declara.

O professor Ulisses Antuniassi lista os princípios da responsabilidade e das boas práticas na tecnologia de aplicação aérea. “É preciso acompanhamento técnico das aplicações; respeito às condições climáticas adequadas; adequação da tecnologia às condições climáticas; uso de técnicas de redução de deriva; respeito às faixas de segurança e bom conhecimento do entorno dos campos; e estar plenamente ciente das consequências da não observação desses conceitos”, enfatiza.

Ele acentua que é muito importante a cooperação e a comunicação com aqueles que estão no entorno das áreas de trabalho especialmente para garantir a proteção de recursos hídricos, da flora e da fauna.Por muitas razões, está claro e é cada vez mais importante que o produtor deve se esforçar para racionalizar as aplicações de defensivos na lavoura. Da mesma forma, sabe-se que a agricultura tropical em larga escala não pode abrir mão dos tratamentos fitossanitários para afastar os prejuízos que pragas, doenças e plantas daninhas representam para o desempenho final da safra. Portanto, é essencial que o produtor, ao planejar e executar a pulverização, trabalhe nos limites da necessidade e mantenha foco na segurança do manejo. A sua própria saúde, o meio ambiente e as plantas agradecem.