O Segredo de Quem Faz

 

SUCESSÃO tranquila e com horizonte promissor

O assunto sucessão familiar é bem resolvido na família Godoy, que vai plantar, em 2016/17, 10 mil hectares entre safra e safrinha em áreas de Catalão/GO e Paracatu/MG. Aos 16 anos, Charles Godoy largou a faculdade de Administração de Empresas para trabalhar com o pai, Francisco Godoy, um ex-sitiante do Paraná que buscou novos horizontes em terras goianas. Os dois seguem juntos no negócio até hoje, e Charles já prepara os três filhos, José Victor Moreira Godoy, 18, Charles Francisco Moreira Godoy, 20 anos, ambos ainda na faculdade de Agronomia, e Ana Luisa Moreira Godoy, 14, que planeja fazer Medicina Veterinária, para um novo desafio da família, o investimento em integração lavourapecuária em uma área adquirida e ainda sem exploração, em Mozarlândia/GO. A seguir, Charles descreve o momento e as expectativas dos Godoy para os negócios deles.

Leandro Mariani Mittmann leandro@agranja.com

A Granja — O que você produziu na safra 2015/16, em que área e quais as produtividades?

Charles Godoy — Foram 6 mil hectares de soja na safra de verão e 2 mil de milho safrinha, então, um total de 8 mil hectares. No ano passado, não houve muitos problemas com falta de chuva, mas neste ano, o clima prejudicou. Com a soja e principalmente com o milho. Na soja, eu acho que perdemos uns 10%, e no milho, uns 60% a 70%. Aqui foi feio. Estávamos esperando 70 sacas de soja e colhemos “60 e poucos”. No milho, esperávamos 120 sacas e colhemos 35. Foi bem abaixo. As áreas onde conseguimos produzir milho foram as mais úmidas. Teve áreas de perda total. Nem passamos a colheitadeira. Não é comum acontecer esse problema climático. O normal na soja é de 65, 70 sacas por hectare, e milho, 120 sacas por hectare. Neste ano, a falta de chuva arrebentou com a gente.

A Granja — E qual o planejamento e as perspectivas para a safra 2016/17?

Godoy — Neste ano vamos subir a área plantada para 7 mil hectares no verão e 3 mil hectares na safrinha. Qual a nossa expectativa? A terra ficou mais fértil, porque não teve exportação para o grão, o adubo ficou quase todo na terra. E a gente vai adubar normal ainda. Então, a expectativa para este ano é melhor porque sobrou adubo que não foi usado. Estamos esperando produção acima do normal para este ano. Vamos começar a plantar lá por novembro, com chuva. Vamos plantar só na certeza (com umidade).

A Granja — E quanto à rentabilidade. Qual a expectativa visto custo de produção, cotações, câmbio...?

Godoy — Já fizemos a compra da semente e do adubo lá atrás, e os outros insumos, inseticidas, fungicidas, já estão também todos comprados. Para nós, se o dólar subir, é vantagem. E se o dólar se manter, já está tudo comprado. Mas a expectativa é o dólar subir, pois para nós é vantagem. Os preços foram praticamente os mesmos entre este e o ano passado. Até reduziram um pouco. O adubo, conseguimos comprar até mais barato que no ano passado. Para nós, o custo foi mais em conta que no ano passado, principalmente nos fertilizantes. Usamos o MAP, que é o fósforo, e o cloreto, que é o potássio, que foram mais baratos que no ano passado. O MAP, em torno de R$ 1.200 a tonelada, e o cloreto, em torno de R$ 1.300. No ano passado custaram acima de R$ 1.500.

A Granja — Como é envolvimento da sua família com a agricultura, o histórico dos Godoy com o campo?

Godoy — Somos o meu pai, Francisco Godoy, e eu. Estou aqui com ele, e agora os meus dois filhos estão entrando na agricultura também. Eles estão fazendo Agronomia, em Uberlândia/MG, e em mais dois anos se formam. E vamos começar a investir lá no Vale do Araguaia, em Mozarlândia/GO, onde comprei uma área (2.500 hectares) e vou mandar meus filhos para lá. Lá no Vale do Araguaia, no rio Araguaia, estão começando a plantar soja, só que no lado do Mato Grosso, e eu comprei uma área pelo lado de Goiás. Estão investindo muito no lado do Mato Grosso, mas nós compramos no lado de Goiás. Estou arrumando tudo para futuramente mandar meus filhos. Eu e o meu pai já estamos aqui, em Catalão/GO e Paracatu/MG.

