Eduardo Almeida Reis

 

CANIVETES

EDUARDO ALMEIDA REIS

Há quem diga que o mundo mudou mais nos últimos 20 anos do que em toda a história do Homo sapiens. Também na roça as mudanças nos assustam ou encantam. Assustam quando se vê a senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) enlamear sua biografia defendendo a dona Dilma; encantam quando se vê a colheita mecanizada do café, do milho, da soja. E os tratores sem tratoristas orientados pelo GPS americano, ou pelo Glonass russo, pelo Galileo da União Europeia ou pelo Compass chinês.

No Rio da Olimpíada 2016, o GPS automotivo custa menos que 200 reais e pode conduzir o dono do carro para regiões em que será abatido a tiros de fuzis AK-47. Sem GPS automotivo, que ainda não existia, circulei à noite por muitas dessas regiões dirigindo veículos cheios de caixas de ovos de granja, daqueles de cascas vermelhas, que continuo preferindo até hoje.

Nem se diga que investir os meus salários e o dinheiro de continuados empréstimos bancários em uma granja de galinhas tenha sido a única besteira que fiz na vida. Lembro-me de outras piores e mais perigosas, todas legais, e a burrice maior talvez residisse aí: tentar ganhar dinheiro em atividades legais, quando o bom negócio no Brasil tem sido assaltar a Petrobras, a Eletrobras, a Nuclebrás, tudo que termine em “bras”, com ou sem acento.

Em meio século de jornalismo agrícola passei por situações curiosas. Uma delas foi visitando fazendas-modelo no interior de São Paulo em companhia de um contraparente, sujeito gordo, barulhento e idiota como poucos.

Visitamos fazenda de gado leiteiro pelas instalações modernas, que fotografei e copiei em nossa fazenda fluminense. Era um mar de aftosa – o rebanho inteiro afetado.

De lá seguimos direto para conhecer modelar suinocultura. Com dois minutos de conversa, o gerente nos disse que o grande problema sanitário do rebanho seria um surto de febre aftosa – e nós com as mesmas roupas, os mesmos calçados da visita ao rebanho afetado.

O imbecil do contraparente, que tinha visto o rebanho afetado uma hora antes, balançou os seus untos e usou seu vozeirão para começar a contar que vínhamos de uma visita ao rebanho afetado. Dei-lhe um pontapé e o arrastei para o carro, com o resto da família, sem que o gerente da suinocultura entendesse minha reação.

Até hoje não sei se transmitimos aos porcos os vírus da família dos picornavírus e o beócio do contraparente ficou chateado com o pontapé. Mas houve episódios divertidos, como na tarde em que fui visitar famoso criador de animais da raça Mangalarga, que tinha em suas cocheiras um reprodutor de 24 anos, então o cavalo mais famoso e mais caro de São Paulo.

Tarde muito quente. No pomar da fazenda, tirei do bolso o canivete Rodgers para descascar uma laranja. Ele mesmo, um dos velhos canivetes Joseph Rodgers que sempre transportei no bolso da calça cáqui. Indumentária de fazendeiro: botina de elástico e calça cáqui. Ainda tenho dois Rodgers na gaveta do escritório. Canivete virou “arma de terrorista”. Em uma de minhas últimas viagens de avião, faz tempo, fui obrigado a deixar o meu Rodgers guardado com a mocinha da bonbonnière do aeroporto.

Quando viu o canivete, o fazendeiro paulista exclamou: “Rodgers! Já possuí um desses...”. Interrompi o descascamento para explicar: “Possuiu, não, o senhor possui, que este é seu assim que eu acabar de descascar a laranja”.

Pra quê? O homem só faltou chorar. Mandou tirar da cocheira o garanhão de 24 anos, cavalo mais caro da raça criada pelos paulistas, e fez questão que eu montasse. Agradeci a oferta do repasse, mas preferi duas cervejas geladas. Um dos 10 Mandamentos do Fazendeiro Feliz é só montar cavalo capão.

Os outros Mandamentos eram: casar com mulher feia, fazer horta do lado de baixo do rego, gado mestiço, machado Collins, querosene Jacaré, relógio Omega ferradura, lampião Aladim, canivete Rodgers, automóvel Chevrolet. Fui ao Google para ver se achava a foice David Castro, feita em Juiz de Fora com aço de mola de caminhão. Há 127 mil entradas para David Castro, várias delas sobre um sujeito que matou a mulher com golpes de foice em Castro, Paraná. Nenhuma para a foice, que era muito boa e deve ter acabado como acabaram os bons tempos.

Saudosismo? Claro que sim. Ando saudosista de uma porção de coisas, a começar pela idade que tinha naqueles tempos. Só damos valor aos 20, aos 30 e aos 40 anos depois de passar por eles; mas o pior, mesmo, é quando começamos a sentir saudades dos 50. E o meu espaço, felizmente, acaba por aqui.