Na Hora H

 

ESTAMOS CERTOS DE QUE DESTA VEZ O SEGURO RURAL SERÁ PRA VALER

ALYSSON PAOLINELLI

As decisões e os últimos pronunciamentos do Governo, principalmente as do ministro da Agricultura, Blairo Maggi, dão-nos a confiança de que se o setor privado estiver disposto a melhorar a administração dos recursos que usam para cobrir os seus riscos, como anteriormente já foi discutido entre nós, tenho a certeza absoluta de que muito em breve estaremos implantando um novo Sistema de Seguro Rural sui generis. Isso colocará o Brasil no rol dos países que protegem os seus produtores dos riscos das intempéries e até do próprio mercado, garantido a renda deles. Se conseguirmos compartilhadamente administrar os custos dos riscos usados atualmente no País em cada uma das cadeias produtivas, em um sistema de mercado, vamos verificar que será possível, sem nenhum gasto a mais, garantir os nossos produtos e produtores com um seguro rural de “gente grande."

Hoje, inevitavelmente, cada segmento da cadeia produtiva, pela própria falta do seguro rural, cobra em seus preços valores que possam lhes dar a tranquilidade de não ser os únicos a pagar o prejuízo dos sinistros, sejam das intempéries climáticas ou as variações dos preços no mercado. Como todos os segmentos têm essa mesma atitude, quem acaba pagando sozinho é o produtor rural. Como o produtor sozinho não é capaz de realizar essa façanha, acaba empurrando parte desses custos para o Governo, quem, reconhecendo que o pleito do produtor e seus líderes é justo, acaba aceitando pagar parte desses custos via Tesouro Nacional. Daí o grande “esqueleto” que já se tem no “armário” do Tesouro Nacional que, é lógico, será pago por todos nós brasileiros, pois há muito tempo não se tem de fato saldos ou sobras financeiras que comportem esqueletos desse tamanho.

Do outro lado, como a maioria dos produtores também não têm renda suficiente para pagar a parcela que lhe cabia, acaba indo para a clandestinidade, sem crédito rural para plantar as suas novas safras e ainda competir no mercado internacional com os seus parceiros totalmente protegidos. Isso nos leva à lembrança do ano de 2012, quando, nos Estados Unidos, os produtores rurais de lá sofreram uma grande estiagem que em certas regiões se chegou a perder 100% de suas lavouras.

Estive lá em uma delas. Conversei com o produtor. Confesso que ele estava aborrecido por não ter colhido nada de suas lavouras, mas estava tão tranquilo e só falava na continuação da implantação do seu projeto, pois a sua renda do ano anterior já havia sido coberta pelo seguro rural que o Governo de lá havia propiciado. Parei e pensei: como poderemos concorrer com estes homens desse jeito? Lá o governo e o seu Tesouro são fortes e arcam com tudo. E aqui? É por isso mesmo que teremos de ser imaginosos, usando os recursos que se jogam pela “janela” dos custos dos nossos riscos e, de forma competente, administrá-los em benefício de todos. Para isso, temos de fazer uma advertência: seguro é coisa séria e tem de ser administrado com seriedade. O que é prometido tem de ser cumprido à risca, inclusive pelo próprio Governo.

Estaremos nos próximos dias procurando discutir e esclarecer com todos os segmentos da cadeia produtiva como seria possível montar um sistema compartilhado de administração de riscos, no qual todos terão de ter a responsabilidade de gestão de forma séria e responsável dos recursos que já usam para cobrir os seus riscos. Teremos de contar com a compreensão de todos os atores dessa façanha: os produtores rurais e suas associações, as seguradoras e resseguradoras e suas associações, os prestadores de serviços, as indústrias, os bancos, os comerciantes, armazenadores, transportadores etc., os governos federal, estaduais e até municipais que serão chamados a cumprir as suas novas missões, se é que pretendem não só cumprir a própria Constituição e a Legislação vigente. Teremos de pensar em montar como manda a lei, o tão sonhado Fundo de Catástrofe e tantas outras medidas a serem incorporadas. Se de fato queremos o seguro rural implantado no Brasil, a hora chegou e depende somente de nós.

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura