Plantio Direto

 

Sistema de semeadura direta e adubação FOSFATADA

Ciro Antonio Rosolem, vice-presidente de Estudos do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS) e professor titular da Faculdade de Ciências Agrícolas da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (FCA/Unesp, Botucatu/SP)

Os sistemas de cultivo influenciam grandemente o comportamento dos nutrientes no solo. No sistema de semeadura direta (SSD) normalmente ocorre acúmulo de matéria orgânica na superfície, ocasionando aumento na disponibilidade de alguns nutrientes nas camadas mais superficiais do solo, como é o caso do fósforo (P). Em solos nos quais a fração argila é composta predominantemente por oxihidróxidos de ferro e de alumínio, a capacidade de sorção do P é alta. Por isso, com adições de fertilizante fosfatado onde o solo é revolvido, há exposição de novos sítios de adsorção, contribuindo para a sua retenção com maior energia, como acontece no sistema convencional, exigindo doses elevadas para manter a alta disponibilidade.

Do mesmo modo, a incorporação dos resíduos vegetais facilita o ataque de microrganismos, dificultando o acúmulo de matéria orgânica e de P. Pela pulverização do solo e ausência de cobertura vegetal, a erosão é significativa, havendo perdas de nutrientes nos sedimentos transportavencional. Os resíduos da cultura após a colheita são os principais responsáveis pelo acúmulo de P em superfície. Ao longo do tempo, mudanças substanciais ocorrem na distribuição vertical e horizontal da fertilidade do solo em SSD em comparação a sistemas convencionais.

Há acúmulo de nutrientes (P, K e Ca) e matéria orgânica, aumento na capacidade de troca catiônica e redução no pH, nos primeiros 5 centímetros no SSD. Esse gradiente que se estabelece nos primeiros 20 centímetros do solo algumas vezes tem sido visto como não favorável. Inclusive tem sido sugeridas modificações na amostragem do solo para “pegar” melhor essa mo- Divulgação dos. Por isso, em sistemas com maior proteção do solo, como o SSD, no qual não há revolvimento e os resíduos permanecem na superfície, a eficiência da adubação fosfatada é melhorada.

"Para a cultura da soja em semeadura direta consolidada, pode-se seguir a seguinte recomendação: quando o teor de P do solo for muito baixo, baixo ou médio, há a necessidade de correção com fósforo", explica Rosolem

O acúmulo contínuo de resíduos das culturas, de adubos e de corretivos na superfície e o não revolvimento do solo determinam a formação de gradientes não só no sentido vertical, mas também maior variabilidade no sentido horizontal, quando comparado ao sistema contransportavencional. Os resíduos da cultura após a colheita são os principais responsáveis pelo acúmulo de P em superfície. Ao longo do tempo, mudanças substanciais ocorrem na distribuição vertical e horizontal da fertilidade do solo em SSD em comparação a sistemas convencionais. Há acúmulo de nutrientes (P, K e Ca) e matéria orgânica, aumento na capacidade de troca catiônica e redução no pH, nos primeiros 5 centímetros no SSD.

Esse gradiente que se estabelece nos primeiros 20 centímetros do solo algumas vezes tem sido visto como não favorável. Inclusive tem sido sugeridas modificações na amostragem do solo para “pegar” melhor essa modificação. É, entretanto, preciso atenção, pois a maioria das tabelas de recomendação de adubação foram elaboradas considerando-se a amostragem de 0 a 20 centímetros. Assim, a amostragem a profundidades menores poderia, em alguns casos, levar à recomendação de doses mais baixas que as ideais. Além disso, quanto mais superficial a amostra, maior a variabilidade de resultados e, portanto, menos confiável o resultado final.

Outro mecanismo importante de incorporação de P no perfil do solo é o uso de espécies com sistema radicular vigoroso e profundo, pois as raízes que vão se decompondo acabam por aumentar o teor de P em profundidade

Entretanto, ao mesmo tempo em que há aumento dos teores de P nos primeiros 5 centímetros, ao longo do tempo, nota-se também aumento nos teores do nutriente em profundidade. Existem algumas teorias para explicar o fenômeno. A presença de algumas culturas pode favorecer a movimentação do P. Espécies como o milheto são mais eficientes na movimentação do P disponível, enquanto espécies de cobertura como a aveia e o sorgo-de-guiné são mais eficientes em movimentar P orgânico. Nesta situação, pode ser aumentada a fração orgânica, seja pela ausência de mobilização causando diminuição na mineralização da matéria orgânica, seja pela produção de ácidos orgânicos que competem pelos sítios de retenção do P. No sistema convencional, a distribuição do material orgânico é mais uniforme no perfil e a decomposição é mais rápida, desfavorecendo a acumulação de frações orgânicas de nutrientes no solo.

A decomposição de restos vegetais libera ácidos orgânicos, os quais podem atuar na disponibilização de nutrientes para as culturas, na capacidade de troca catiônica e na complexação de elementos tóxicos e micronutrientes. A presença de ácidos orgânicos na decomposição da palha de algumas culturas, como, por exemplo, trigo, aveia-preta, nabo-forrageiro e ervilhaca, atuam na solubilização do fosfato insolúvel, tornando- o disponível às plantas. Estudos sobre o efeito de resíduos da cultura da soja e do trigo aplicados isoladamente ou em combinação demonstraram que os restos culturais adicionados, tanto isoladamente como combinados com o P, melhoram os níveis de P através do decréscimo da capacidade de sorção e do favorecimento ao aparecimento da fração lábil do P orgânico e inorgânico.

