Plantadeiras

 A energia adequada para a SEMEADORA semear bem

É fundamental fazer o dimensionamento correto do conjunto mecanizado trator + semeadora para haver harmonia entre a demanda energética da semeadora e a potência oferecida pelo motor do trator. O conjunto mecanizado não pode trabalhar com déficit e nem com excesso de potência

Gilvan Moisés Bertollo, Marcelo Silveira de Farias, Alfran Tellechea Martini, Gustavo Oliveira dos Santos e Luis Fernando Vargas de Oliveira do Núcleo de Ensaios de Máquinas Agrícolas (Nema), da Universidade Federal de Santa Maria/RS

Asemeadura é uma das operações mais importantes durante o ciclo das culturas agrícolas, sendo que nessa fase do cultivo é gerada a expectativa de uma boa safra. Além de sementes de excelente qualidade, depositam-se no solo insumos para que a planta se desenvolva nas melhores condições possíveis, com perspectivas de que tudo ocorra bem até a colheita e, posteriormente, comercialização do produto final, garantindo lucro e progresso na atividade.

Devido à existência de uma janela de semeadura restrita e influenciada por fatores climáticos, busca-se o aproveitamento do tempo e da energia disponível para executar essa operação. Por isso, a realização de um bom planejamento da mecanização agrícola é de suma importância. Nesse contexto, esse artigo tem por objetivo tratar especificamente da demanda energética das máquinas que realizam a operação de semeadura.

O avanço tecnológico na agricultura é visível quando se observa o aumento de produtividade das culturas agrícolas. Esse progresso deve-se à melhoria da fertilidade dos solos, melhoramento genético, técnicas de manejo, como a agricultura de precisão, aperfeiçoamento técnico dos colaboradores e, também, a evolução das máquinas e dos equipamentos agrícolas, os quais têm por objetivo melhorar a qualidade, a precisão, a rapidez e a confiança nas operações mecanizadas.

Para atender a demanda imposta ao setor agrícola, além de a indústria aumentar a capacidade operacional das máquinas, introduziu o que se conhece como eletrônica embarcada, para proporcionar ganhos em produtividade e eficiência. Contudo, uma técnica importante no processo de semeadura, que deve anteceder o investimento em tecnologia embarcada, é o dimensionamento correto do conjunto mecanizado (trator + semeadora), para obter a harmonia entre a demanda energética da semeadora e a potência fornecida pelo motor do trator.

Tal operação, quando realizada em condições harmônicas, proporciona que o conjunto mecanizado não trabalhe com déficit nem com excesso de energia (potência), mas sim com o máximo de aproveitamento desta pelo motor. Outros fatores que interferem na eficiência e na qualidade da operação são os seguintes: a velocidade de trabalho, a configuração correta da semeadora, o ajuste de lastragem do trator e a calibração correta dos rodados. Realizado o ajuste desses parâmetros, pode-se pensar em agregar tecnologia ao conjunto, visando melhorar a qualidade do trabalho.

As configurações do conjunto mecanizado são de extrema importância para a correta execução da operação de semeadura que, quando não é levada em consideração, pode comprometer o pacote tecnológico, justificando dessa maneira a necessidade de atenção e prioridade. A seguir, serão discutidos os principais cuidados que devem ser observados para que o conjunto trator + semeadora trabalhe de forma harmônica em relação à eficiência energética.

Na imagem em evidência, parte do sistema de transmissão por engrenagens e correntes da semeadora, possibilitando diversas regulagens para alterar as quantidades de sementes e fertilizantes

Relação peso/potência do trator — O trator é uma das máquinas mais utilizadas nas propriedades rurais, sendo responsável por fornecer potência aos implementos e máquinas agrícolas a ele acopladas. Para que essa potência seja utilizada de forma eficiente, alguns aspectos devem ser considerados. Dentre eles, a relação peso/potência do trator, caracterizada pelo seu peso total (kg) em relação à sua potência do motor (cv). Por meio dessa informação, podem-se estabelecer algumas observações no sentido de identificar se o trator necessita de maior ou menor lastro.

A adição de lastro na estrutura do trator pode ser metálica, por meio de pesos metálicos fixados no para-choque dianteiro e/ou nos rodados traseiros, ou então do tipo hidráulica, que consiste na adição de água no interior de rodados. A necessidade de lastragem depende da demanda de potência potência exigida pelas semeadoras. Tal necessidade pode ser observada em função do índice de patinamento das rodas motrizes do trator, onde se recomenda que não exceda o limite máximo de 10% (ASAE, 1989), para que se obtenha a máxima eficiência em tração. Se o patinamento for elevado, mesmo com alta relação peso/potência, outra questão deve ser analisada: a elevada exigência de potência da semeadora.

Além disso, a pressão interna dos pneus, bem como sua estrutura de construção (radial ou diagonal), e a lastragem hidráulica dos rodados merecem atenção pelo fato de alterar a área de contato dos mesmos com o solo, já que esse fator tem relação direta com o patinamento. Nesse sentido, pouco lastro pode elevar o índice de patinamento, e o excesso pode comprometer o funcionamento e a vida útil dos componentes internos do trator. De maneira geral, a relação peso/potência ideal varia de 50 a 60 kg/cv e deve ser ajustada conforme o tipo de solo, o tamanho e o modelo da semeadora utilizada, índice de patinamento, pressão interna dos pneus e tipo dos rodados.

Dessa forma, é importante conhecer a relação peso/potência do trator e adequá-la para que o índice de patinamento das rodas motrizes fique dentro do limite recomendado, proporcionando adequada tração a semeadora. Sempre que essa relação necessitar ser alterada, deve-se levar em consideração a distribuição de peso entre os eixos do trator, onde se recomenda manter 60% do peso total sobre o eixo traseiro e 40% sobre o eixo dianteiro para tratores com tração dianteira auxiliar (4x2 com TDA), conhecidos como “tracionados” ou “traçados”, e 70% do peso sobre o eixo traseiro e 30% sobre o dianteiro para os tratores de simples tração (4x2).

Velocidade de operação — A velocidade de semeadura é um parâmetro que influencia diretamente na qualidade do trabalho, visto que o excesso de velocidade pode comprometer as funções da semeadora como o corte da palha, abertura do sulco, o posicionamento da semente no solo e o fechamento do sulco. Outro fator influenciado pela velocidade é a potência requerida pela semeadora, pois são diretamente proporcionais, isto é, quanto maior a velocidade de trabalho, maior será a potência exigida. Em algumas ocasiões, quando a janela de semeadura torna-se reduzida devido aos fatores climáticos, muitos agricultores optam por aumentar a velocidade de trabalho, com o objetivo de cumprir a atividade dentro do prazo pré-determinado, deixando de lado a qualidade da operação.

Para manter a qualidade de semeadura, é recomendado fixar uma velocidade compatível com o tipo de solo, textura e topografia para cada tipo de área. Analisando o período disponível para a semeadura, encontra- se o número de hectares que devem ser semeados em um dia de trabalho ou a cada hora de operação. Com base nesse valor, há possibilidade de modificar outros dois fatores, caso seja necessário para atender a área desejada dentro do período preferencial de semeadura.

O primeiro fator é a largura de trabalho da semeadora. Seu aumento implica na aquisição de semeadoras maiores ou na utilização de mais de uma unidade, formando outro conjunto mecanizado. Uma terceira opção seria trabalhar com duas semeadoras em tandem, que consiste em um sistema mecânico de engate que une duas semeadoras a um mesmo trator, caso exista disponibilidade de potência do motor, com capacidade de suprir a demanda energética do conjunto de semeadoras.

O segundo é aumentar a eficiência operacional. Consiste na porcentagem do tempo de trabalho em que a semeadora realmente está em operação, ou seja, o tempo gasto em manobras de cabeceira, reabastecimentos de sementes e de fertilizantes, deslocamentos e manutenções, não são considerados como trabalho. Portanto, quanto maior a eficiência, maior a área semeada em um determinado período de tempo.

Dessa forma, a partir de um adequado planejamento da mecanização agrícola é possível manter uma velocidade ideal de semeadura e aumentar a eficiência de trabalho ao máximo. Se mesmo assim o tempo disponível for insuficiente para realizar a operação no período previsto, o aumento da frota agrícola justifica-se, visto que, na maioria dos casos, a boa qualidade da semeadura proporcionada pela velocidade de trabalho ideal compensa o investimento feito em máquinas.

Configurações das semeadoras — A potência demandada por uma semeadora é o produto da força de tração exigida pela mesma pela velocidade de trabalho. Essa força de tração é proveniente do contato direto dos componentes mecânicos desse implemento (discos, hastes sulcado ras, rodas compactadoras e adensadoras) com o solo. Esses componentes são responsáveis pelo corte de palha e abertura e fechamento do sulco. A abertura do sulco por discos de corte ou discos duplos proporcionam menor exigência de força de tração quando comparados com sulcadores do tipo haste, também conhecidos em algumas regiões produtoras de grãos por “facão”. Contudo, para definir qual o tipo de sulcador a ser utilizado, deve-se levar em consideração, principalmente, a textura do solo, o nível de compactação e a presença de palha.

Outro fator que deve ser considerado são os mecanismos dosadores de sementes e fertilizantes, que são regulados por um conjunto de engrenagens ajustáveis, permitindo a alteração da relação de transmissão entre os rodados da semeadora e o sistema de dosagem. Porém, pode-se citar outro mecanismo como, por exemplo, o de fluxo de óleo, que aciona motores hidráulicos e permite melhor controle da rotação do disco dosador (taxa variável) e precisão na dosagem da semente e dos fertilizantes, porém, demanda maior potência quando comparado ao sistema mecânico.

Semeadora do tipo pneumática, com destaque às tubulações e à turbina de ar, cuja função é fornecer pressão manométrica negativa no sistema para selecionar as sementes de forma mais precisa nos dosadores

Ambos os sistemas de acionamento podem ser combinados a uma turbina de ar, cuja função é fornecer pressão manométrica negativa no sistema para selecionar as sementes de forma mais precisa nos dosadores. Para que isso funcione, necessita-se de potência proveniente, em alguns casos, da tomada de potência do trator, aumentando a exigência de potência do mesmo. Por esses motivos, é importante conhecer as configurações da semeadora e o local em que a mesma será utilizada, para assim dimensionar uma fonte de potência que atenda tal demanda.

Considerações finais — A seleção da fonte de potência (trator) necessária para suprir a demanda de energia da semeadora é de suma importância, visto que implicará diretamente no uso eficiente de energia. Para isso, faz-se necessário realizar o correto planejamento de cada atividade, conhecer as características intrínsecas de cada máquina e consultar profissionais técnicos da área para auxiliar na organização e na gestão do negócio. São detalhes que podem contribuir para aumentar o sucesso da atividade agrícola.