A Granja — E como foi o processo de sucessão do seu pai para você? E como está se dando o processo entre você e seus filhos?

Godoy — Meu pai era sitiante no Paraná. Tinha uma área de 100 hectares que meu avô deixou de herança para ele. Ele foi crescendo e de lá veio para Goiás. Eu comecei a estudar e parei para ajudar o meu pai. Desde os 16 anos de idade eu estou ajudando o meu pai. Trabalho com meu pai e minha mãe, e minhas duas irmãs foram para outro ramo, a Odontologia. Eu comecei Administração de Empresas, mas não dei continuidade, preferi ajudar o meu pai. Mas meus filhos, não, estão fazendo Agronomia, vão se formar, para depois trabalharem com a gente.

A Granja — Você fez algo para despertar a afeição deles pela agricultura ou foi algo ao natural?

Godoy — Foi natural. Eles gostam da agricultura, tanto que nos finais de semana vão comigo para a fazenda. E eu tenho uma filha também, que está querendo se formar em Medicina Veterinária. Ela tem 14 anos e ainda estuda em Catalão. Essa área que compramos em Mozarlândia é mais para fazer agricultura e pecuária. No verão, a agricultura e, depois, a pecuária. Vai dar certo para os três.

A Granja — Você é filho de produtor e seus três filhos deverão seguir no campo. Que dicas você daria sobre sucessão familiar, sobre como fazer com que os filhos gostem da atividade rural, que permaneçam no negócio do pai? Que conselhos daria para produtores que gostariam de ver o filho produtor?

Godoy — O conselho que eu daria é que agricultura é o futuro. Hoje ninguém sobrevive sem agricultura. E hoje está fácil você “mexer” (na agricultura). Hoje a agricultura não é uma agricultura como na época do meu pai, que era na base da enxada, do machado. Hoje existem tratores com GPS, você com pouco pessoal trabalha muita área. Os equipamentos são modernos, com ar condicionado. É uma agricultura totalmente diferente da época em que o meu pai começou. E meus filhos vão pegar uma agricultura bem mais moderna que a minha. Hoje tem variedades resistentes à seca e mais produtivas, a adubação não precisa botar na linha, pode ser a lanço, tem o plantio direto, que não estraga a sua terra. Você conserva a sua terra terra e, quanto mais conservada, mais produtiva ela fica, a cada ano. Não é aquela época que você “virava” a terra todo o ano, tinha erosão, terra para dentro do rio. Hoje se procura conservar. Também se preservam as reservas, nascentes de rios. Hoje em dia a mentalidade está mudando.

A Granja — Vocês investem muito em agricultura de precisão. Como isso ocorre?

Godoy — Estamos fazendo agricultura de precisão em 100% da nossa área. Antigamente, a gente jogada calcário, gesso, tudo à taxa fixa. Pegava lá 100 hectares, fazia a análise de solo dos 100 hectares e jogava à taxa fixa nos 100 hectares. Hoje, não. Hoje eu pego uma área de 100 hectares, faço uma agricultura de precisão nela com grid de três hectares, e em cada três hectares eu jogo calcário, gesso, fósforo, potássio, só o que eu preciso. Toda a nossa fazenda, a cada três hectares é tipo uma fazenda, e eu jogo o produto que precisa. Antigamente ou eu jogava muito ou jogava menos. Há uns três anos estou fazendo isso, e a cada ano estamos conseguindo colher mais soja. A não ser este ano que foi por falta de chuva. Mas em um ano normal a gente consegue produzir mais.

A Granja — A agricultura de precisão é um investimento que tem retorno certo, tanto financeiro como técnico?

Godoy — Tem. Ele se paga no primeiro ano. O investimento em máquinas e equipamentos com agricultura de precisão se paga em um ano. Tanto que neste ano eu comprei mais duas máquinas para a agricultura de precisão. Eu tinha duas e comprei mais duas. E facilita o plantio, porque antes eu adubava na base, mas hoje estou jogando o adubo 100% a lanço. Então, eu só entro com a plantadeira com semente.

A Granja — O que você espera da política e da economia do País em 2017, agora com o novo presidente da República, novo ministro da Agricultura? E você vê ligação entre o que acontece em Brasília com o campo, ou a agricultura é um mundo à parte, que funciona de maneira independente?

Godoy — Nós somos independentes. Vamos remando conforme a maré vai levando. Se o Governo não pode ajudar, pelo menos que não atrapalhe. Eu acho que o produtor anda com as próprias pernas. Mas não atrapalhando, o produtor sabe o que faz.