O Segredo de Quem Faz

 

Trabalho em defesa do PLANTIO DIRETO

Denise Saueressig denise@agranja.com

Um dos marcos tecnológicos da agricultura brasileira, o sistema de plantio direto precisa ser bem conduzido para que seus efeitos se manifestem nas plantas e no ambiente. É com essa premissa que a Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha (Febrapdp) trabalha desde 1992, quando produtores se uniram para trocar e transmitir experiências sobre a técnica que foi introduzida no País na década de 1970. Hoje o trabalho vai além. Acompanhando as tendências do campo, a Febrapdp passou a ser, em 2013, a Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação. Presidente da entidade que tem sede em Foz do Iguaçu/PR, o engenheiro agrônomo Alfonso Adriano Sleutjes, 43 anos, fala sobre a evolução e os desafios do sistema no País e conta sobre os negócios da família no estado de São Paulo. Nas propriedades do Grupo Sleutjes, o PD e a irrigação são partes essenciais de um projeto baseado em diversificação e sustentabilidade.

A Granja – Como é a sua trajetória junto à Febrapdp e quais os mais importantes projetos da federação atualmente?

Alfonso Adriano Sleutjes – Sou presidente da Febrapdp há cinco anos e estou no terceiro mandato. Ou seja, tenho mais um ano pela frente. Futuramente, como tenho uma ligação muito próxima com a federação, é provável que ocupe outro cargo. Entre os nossos projetos mais importantes estão os Indicadores de Qualidade do PD, em parceria com a Itaipu e a Embrapa Soja. Agora estamos reaplicando os questionários que foram levados a campo em mais de 200 propriedades do Paraná no ano passado. Nossa intenção é descobrir se houve melhorias e as razões para isso. Também nos esforçamos para manter uma relação sólida com instituições de pesquisa e cooperativas para levar o trabalho da federação ao conhecimento do produtor. Trabalhamos por meio do nosso Fórum de Inovação, que é um encontro com lideranças em diferentes regiões para identificar demandas para a melhoria na adoção do sistema de plantio direto no Brasil e projetamos a questão da certificação, que avaliamos como um estímulo financeiro para o produtor.

A Granja – Como você avalia os desafios do PD no País? O que ainda precisa evoluir na adoção do sistema?

Sleutjes – Percebemos que muitos problemas que aconteciam há 20 anos continuam ocorrendo. A erosão, por exemplo, é um deles. O modelo que vem sendo adotado é uma intensificação do cultivo, mas com pouca rotação de culturas e muitas vezes com inserção de plantas de cobertura abaixo do necessário, o que ocasiona a compactação do solo e diminui a infiltração de água. A correção do problema com equipamentos é momentânea. Quando se trabalha com plantas, pensa-se no sistema em médio e longo prazos, com melhoria da matéria orgânica e com obtenção de muitos outros benefícios. Então, os produtores mudaram o sistema e a erosão continua acontecendo. O que mudou é que temos máquinas e herbicidas para quase todos os tipos de cultivo, de solo e de topografia.

A Granja – Esse problema que gera a erosão acaba refletindo na produtividade?

Sleutjes – Sim. Se analisarmos um ano seco, em uma área compactada, o solo terá menos água para disponibilizar para a planta. Ou seja, os prejuízos serão agravados nesse caso, lembrando que o baixo teor de matéria orgânica também prejudica a retenção de água.

A Granja – Como nunca é demais lembrar, quais são os princípios do PD que nunca podem ser deixados de lado pelo produtor?

Sleutjes – Sempre deve haver uma planta viva no solo para aumentar a biodiversidade e o teor de matéria orgânica. Algumas vezes, pelos custos de uma adubação verde, o produtor acaba deixando de lado essa prática. Da mesma forma, um bom volume de palhada é importante para proteger o solo dos efeitos da chuva e do sol. A rotação de culturas e o mínimo revolvimento também são práticas fundamentais.

A Granja - Como está a evolução do plantio direto no Brasil?

