Eduardo Almeida Reis

 

CHAMINÉS

EDUARDO ALMEIDA REIS

Há dois meses escrevi sobre os hóspedes que recebemos em nossas roças. É tempo de falar das ocasiões em que, sozinho ou com minha família, invadi roças alheias. Quase sempre a convite, é bom que se diga.

O Estado do Rio tinha e tem, a exemplo dos demais estados, um Tribunal de Justiça. Ali por volta de 1960, os desembargadores recém-empossados recebiam uma espécie de cartilha comportamental com instruções e advertências diversas. Uma delas alertava para o risco de hospedagem na fazendola serrana de famoso advogado.

Pois muito bem: pelas quatro da tarde, o casal recebia cópia do menu do jantar daquele dia e a carta de vinhos para escolher o tinto e o branco que gostariam de tomar. Depois, haveria sessão de cinema no home theater do advogado, com o direito de escolher um filme entre vários famosos.

À noite, no quarto aquecido (a região é fria), a esposa comentava com o marido: “O doutor Fulano é um amor”. E o desembargador, a partir de então, reservava o fundo de seu coração para as causas defendidas pelo escritório do advogado.

Ora muito bem: hospedei-me na tal fazenda a convite do dono, recebi o cardápio, escolhi o vinho, fumei um charuto e dispensei o cinema: nunca fui cinéfilo.

Manhã seguinte, ainda cedo, de botas e culote, café tomado, fui conhecer a tropa de animais de hípica. O tratador me contou de um cavalo que havia chegado na véspera, zaino, muito alto. Escovado e selado, montei e saí. Nunca fui grande cavaleiro, mas cavaleiro grande, 1,88m, mais de 100 quilos. A cavalgada deve ter durado três ou quatro horas passando pelos bairros próximos da fazendola, ruas asfaltadas, automóveis, muita gente. Cavalo meio assustado, mas deu para o gasto.

O tableau (rolo) ficou para mais tarde, quando voltei do passeio e fiquei sabendo que a nora do advogado, amazona na Hípica do Rio, depois que fui dormir, exibiu todos os petrechos que havia trazido para “amansar” o imenso cavalo recém-adquirido.

Só quando chegou às cocheiras com todos aqueles cabrestos, e laços, e sogas, e antolhos, a amazona ficou sabendo que um moço (sic) havia saído com o cavalo. Ficou furiosa.

De outra feita, com mulher e filhas nas férias de julho, inauguramos a sede da fazenda de um amigo. Vizinha de Lambari fica a Serra das Águas ou Serra de Campanha: muito alta, muito fria, sujeita a certos mistérios. De vez em quando, sem pedir licença, um helicóptero pousa naqueles altos, descem dois sujeitos, recolhem algumas pedras, embarcam na aeronave e vão-se embora sem maiores explicações. Há quem fale de urânios e coisas parecidas.

Subimos a serra, estradinha terrível, chegamos à nova sede e encontramos o fazendeiro com mulher e filhos arrasados, planejando hospedagem em um hotel de Lambari ou Cambuquira, cidades próximas. Explicação: a bela sede, com seis quartos e três banheiros, havia sido construída contando com os préstimos de imenso fogão a lenha para aquecer a água de uma caixa de 200 litros, de amianto revestido com isolante de fibra de vidro, que distribuiria água fervente para os banheiros e as torneiras da cozinha.

Só havia um problema no português de Portugal, terra dos fazendeiros e seus filhos: “O fogão deita fumo”. Deitando fumo, enchia a casa de fumaça, que não saía pela chaminé. Lá fora, termômetros em torno de 4ºC e muito vento, sensação térmica de vários graus negativos.

Acontece que estudei chaminés, fogões e lareiras quando construí, alguns anos antes, uma casa em lugar muito frio. Examinando a situação, concluí que a ventania não deixava a primeira fumaça sair pela chaminé. Já contei o caso aqui mesmo n’A Granja, mas repito porque foi o meu dia de glória no acesso de inteligência que tinha de dez em dez anos.

Ajudado por um operário, peguei lata velha de 20 litros tinta, que foi recortada no diâmetro do cano da chaminé, furos de um só lado, o empregado subiu no telhado e fixou minha “invenção” no alto da chaminé, com a lateral sem os furos virada para os ventos dominantes e o fogão foi acesso com uma tiragem que era uma beleza. Em pouco tempo a caixa de 200 litros tinha água a ferver e a nova sede foi oficialmente inaugurada. Passamos por lá três ou quatro dias morrendo de frio, mas tomando banhos quentes e vinhos portugueses.