Plantio Direto

 

ROTAÇÃO DE CULTURAS para a qualidade do PD na Região Sul,

Lutécia Beatriz Canalli, Ivan Bordin e Ronaldo Hojo, pesquisadores do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar)

Embora amplamente adotado em várias regiões do Brasil, o sistema plantio direto (SPD) ainda deixa a desejar em qualidade. Para que o sistema seja sustentável são necessárias que três premissas básicas: mínimo revolvimento do solo, permanente proteção do mesmo com palha ou com culturas em desenvolvimento e a efetiva rotação de culturas. Dentre elas, a rotação é a mais negligenciada. O que se observa é que a maioria dos agricultores utiliza sucessão de culturas e não de rotação de culturas. Esclarecendo a diferença, a sucessão de culturas é o cultivo das mesmas espécies por muitos anos na mesma área. Como exemplo a sucessão trigo/soja; aveia/soja ou soja/milho safrinha repetidamente ao longo dos anos na mesma área.

Considerando somente a Região Sul, pode-se dizer que é uma região privilegiada, com chuvas bem distribuídas ao longo de todo o ano, sem problemas com escassez por vários meses como ocorre, por exemplo, nas Regiões Centro- Oeste, Norte e Nordeste. No Sul, há a possibilidade de cultivo de culturas de inverno e verão e, em alguns casos, até três culturas anuais. Apesar disso, percebe- se que muitas áreas ficam em pousio por algum tempo, normalmente de dois a três meses sem nenhuma cultura. O ideal seria colher e já em seguida plantar a próxima cultura, deixando o mínimo de intervalo possível entre a colheita de uma cultura e o plantio da seguinte.

Na foto, a braquiária, que foi sobressemeada após o início do desenvolvimento do milho, em pleno desenvolvimento após a colheita do milho safrinha

O cultivo da soja seguida pelo milho safrinha, em locais mais quentes da Região Sul, como Norte, Noroeste e Oeste do estado do Paraná, é muito comum. Depois da colheita do milho safrinha, normalmente em junho ou julho, o produtor opta por não plantar nenhuma cultura antes do próximo cultivo de soja, a qual é semeada geralmente em outubro. Portanto, a área fica cerca de dois meses ou mais em pousio. Outra situação semelhante é a que ocorre nas regiões mais frias do Sul, onde a colheita da soja acontece geralmente em final de março ou início de abril e o trigo é semeado só em junho ou julho, ficando essas áreas dois ou três meses em pousio.

O pousio ou “descanso da área” foi uma estratégia muito usada antigamente com o objetivo de deixar a área em descanso para recuperar a fertilidade. Na época, não se usavam tecnologias como correções do solo e adubações das culturas, ou seja, os cultivos eram mais rudimentares e dependentes do que o solo pudesse oferecer. Atualmente, esse recurso é totalmente desconexo com o objetivo de alta produtividade e maximização dos fatores de produção. Ao contrário, o pousio propicia a infestação da área por plantas daninhas, e abre caminho para a erosão, mesmo em plantio direto, uma vez que, quando da ocorrência de chuvas pesadas, ocorre o arraste da palha e do solo pela enxurrada para os mananciais de água, assoreando- os.

Objetivos e vantagens da rotação — A rotação de culturas tem por objetivo dinamizar e diversificar os sistemas de produção, visando à sustentabilidade dos mesmos, tornando-os mais eficientes, com maior qualidade e melhores produtividades. O planejamento dos cultivos tem que contemplar os interesses econômicos do agricultor, mantendo as culturas que são âncoras em termos de renda, como a soja, o milho, o feijão, o trigo. Portanto, o que se propõe não é abandonar os cultivos principais, mas sim sistematizá-los e dinamizá- los, com a inclusão de outras culturas comerciais ou plantas de cobertura, com o objetivo de potencializar a renda, melhorar a fertilidade do solo e reduzir os impactos negativos como plantas daninhas, doenças, erosão, entre outros.

A rotação de culturas tem por objetivo dinamizar e diversificar os sistemas de produção, visando à sustentabilidade e tornando-os mais eficientes

Além dos aspectos já mencionados, é preciso estar atento a outro problema, o fato de que, quando se cultivam as mesmas culturas na mesma área por muitos anos seguidamente, propicia-se o aparecimento de pragas e doenças. O agente causal da doença (vírus, bactéria ou fungo) pode permanecer na área de forma inativa por períodos longos (um ano ou mais) e, assim que se semeia a cultura susceptível, a doença ressurge com força, trazendo ainda mais prejuízo que no ano anterior.

