Fitossanidade

 

gestão da PULVERIZAÇÃO eficiente

A telemetria promete uma nova revolução no campo. A cada 5 segundos, o sistema registra as condições de trabalho do pulverizador e envia essas informações a um servidor, o que permite alguém avaliar o desempenho do trabalho em qualquer lugar. Os mapas descrevem todas as ações da máquina

Engº Agr. Fabio Pernassi Torres e Engº Eletr. Alan de Almeida Barros Leite, Departamento de Agricultura de Precisão da Jacto

A agricultura vem sofrendo nas últimas décadas uma grande revolução. O início da agricultura de precisão, na década de 1990, permitiu ao produtor conhecer em detalhes as características dos seus solos e também ter informações localizadas de pragas, ervas daninhas ou doenças. Cada metro quadrado da propriedade passou a ser desvendado e, dessa forma, o produtor conseguiu variar o espaçamento das sementes, dose de calcário, fertilizantes, agroquímicos e conhecer ao final do ciclo a produtividade em cada pequena parcela de seu terreno através dos mapas de produtividade. São ferramentas que permitem buscar safras cada vez maiores e mais produtivas.

As ferramentas de agricultura trazem informações espacializadas das operações no campo. É possível conhecer também em detalhes o que cada equipamento fez na lavoura mantendo os registros para buscar continuamente melhorar a operação. A telemetria é uma das ferramentas. Originária dos modernos carros de corrida, chegou também à agricultura, permitindo ao produtor saber, mesmo à distância, se tudo corre bem enquanto o trabalho esta sendo realizado. Olhando mais especificamente a pulverização, convém lembrar que é uma das operações que representa um dos maiores investimentos durante a safra, tem grande responsabilidade no resultado final da produção e também deve estar de acordo com todas as normas vigentes respeitando o meio ambiente.

Segundo levantamento da Conab de março de 2016, o custo total de produção de soja por hectare (safra de verão 2016/ 2017, Rio Verde/GO) está em R$ 2.338,13 (operacional + financeiro), sendo que somente o investimento em defensivos representa 20,75% desse total. É preciso aplicar corretamente esse investimento para obter o retorno desejado, e a telemetria é uma ótima ferramenta para isso. Com o sistema de telemetria embarcado em seus pulverizadores, o produtor vai saber se a aplicação foi realizada da melhor maneira possível, poderá calcular o desperdício com produtos devido à sobreposição, descobrir se houve e onde ocorreram falhas na aplicação de agroquímico, entre outras possibilidades.

O funcionamento do sistema é automático durante o trabalho. A cada 5 segundos o sistema registra as condições de trabalho do pulverizador enviando-as para um servidor, no qual o cliente tem acesso exclusivo, de qualquer lugar que ele estiver, através da Internet. Mesmo a distância, é possível acompanhar as operações no campo. O sistema transmite as informações através de sinal de celular GPRS (por rádio) ou através de rede Wi- Fi. Os dados são enviados para um servidor que irá processá-los e gerar os mapas. Através de login e senha, o produtor poderá acessar a sua conta e visualizar dois ambientes distintos: Monitoramento e Mapas.

No ambiente de monitoramento, enxergam- se detalhes da operação em tempo real como velocidade, rotação e temperatura do motor, horímetro, consumo de combustível, temperatura, umidade e alarmes. Todas essas informações encontram-se de maneira organizada em abas distintas clicando sobre a localização da máquina.

As informações ficam disponíveis no portal de acesso pelo produtor e também podem ser vistos como alarmes no celular do proprietário da máquina

Outro ambiente disponível no sistema é o de Mapas, onde ficam os registros de todas as operações feitas em campo nos últimos anos. Conforme o trabalho é realizado com o pulverizador, é criado dentro do servidor um histórico de todas as operações, possibilitando consultas de como foram realizadas as operações anteriores. Para isso, basta o cliente selecionar o período desejado e qual informação ele deseja visualizar através de mapas disponíveis. O sistema gera automaticamente os seguintes mapas com as informações de interesse, que são facilmente avaliadas pelos responsáveis pela operação.

Mapa de velocidade de trabalho: variações na velocidade podem afetar diretamente a qualidade da pulverização, influenciando no tamanho das gotas e na deriva. Também têm forte influência na vida útil do equipamento e de seus componentes, devendo ser respeitada conforme recomendação do fabricante para cada modelo.

Mapa de volume aplicado: permite conferir a qualidade de aplicação da pulverização, comparando se o volume planejado está de acordo com o volume aplicado em litros por hectare. A uniformidade da pulverização é facilmente detectada apenas verificando o mapa.

