Glauber em Campo

 

OS DESAFIOS ATUAIS E OS DA PRÓXIMA SAFRA

GLAUBER SILVEIRA

A safra que passou deixou marcas profundas no produtor em diversas regiões do Brasil. Recentemente eu percorri mais de 20 cidades pelo interior de Mato Grosso e pude conversar com produtores, sentir um pouco de suas ansiedades e dificuldades. O ultimo El Niño fez um estrago na safra brasileira, deixando os produtores com muitas dificuldades, e é preocupante a realidade de muitos. As regiões Norte e Leste de Mato Grosso, assim como os estados da Bahia, Piauí, Maranhão e Tocantins, foram muito afetadas. A produtividade da soja em algumas regiões foi prejudicada em até 50%, e o milho em muitas áreas nem foi colhido. O resultado do milho foi muito mais severo, com perdas de até 70%. Para se ter uma ideia, a quebra do cereal em Mato Grosso foi superior a 7 milhões de toneladas.

A situação da Região Nordeste é sem dúvida muito mais grave, afinal, ela já vem de safras anteriores com perdas. Para o Nordeste e também algumas áreas do Mato Grosso, a situação complica-se no algodão, no qual a quebra foi grande, com prejuízos que ultrapassam R$ 2 mil por hectare. E, como se diz, “prejuízo de algodão só se paga com algodão”.

Claro que toda essa baixa produtividade da primeira safra e também da segunda afeta toda a cadeia. Afinal, se o produtor entra em dificuldades de caixa, as contas ficam em aberto, e isso afeta o crédito de todos, sejam produtores, revendas, fornecedores de insumos, etc. No milho, assim como no algodão, tem-se um agravante que é o contrato de entrega futura feito por muitos produtores que venderam antecipado, travando um preço e, agora, não conseguem cumprir com a entrega devido à quebra de produção. Muitas empresas estão negociando com os produtores o pagamento de multas por descumprimento contratual. Claro que a negociação é complicada. Muitas empresas aproveitamse da dificuldade dos produtores, que é de força maior. Algumas querem cobrar multas de 50%, o que é um verdadeiro abuso. Sem falar na renegociação com alguns bancos, que também exageram nas taxas de juros.

É importante deixar claro que essa situação independe da vontade do produtor. Sendo assim, nessas horas é que se testam os verdadeiros parceiros do agronegócio. Os produtores devem estar atentos às renegociações, refletir bem sobre o caminho a seguir. É preciso buscar apoio nas instituições como os sindicatos rurais e as entidades de classe como as Aprosojas, para que, em grupo, possam enfrentar as dificuldades dessa safra que vai deixar sequelas profundas.

Mas precisamos pensar no futuro. Como eu já disse no artigo anterior, o mundo cresce em população e demanda. Apesar de todas as dificuldades mundiais, a demanda continua crescente. Claro que, com relação à soja, os produtores norte-americanos vêm confirmando uma supersafra, o que pressiona os preços para baixo. Já tivemos ótimos preços, mas, infelizmente, muitos produtores não travaram o preço.

Fica a pergunta: será que ainda teremos bons preços? Eu sinceramente espero que sim, mas tudo indica um câmbio mais baixo, aproximando-se de R$ 3. Sendo assim, os preços em reais que foram ofertados podem ser mais difíceis de receber, devido à safra cheia dos EUA e do câmbio. É importante agora os produtores estarem atentos e irem aproveitando preços positivos, que devem ocorrer ainda devido à volatilidade do preço inerente a commodities.

Além do preço que preocupa para o futuro, temos ainda toda uma dificuldade de crédito, afinal, o custeio oficial está menos disponível devido à crise brasileira. Revendas estão com dificuldades de se refinanciar e, portanto, de fornecer insumos a produtores. Muitos produtores reclamam que ainda não têm comprado fertilizante e sementes, e daqui a 30 dias a nova safra se inicia, o que é preocupante. A esperança é a diversidade de financiamento que tem a safra brasileira. Ao contrário de outros países, que é em sua maioria bancária, aqui se tem um leque de agentes financiadores. Em safras anteriores, víamos uma saída de tradings do financiamento, mas, sem dúvida, nesta safra devem ocupar um espaço importante. Os produtores precisam apenas estar atentos às taxas de juros, afinal, a rentabilidade está baixa. Desejo sucesso e sorte a todos. E que Deus abençoe e possamos ter uma safra futura produtiva e rentável.

Presidente da Câmara Setorial da Soja, diretor da Aprosoja e produtor rural em Campos de Júlio/MT