Arma contra nematoides — Outra preocupação bem atual que o agricultor tem enfrentado é o problema de áreas de lavoura infestadas com nematoides, trazendo prejuízos bastante significativos, principalmente para a soja, que tem a maior área cultivada. Nem é preciso dizer o que isso significa para os agricultores. Controle eficiente de nematoides se faz com rotação de culturas e várias plantas de cobertura são eficientes. Porém, é necessário um diagnóstico com análise do solo e de raízes para identificar a espécie problema e definir qual a melhor solução.

Existem fatores que não se pode mudar como, por exemplo, as condições climáticas. Mas outros estão ao alcance para se mudar e saber o que fazer, o que pode tornar os sistemas mais produtivos e eficientes. Pode-se evitar o cultivo da mesma cultura na mesma área seguidamente, planejando melhor e fazendo efetivamente a rotação de culturas. Pode-se usar culturas resistentes em lugar das susceptíveis eliminando o problema de praga ou de doença. Também é possível incluir culturas nos intervalos que ficam em pousio.

Enfim, pode-se e deve-se diversificar os sistemas de produção para que se possa colher bons resultados, não somente econômicos com boas produtividades, mas também melhorar a fertilidade dos solos. Com a rotação de culturas, o agricultor pode cultivar as culturas de seu interesse, porém, sem repeti-las na mesma área dentro de dois anos preferencialmente. Isso fará toda a diferença. Vale ressaltar também que a inclusão do milho nos sistemas de produção traz grande aporte de resíduos, favorecendo a proteção do solo e o aumento de matéria orgânica, conferindo mais qualidade ao sistema plantio direto.

Plantas de cobertura — Quando a área não for cultivada com plantas de interesse comercial é importante que o agricultor use plantas de cobertura, visando melhorar a fertilidade do solo, com o aumento da matéria orgânica e melhoria da estrutura do solo. Diferentes culturas com diferentes sistemas radiculares exploram diferentes profundidades e volumes de solo, propiciando a ciclagem de nutrientes e, consequente a sua disponibilidade para os cultivos subsequentes. As raízes das culturas também são responsáveis pela estruturação do solo, podendo algumas delas fazer um excelente trabalho de descompactação do solo como o nabo-forrageiro.

As plantas de cobertura leguminosas (tremoços, ervilhacas, ervilha-forrageira, crotalárias) realizam a fixação biológica de nitrogênio (N), deixando o solo rico nesse nutriente após seu manejo, suprindo os cultivos subsequentes com N. Isso permite reduzir o uso de adubação nitrogenada, com consequente redução do custo de produção, porém, mantendo os níveis de produtividade desejados.

Com relação aos intervalos entre colheita e plantio mencionados anteriormente, é possível incluir culturas de ciclo curto com o objetivo de cobrir e proteger o solo e formar palhada, que após a decomposição vão disponibilizar nutrientes para os cultivos subsequentes, ou mesmo incluir culturas comerciais de ciclo curto e obter renda extra no ano. Pode ser incluído, após a soja e antes do trigo, o trigo-mourisco, cultura de ciclo curto, de 70 a 90 dias dependendo da cultivar, e que tem demanda pelo mercado, inclusive para exportação. Ou a cultura do nabo-forrageiro, que se desenvolve rapidamente, proporciona boa cobertura do solo, além de descompactá- lo.

Aliás, o nabo-forrageiro deve sempre fazer parte dos sistemas de rotação para evitar que os solos compactem, principalmente em áreas onde se produz milho para silagem e há o tráfego intenso e pesado de maquinário. Após o milho safrinha também é possível usar o centeio que tem rápido desenvolvimento e pode perfeitamente se encaixar antes do próximo cultivo de verão. Principalmente se for a soja, que na região mais fria do Sul é plantada geralmente em novembro. Podendo o centeio ser cultivado como planta de cobertura ou como grão.

Pensando em dar mais segurança ao agricultor para a definição do ciclo de rotação de culturas, o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) está desenvolvendo pesquisas de longo prazo, iniciadas em 2014 em quatro regiões distintas do estado: Norte (Londrina) e no Oeste (Santa Tereza do Oeste), em solo derivado de basalto; no Noroeste (Umuarama) em solo arenoso e, na Região Centro-Sul (Ponta Grossa), em solo derivado de sedimentos. Estão sendo comparadas seis rotações de culturas diferentes, tendo como testemunha a sucessão mais simples adotada pelos agricultores de cada região.

Os outros tratamentos incluem mais diversidade, alguns com maior tendência ao mercado. Alguns com culturas potenciais ainda pouco utilizadas, mas já comprovadamente positivas sob o ponto de vista agronômico e econômico. Já outros com maior inclusão de plantas de cobertura. E ainda mais com ajustes importantes para sistemas integrados de lavoura e pecuária. Acreditamos que com dados de longo prazo haverá informações suficientes e comparações muito claras para subsidiar os agricultores na definição de sistemas de rotação mais sustentáveis.