Mapa de sobreposição: possibilita saber onde, quando e quanto houve de sobreposição na área selecionada. Há uma sobreposição proposital na qual o operador busca eliminar a possibilidade de deixar áreas sem o controle químico. Porém, pode ocorrer também uma sobreposição elevada devido a erros de operação. O uso de piloto automático, sinais de correção do GPS e sistemas de controle automático de seções ou controle automático bico a bico minimizam erros por sobreposição e podem ajudar na economia com esse tipo de insumo. Levantamento feito entre os usuários do sistema de telemetria mostrou que a utilização do sistema de controle automático de seções gera sobreposição média de 8% contra 14% estimados da pulverização com abertura e fechamento manual da pulverização. Já o sistema de controle de pulverização bico a bico apresenta uma média de 4,9% de sobreposição. Isso representa quase 10% de economia em agroquímicos entre o controle bico a bico e manual.

Mapa de horário de trabalho: mostra com clareza o horário que foi feita a pulverização e também a jornada de trabalho do operador. Em um caso, mais de 80% do trabalho executado foi realizado em um horário considerado inadequado para pulverização (das 10h às 15h), porém, somente o produtor e sua equipe técnica podem avaliar in loco as condições climáticas e permitir a aplicação nesses horários, se as condições climáticas permitirem.

Mapa de eventos e paradas: caso o operador tenha a necessidade de parar o trabalho por algum motivo, o sistema registra a parada com sua localização, horário e o motivo da mesma. O operador pode apontar, no monitor, um dos motivos listados entre as opções abastecimento, troca de operador, refeição, manutenção, etc. Essas informações são muito úteis para avaliar a real capacidade operacional do pulverizador e dimensionar corretamente tamanho e quantidade de pulverizadores para cada propriedade. Nesse sistema, existem também informações que auxiliam os produtores a auditar a qualidade da operação de pulverização. Dentre elas estão informações relacionadas ao motor diesel da máquina tais como temperatura, rotação e consumo de combustível, relacionadas às condições climáticas como a temperatura ambiente e a umidade relativa e os alertas e alarmes ocorridos durante a operação.

Umidade relativa durante a pulverização: Teoricamente não se recomenda a aplicação de agroquímicos com umidade relativa do ar inferior a 60%. Na prática, em muitas regiões do Brasil, é difícil encontrarmos as condições ideais, mas devemos sempre buscar trabalhar o mais próximo possível dessas condições. Além do registro das informações da pulverização e do clima, o sistema de telemetria permite também monitorar eventuais problemas mecânicos que possam estar ocorrendo, desde os primeiros sinais. Essas informações ficam disponíveis no portal de acesso pelo produtor e também podem ser vistos como alarmes no celular do proprietário da máquina, para que tome as providências o mais breve possível, evitando maiores danos ou paradas desnecessárias de seu pulverizador.

Mapa de alarmes: esse sistema pode exportar qualquer de seus mapas no formato shapefile (*.SHP), que possibilita o uso dessas informações em outros softwares de agricultura de precisão.

O sistema gera mapas com as informações facilmente avaliadas pelos responsáveis pela operação, como os exemplos acima: mapa de alarmes, mapa de horários de funcionamento da máquina e mapa de velocidade

Informações na palma da mão: é possível também que o proprietário da máquina configure alguns parâmetros no portal do sistema na Internet e receba avisos em seu celular caso o operador não esteja trabalhando corretamente. Parâmetros como temperatura ambiente, umidade relativa do ar, velocidade de trabalho ou volume aplicado podem ser definidos pelo produtor e este será avisado caso algo esteja ocorrendo de forma indesejada.

Agricultura de Informação — A ferramenta da telemetria promete uma nova revolução não só “dentro de campo”, mas também fora dele. O pulverizador pode enviar até 3 milhões de dados por dia. Esses números podem ser trabalhados através de sistemas de inteligência, nos quais algoritmos específicos os transformam em informações que permitirão que os canais de peças e assistência técnica prestem serviços de manutenção preditiva, ou seja, fazem uma intervenção ou recomendação para a troca de um determinado componente respeitando sua vida útil.

Dessa forma, pode-se reduzir os custos de manutenção e aumentar a produtividade, uma vez que a máquina terá maior disponibilidade para o trabalho. Componentes eletrônicos também podem ser atualizados a distância via sistema de telemetria, o que permitirá ao fabricante corrigir falhas em softwares ou implementar melhorias sem a necessidade de deslocar seus técnicos até as máquinas. Toda essa revolução já está acontecendo nos campos. Novos termos como Telemetria, Big Data e Analytics vão se somar ao dia a dia de quem está no campo e farão parte do seu vocabulário cotidiano, ajudando a produzir cada vez mais alimentos para o mundo.