Portanto, a liberação de ácidos orgânicos provenientes de resíduos vegetais e a sua ação na liberação de formas orgânicas de P menos sujeitas a adsorção podem permitir alguma movimentação vertical do nutriente. Após a aplicação de extratos vegetais, a quantidade total de P disponível determinada no solo era maior que a soma da quantidade de P existente mais a quantidade de P aplicada, indicando a existência de um efeito dos ácidos orgânicos das coberturas vegetais na solubilização do P, embora esse efeito seja pequeno.

Outro mecanismo importante de incorporação de P no perfil do solo é o uso de espécies com sistema radicular vigoroso e profundo. Com o tempo, as raízes que vão se decompondo no perfil do solo acabam por aumentar o teor de P em profundidade. Foi demonstrado que algumas braquiárias, como a ruziziense e a brizanta conseguem absorver P de formas não lábeis, como P ligado ao ferro (Fe) e P ligado ao alumínio (Al). Quando essas espécies são usadas na rotação, uma vez absorvido, o nutriente contido na planta acaba por retornar ao solo quando do manejo da gramínea para a próxima semeadura.

Uso da Brachiaria ruzisiensis na ILP — A Brachiaria ruzisiensis tem sido utilizada em sistemas de rotação de culturas e lavoura-pecuária integrada no Brasil porque as plantas desse gênero são adaptadas a solos de baixa fertilidade, apresentam rendimentos elevados, têm boa qualidade de forragem e são fáceis para dessecar. Além disso, o cultivo dessa gramínea tropical foi relacionado ao aumento da disponibilidade de P, além de ter se mostrado uma ótima espécie na reciclagem do potássio (K). A utilização dessa gramínea também promove redução em frações de menor labilidade como, por exemplo, P ligado ao cálcio (Ca), assim como o incremento nas formas lábeis de P no solo.

Apesar dos resultados favoráveis com relação aos teores de P no solo após o cultivo da gramínea, o cultivo de algumas culturas em sucessão, como a soja, necessita da adição de fertilizantes fosfatados. O cultivo de soja sobre palhada de Brachiaria ruziziensis sem a adição de fertilizantes fosfatados promoveu reduções significativas na produtividade final. Essa redução na produtividade pode ser resultado da alta longevidade da palhada da Brachiaria, pois o período de cultivo não foi suficiente para a completa mineralização do P acumulado na palhada.

O próprio cultivo da soja em semeadura direta também promove redução em frações fosfatadas de menor labilidade, com redução na fração de P ligado ao ferro e aumento nas frações orgânicas de P. O P orgânico do solo pode atuar como fonte ou dreno do P disponível, dependendo do manejo do solo e da fertilização. Assim, no SSD, além se observar perdas muito menores de P por erosão, devido à localização da adubação fosfatada, do acúmulo de matéria orgânica e do aumento da biomassa microbiana do solo, ocorre acumulação de P orgânico.

Por isso, a manutenção da cobertura do solo também por plantas vivas no SSD impede que o P mineralizado passe para formas menos lábeis, de modo que poderia ser aproveitado pelas plantas futuramente. Ainda, no SSD há aumento de P nas camadas superficiais, principalmente nas formas inorgânicas disponíveis e moderadamente disponíveis, permitindo a manutenção de teores de P na solução do solo mais elevados do que no sistema convencional.

Assim, ao longo do tempo, principalmente em SSD, a eficiência da adubação fosfatada é aumentada. Nessa situação, as doses a serem recomendadas podem se aproximar das quantidades exportadas, resultando em economia de fertilizantes. Tem-se observado que, por razões operacionais, a tendência é se aplicar todo o fertilizante na superfície do solo, a lanço. É uma prática que deve ainda ser mais estudada, pois quando se estuda a química do P no solo, em sistemas convencionais, isso não poderia ser aceito. Entretanto, em algumas situações, em sistemas com semeadura direta, já se demonstrou que, para soja, embora possam ocorrer produtividades um pouco menores em alguns anos, o ganho operacional acaba compensando. Para outras culturas ainda não há pesquisa consolidada que permita tal recomendação.

Dessa forma, para a cultura da soja em semeadura direta consolidada, pode-se seguir a seguinte recomendação: quando o teor de P do solo for muito baixo, baixo ou médio, há a necessidade de correção com fósforo. Para a correção total, o fertilizante fosfatado de correção pode ser aplicado a lanço e incorporado, em doses altas e, em seguida, usar doses de manutenção, no sulco de semeadura, ao lado e abaixo da semente. Para a correção gradual, pode-se aplicar o fertilizante anualmente, em doses maiores que a recomendada com base na análise do solo. Quando o teor de P do solo for adequado ou alto, não há a necessidade de correção com fósforo e pode-se fazer uso de adubação de reposição, em superfície, com uma margem de uns 10%. Nesse caso, é importante monitorar a nutrição da planta via análise foliar e os teores de P no solo.