Sleutjes - A adoção no Cerrado cresceu bastante. Foi uma região onde o sistema foi introduzido mais tarde, mas o crescimento foi bastante rápido. No Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo a adoção foi anterior, mas hoje percebemos que os números estão estagnados. No total, o Brasil tem em torno de 35 milhões de hectares com plantio direto, e há potencial para ampliação. Mas observamos que às vezes o produtor está tão envolvido com as atividades do dia a dia que acaba deixando de lado práticas que são importantes para a conservação do solo e para as futuras gerações. Recomendamos que, se ele não puder utilizar o sistema em toda área, que comece aos poucos. É um sistema que pode ser ajustado aos diferentes perfis de produtores, desde as pequenas áreas até as grandes propriedades. Hoje existe PD em horticultura, fruticultura, cana-de-açúcar, mandioca. Há muitas técnicas para incorporar o sistema em muitas culturas.

A Granja – E como está a evolução do PD no mundo?

Sleutjes – Na Europa, a adoção ainda é baixa, e a justificativa é o clima mais frio, que faz com que os produtores continuem optando pelo revolvimento do solo. A França possivelmente é o país europeu com as principais iniciativas. Lá, a APAD (Associação para a Promoção da Agricultura Sustentável) trabalha para difundir o sistema. Em paí-ses como Estados Unidos, Canadá e Austrália a adoção é maior. Na África, existe um movimento interessante, com boas experiências no Quênia, por exemplo. É interessante que eles vêm adaptando técnicas do sistema respeitando os conhecimentos locais.

Na China existe um grande incentivo do governo para adoção do sistema, com base na experiência brasileira. Já nas Américas, o PD é praticado em diferentes países, como Argentina, Uruguai, Chile, Paraguai e México. Resumidamente, existe PD em todos os continentes, com algumas variações devido às questões climáticas. Trabalhamos, como entidade filiada à Caapas (Confederação das Associações Americanas para uma Agricultura Sustentável), para ampliar a divulgação dos benefícios do sistema em diferentes países. Esse esforço é bastante significativo e dá continuidade ao trabalho que iniciou pelos precursores do sistema no País: Nonô, Bartz e Franke (produtores Manoel Henrique “Nonô” Pereira, Herbert Arnold Bartz e Franke Dijkstra).

A Granja - A irrigação foi incorporada ao nome da Febrapdp em 2013 e uma das justificativas é que a técnica, junto com o plantio direto, representa as melhores opções tecnológicas para o desenvolvimento da agricultura. Qual é o potencial da irrigação no Brasil?

Sleutjes - O potencial do País é muito grande. Estimativas da Agência Nacional de Águas (ANA) e do Ministério da Integração Nacional indicam que podemos ampliar a irrigação dos atuais 6,5 milhões de hectares para 30 milhões de hectares. No entanto, há entraves na infraestrutura, principalmente relacionados à energia elétrica, e nas questões ambientais. Se analisarmos o aproveitamento de insumos, se houver um estresse climático em uma área de sequeiro, o impacto ambiental de adubos, defensivos e óleo diesel será bem maior do que nas áreas irrigadas.

Sem falar nas médias de produtividade mais estáveis, com diminuição de riscos para o produtor, como se fosse um seguro agrícola. A infraestrutura e a mão de obra das propriedades também passam a ter um aproveitamento melhor, o que ajuda na profissionalização do produtor e das pessoas que trabalham com ele e que passam a ter um maior nível de conhecimento nas suas tarefas. Outra vantagem da agricultura irrigada é a estabilidade que ajuda a atrair agroindústrias para as regiões onde a técnica é disseminada.

A Granja – Em setembro a Febrapdp realiza o 15º Encontro Nacional de Plantio Direto na Palha. Quais serão os principais destaques da programação deste ano?

Sleutjes – Nosso encontro será em Goiânia, de 20 a 22 de setembro. Teremos dez minicursos abordando diferentes temas, além de palestras sobre sistemas de adubação, uso de drones, perfil de solo, irrigação, plantio direto em fruticultura e horticultura, integração lavoura-pecuária, entre outros assuntos. Um tema bem importante será o controle biológico, que é uma das estratégias que acreditamos que possa proporcionar um maior equilíbrio ao ambiente produtivo. Nos últimos anos, notamos o investimento de multinacionais nessa área, o que é muito bom, já que são empresas que têm recursos para investir em pesquisa.

