Pneus

 

As atenções com o PNEU AGRÍCOLA

Os pneus de uma máquina agrícola precisam dar sustentação e flutuação ao trator, gerar tração e alterar a direção. Isso tudo modificando o mínimo possível as propriedades físicas do solo. São muitos os cuidados para que esse importante componente da mecanização renda – e dure – muito

Doutor em Engenharia Agrícola Gismael Perin, professor e pesquisador na área de mecanização e máquinas agrícolas, coordenador do Curso de Agronomia da Universidade Federal Fronteira Sul (UFFS)

O solo agrícola é muito variável em suas características. Um mesmo solo pode se comportar de maneira diferente apenas alterando o teor de umidade em sua composição. Isso faz com que os fabricantes de pneus devem considerar essas variações de solo com maior nível de complexidade do que um projeto de construção para pneus de uso viário. O pneu agrícola deve ser capaz de dar sustentação e flutuação ao trator, gerar tração e alterar a direção, modificando o mínimo possível as propriedades físicas do solo. Para cada uma dessas funções um requisito de projeto pode ser conflitante com outro.

Por exemplo, para que não haja muita pressão no solo, diminuindo assim o risco de compactação, os pneus devem ser mais largos e com pouco espaço entre as agarradeiras (se possível, nenhum). Para realizar tração, que é a principal função atual dos tratores, as agarradeiras devem ser espaçadas o suficiente para penetrar no solo e a largura não precisa ser grande, para que ocorra a pressão do pneu ao solo, diminuindo assim o patinamento a níveis desejáveis. Portanto, o processo de construção de um determinado pneu para uso agrícola já é complexo e a escolha do tipo certo para cada situação também é. Por isso, vejamos o que devemos observar na escolha e nos cuidados com os pneus.

Um pneu com função para o transporte deve ser largo, com agarradeiras pequenas e numerosas e, se possível, de construção radial. Para função apenas de mudança de direção (esterçamento), os pneus devem apenas possuir uma ou mais agarradeiras paralelas ao sentido de deslocamento, visto que esse pneu não pode gerar resistência ao rolamento. Essas agarradeiras paralelas atuarão apenas quando ocorrer a mudança na direção. Para pulverizadores autopropelidos, os pneus devem ser estreitos para diminuir o amassamento da cultura quando da aplicação em tratos culturais. Para colhedoras, os pneus devem ser mais largos para suportar o peso da máquina, que é muito variável, e para que consigam distribuir a carga com menos pressão no solo.

Já para os pneus utilizados para tração, que equipam os tratores, o que deve ser considerado é o seguinte: quanto mais perpendiculares em relação ao deslocamento forem as agarradeiras, maior é a tração e menor é a facilidade de limpeza do pneu. Por isso, os fabricantes fazem diferentes formatos de agarradeiras, mais ou menos diagonais em relação ao deslocamento, com o intuito de exercer tração, sem ser com a máxima eficiência, mas com a possibilidade de auto limpeza, para solos pegajosos e úmidos. O tamanho (altura) e o espaçamento das agarradeiras devem ser maiores para solos alagados do que para solos de sequeiro. A largura do pneu deve ser maior quanto maior for o peso do trator.

Deve-se ter o cuidado para trabalhar com os pneus dentro da recomendação do fabricante, principalmente em relação à pressão interna, à velocidade de deslocamento e ao peso suportado. Um estudo publicado neste ano, feito por Renildo Mion e colaboradores, sobre a pressão interna nos pneus diagonais e as tensões aplicadas no solo confirmaram que as menores pressões (14 psi) provocaram as menores tensões no solo, demonstrando a importância da redução das pressões para a diminuição da compactação do solo até profundidades de 0,30 metro. As maiores pressões (26 psi) causaram as maiores deformações no solo provocadas pela diminuição da área de contato pneu/solo.

Isso mostra a necessidade de buscar soluções para reduzir as pressões internas nos pneus de forma a causar menor compactação superficial do solo. Mas cuidado! Pouca pressão interna em pneus de construção diagonal causa esforços nos flancos e na banda de rodagem, podendo diminuir em muito a vida útil do pneu. Uma forma de reduzir as pressões internas é o uso de pneus de construção radial que, segundo a recomendação dos fabricantes, trabalham com pressões internas menores. Porém, ainda no Brasil, temos poucos pneus agrícolas em uso que são de construção radial (menos de 10%, enquanto que na Europa chega a mais de 80%).

Além disso, sempre utilize as mesmas pressões internas nos pneus que compunham o mesmo eixo. As pressões alteram o diâmetro do rodado, sendo que, com pouca pressão, o pneu deforma mais e com o peso do trator, diminui o raio do rodado do centro até o solo. Trabalhando em linha reta, como os rodados possuem diâmetros diferentes devido à diferença de pressão interna entre os pneus, o sistema diferencial do trator a todo momento compensará essa diferença, fazendo girar menos o rodado com maior pressão. Quando se deseja utilizar o bloqueio do diferencial para trabalhar em linha reta, o trator não seguirá essa trajetória caso um dos pneus tiver com menos pressão que o outro, tendendo a girar para o lado do pneu com menos pressão.

Cuidados na substituição — Na hora da substituição dos pneus dos tratores com tração dianteira auxiliar (TDA), que é a maioria dos modelos vendidos no Brasil, deve-se ter uma atenção especial. As máquinas com esse tipo de tração possuem os eixos com rodados de diferentes tamanhos, sendo o eixo traseiro maior. Esse eixo suporta aproximadamente 70% do peso do trator, e por isso patina menos na mesma condição de tração. Devido a isso, e para que o eixo dianteiro faça tração, ele deve girar a uma velocidade periférica maior que o traseiro, geralmente 3%. A essa diferença de velocidade entre os eixos é dado o nome de avanço cinemático. Pois bem, esse avanço cinemático sempre deve ser mantido. Já devem ter observado que o fabricante dos pneus utilizados no eixo dianteiro desses tratores nem sempre é o mesmo fabricante dos pneus do eixo traseiro. Isso porque o fabricante do trator deve escolher um pneu que satisfaça esse avanço cinemático. Portanto, quando for substituir os pneus, é importante que o tamanho do pneu seja o mesmo, utilizando a mesma numeração ou equivalente.

Além disso, nunca se deve substituir os pneus gastos por novos apenas no eixo dianteiro ou apenas no eixo traseiro, pois isso altera essa relação. No caso da substituição por pneus novos no eixo dianteiro dos tratores com TDA e a permanência dos pneus gastos no eixo traseiro, quando se opera com a TDA, ocorre um patinamento maior do eixo dianteiro, pois com os pneus novos aumenta-se o diâmetro daqueles rodados. Isso fará com que o consumo seja excessivo, reduzindo com isso sua vida útil.

No caso inverso, substituindo os pneus do eixo traseiro e mantendo usados os do eixo dianteiro, ocorrerá que, quando em utilização da TDA, o eixo dianteiro, por seu menor diâmetro (pneus gastos), atuará como um freio, exercendo pouca ou nenhuma função de tração, fazendo com que os pneus novos do eixo traseiro gastem mais que o necessário, diminuindo com a vida útil. Por isso, sempre substitua ao mesmo tempo todos os pneus de um trator com TDA.

É claro que o assunto sobre pneus agrícolas não se esgota aqui. Existem muitas variáveis para resolver a complexa equação da interação das máquinas com os solos. Entretanto, as informações presentes neste texto servem como balizadores nas tomadas de decisões de um assunto que muitas vezes não está entre os mais comentados nas rodas de discussões dos agricultores.