Sorgo

 

ALTERNATIVA segura para a safrinha

O custo de produção do sorgo é metade do milho, sendo que na safrinha tardia a produtividade é até maior. E por tolerar a seca, esse grão pode produzir pelo menos para pagar os custos, sendo que, se chover, a produtividade aumenta e garante o lucro

Cícero Beserra de Menezes, pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo

O sorgo (Sorghum bicolor (L.) Moench) é o quinto cereal mais plantado no mundo, após o trigo, arroz, milho e cevada, sendo cultivado em regiões tropicais e semiáridas. A cultura possui características adaptativas para cultivo em áreas de estresse hídrico bem superiores às desses outros cereais, o que explica o seu cultivo em milhões de hectares em países da África, Ásia, Oceania e Américas. A tolerância do sorgo ao estresse hídrico deve-se basicamente ao seu sistema radicular profundo e ramificado, o qual é eficiente na extração de água do solo, e à capacidade de diminuir o metabolismo, Fotos: Embrapa Milho e Sorgo de forma que a planta hiberna quando está em estresse e volta a se recuperar quando o estresse é interrompido.

A área plantada com sorgo granífero no Brasil na safra 2015/16 foi de 640 mil hectares, com produção estimada de 1,75 milhão de toneladas, indicando declínio considerável nos últimos anos. A produtividade nacional aumentou levemente nos últimos anos e situa-se em torno de 2.844 quilos/hectare. Apesar dos aumentos observados na produtividade, a média nacional está muito aquém do potencial da cultura. Experimentos demonstram que a produtividade dos híbridos mais novos pode ultrapassar 7 toneladas/hectare, em condições favoráveis de safrinha. Produtores tecnificados, que seguem orientações corretas de plantio, levando em consideração época adequada, adubação de solo, fungicidas e cultivares adaptadas, têm conseguido esse teto superior.

A área de sorgo granífero oscila em função da pluviosidade na safrinha: quando chove bem na segunda safra, a área de milho aumenta no mesmo período subsequente, e a de sorgo reduz. Isso ocorreu nos anos de 2013 e 2014 quando as safras de milho safrinha obtiveram altas produtividades. Influenciado por esses fatos, o produtor continuou plantando milho na safrinha tardia nos dois últimos anos, em 2015 e em 2016, alcançando produtividades baixas.

Predominância no Cerrado — O sorgo pode ser plantado de Norte a Sul do Brasil. No entanto, mais de 90% são plantados em áreas de Cerrado, como cultura de sucessão à soja, englobando basicamente os estados de Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Bahia e Distrito Federal. Para obtenção de altas produtividades, o sorgo granífero deve ser plantado o mais cedo possível. Por outro lado, a semeadura é muito dependente da colheita da soja e do plantio do milho safrinha. Quando alguma dessas operações atrasa, o sorgo é prejudicado.

O produtor precisa se conscientizar de que a época para plantio do milho é até meados de fevereiro, o mais tardar dia 20. Milho plantado após essa data é tudo ou nada, sendo, na maioria dos casos, nada de produção. Após essa data, o sorgo é uma opção muito competitiva e segura. O sorgo, por tolerar mais seca, vai produzir pelo menos para pagar os custos, sendo que, se chover, essa produtividade aumenta, garantido a certeza do retorno financeiro. O custo de produção do sorgo é metade do custo de milho, sendo que na safrinha tardia a produtividade é maior. A palhada deixada pelo sorgo é de excelente qualidade para plantio subsequente da soja. O grão de sorgo possui ótima liquidez no mercado, apresenta menos micotoxinas e pode substituir o milho em 100% nas rações de frangos, suínos e bovinos.

Até a década de 1990 existia no mercado sorgo com e sem tanino. O tanino é um composto com ação antinutricional para animais, que se complexa com proteína, reduzindo a digestibilidade da ração. Para contornar esse problema de tanino, criouse um grupo denominado Pró-sorgo, formado pelas empresas de sementes e pesquisa de sorgo, as quais decidiram retirar do mercado essas cultivares com tanino. Mesmo não existindo mais cultivares com tanino no mercado, os compradores de grãos ainda utilizam esse termo para comprar o sorgo mais barato do que o milho. De certa forma, esse deságio não é ruim, pois tem feito a demanda por grãos de sorgo aumentar, pois os pecuaristas já perceberam que não existem diferenças nutricionais entre o sorgo e o milho, e sendo o sorgo mais barato, isso reflete em custos favoráveis na ração.

Outra questão bastante recorrente no plantio de sorgo granífero refere-se à adubação e aos efeitos causados na cultura subsequente da soja. Encontram- se na literatura adjetivos como rusticidade para a cultura do sorgo, o qual é mal interpretado pelo produtor. Essa rusticidade do sorgo refere-se a sua tolerância à seca, mas produtores relacionam erroneamente a solos degradados e de baixa fertilidade. Esse é um mito que deve ser quebrado. A planta de sorgo é bastante eficiente na utilização de fertilizantes. Se o produtor seguir as recomendações técnicas de adubação do sorgo, não haverá problemas para a cultura subsequente.

Na cultura do sorgo, o fósforo e o nitrogênio são quase todos translocados para os grãos, seguindo-se o magnésio, o potássio e o cálcio. Isso significa que, com a manutenção da palhada na área de produção, pois no plantio direto ela não é incorporada ao solo, e em decorrência das grandes quantidades que são exportadas pelos grãos, é necessária a reposição desses nutrientes nos cultivos seguintes. A não adubação do sorgo pode então acarretar deficiência de nutrientes no cultivo subsequente da soja, o que muitos produtores associam equivocadamente a efeitos alelopáticos.

Expectativas e projeções — Esperase que na safra 2016/17 a área de sorgo volte a crescer aos patamares de 800 mil hectares. Faltam trabalhos de difusão da cultura do sorgo que atinjam o produtor final. O rendimento hoje das lavouras está muito aquém do seu potencial. Com práticas simples de manejo, ele pode dobrar a produtividade. Dentre essas práticas de manejo, podem-se citar as seguintes: preparo antecipado da área, principalmente no manejo de plantas daninhas; plantio na data certa (final de fevereiro/início de março), evitando áreas degradadas; adubação de plantio e cobertura; escolha de híbrido adaptado à região, de preferência híbrido superprecoce; realização de manejo de doenças (pelo menos uma pulverização de fungicidas) e colheita com a umidade certa.

“Faltam trabalhos de difusão da cultura do sorgo que atinjam o produtor final. O rendimento hoje das lavouras está muito aquém do seu potencial”, lembra o pesquisador Menezes

Se na safra de 2015/16 o produtor tivesse optado por plantar o sorgo granífero ao invés do milho na safrinha tardia, o País não estaria preocupado com a baixa oferta de grãos, o preço do milho não estaria tão elevado e não haveria tantas notícias ruins de “lucro zero” no setor de suínos e aves.