A Granja – Conte um pouco sobre a história da sua família com o campo.

Sleutjes – Tenho uma ligação muito forte com a terra, fui criado no meio rural. Cursei colégio agrícola e Agronomia no Paraná e, assim que me formei, em 1994, voltei para São Paulo para trabalhar com minha família. Meu pai veio da Holanda ainda criança, depois da Segunda Guerra Mundial e, já adulto, buscou suas próprias terras para produzir. Foram criados grupos de produtores que foram para localidades diferentes e meu pai foi para a região que hoje é Campos de Holambra, distrito de Paranapanema.

Na época, há uns 40 anos, só havia pecuária na região, as terras eram mais baratas em comparação com outras localidades, mas o solo tinha pouca qualidade para a agricultura. A maioria dos produtores ainda usava tração animal e arado para formar a lavoura. Meu pai alugava o trator do vizinho para poder trabalhar à noite nos 40 hectares que tinha na época. Aos poucos, o cenário foi mudando, e o que era conhecido como ramal da fome, hoje é um dos principais polos agrícolas do estado de São Paulo. São 92 mil hectares com pivô central na região, que é focada na agricultura irrigada com plantio direto.

A Granja – E qual é a estrutura dos negócios atualmente?

Sleutjes - Trabalho com meu pai, Adrianus A. M. Sleutjes, e meus dois irmãos, Walter e Sergio. Em 1995, logo depois da minha formatura, meu pai criava gado e mantinha agricultura em uma área irrigada de 180 hectares que ele iniciou em 1989, quando comprou os primeiros pivôs. Aos poucos, junto com meus irmãos, fomos arrendando áreas e estabelecendo parcerias.

Hoje são em torno de mil hectares irrigados de lavoura. A pecuária continua apenas em áreas que não são aptas à agricultura, e ainda há reflorestamento em 130 hectares. As propriedades com agricultura ficam em Angatuba e Avaré, e a área com pecuária fica em Campos de Holambra. No total, entre áreas próprias e arrendadas, irrigadas e de sequeiro, são 3,5 mil hectares em safra e safrinha. Procuramos diversificar a produção com o cultivo de soja, feijão-carioca, milho comercial e milho semente, trigo, cevada, aveia e milheto. Estamos há três anos sem plantar algodão, mas esperamos retomar a cultura um dia.

A Granja – Como são as produtividades nas lavouras?

Sleutjes – Quando a chuva fica dentro da normalidade observamos pequenas diferenças nas produtividades das áreas irrigadas e de sequeiro. A média geral da soja é de 72 sacas por hectare. No feijão, 55 sacas por hectare. O milho é cultivado em três períodos diferentes. No plantio de agosto, a produtividade é de 220 sacas por hectare, enquanto a lavoura de novembro varia entre 170 e 180 sacas. Já no cultivo pós-soja, o rendimento é de 145 sacas por hectare. O trigo, assim como a cevada, tem grandes oscilações. Já observamos variação de 55 a 70 sacas por hectare no trigo, que entra no sistema como rotação de culturas.

A Granja – Quais foram os últimos investimentos realizados pela família?

Sleutjes – Nos últimos dez anos, investimos muito nas questões trabalhista e ambiental, como reserva legal e recuperação de áreas. Trabalhamos para buscar o equilíbrio da parte financeira com a parte de infraestrutura e de colaboradores, que hoje são 40. A área vem crescendo ao longo dos anos, mas uma expansão significativa foi feita em 2015, quando incorporamos 500 hectares.

A Granja – Vocês têm planos para continuar a ampliação das lavouras e das áreas irrigadas?

Sleutjes – Nossa intenção é continuar crescendo. No entanto, os grandes limitantes são a questão ambiental, dos reservatórios, além da disponibilidade de energia elétrica, ou seja, infraestrutura. São questões que vão além da nossa vontade de investir, até porque a dinâmica da irrigação diminui a sazonalidade, com maior equilíbrio de caixa e diminuição dos riscos na atividade. Nosso projeto para os próximos dez anos é trabalhar com integração lavoura- pecuária em 30% da área, expandir a área própria em torno de 50% e ampliar o plantio para entre 6 mil e 6,5 mil hectares.