Integração Lavoura-Pecuária

 

MANEJO ante seca e para recuperar áreas

Experimento no Tocantins com sobressemeadura de forrageiras sobre soja para recuperar pastagens degradadas mostrou excelentes resultados se comparado à soja sobre pousio e à dobradinha soja-milheto. O sistema, inclusive, aumenta a eficiência no uso de nutrientes e da precipitação em mais de 50%

Leandro Bortolon, Elisandra Solange Oliveira Bortolon e Francelino Peteno de Camargo, pesquisadores da Embrapa Pesca e Aquicultura, e Emerson Borghi, pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo, Rubens Ribeiro da Silva e Rodrigo Ribeiro Fidelis, professores da Universidade Federal do Tocantins

Imagem do aspecto do capim massai, uma das forrageiras testadas no experimento da Embrapa e UFT, três meses após a colheita da soja

A região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) tem se destacado no cenário agrícola nacional recentemente, devido ao crescimento da agricultura de grãos. Embora a região esteja inserida no processo produtivo há várias décadas, somente nos últimos cinco anos recebeu maior atenção da sociedade. O Matopiba hoje representa em torno de 10% da produção de soja do Brasil e a tendência de crescimento é notória. Por exemplo, em Tocantins, no período de 2010 a 2015, houve um aumento da área de soja de 128%. O estado apresenta a maior produtividade da oleaginosa, se comparada com os demais estados, estando próxima das médias de produtividade de soja nacional.

A soja no Tocantins tem crescido principalmente em áreas de pastagens degradadas. O estado possui um rebanho de mais de 8 milhões de cabeças de gado. Estima-se que há no estado em torno de 5,5 milhões de hectares de pastagens degradadas. Nesse contexto, a recuperação de pastagens degradadas torna-se uma alternativa necessária para verticalizar a produção em uma mesma área. A recuperação de pastagens degradadas pode ser feita de várias formas. No entanto, o uso de culturas de grãos para recuperar pastagens degradadas tem se tornado uma excelente alternativa. No caso de se recuperar por meio da integração lavoura- pecuária (ILP), consegue-se, no período chuvoso (novembroabril), produzir grãos e, no período seco (maio-outubro), fornecer forragem para os animais em quantidade e qualidade, bem como propiciar formação de palha para o sistema plantio direto (SPD).

Com um sistema intensivo de produção, com aporte anual de biomassa em quantidade e qualidade, com plantas crescendo a maior parte do ano, faz com que as condições do solo melhorem, pois aumentam os teores de matéria orgânica do solo e com isso aumentam a agregação do solo. A agregação do solo tem papel para que se aumente, dentre vários aspectos, a capacidade de armazenagem de água no solo. O aumento da capacidade de armazenagem de água no solo é extremamente importante em anos em que a estiagem é severa, fazendo com que os efeitos negativos da falta de chuva afetem as plantas. Na safra 2015/2016, o Brasil vivenciou um ano de quebra de produtividade por má distribuição de chuvas durante a safra de grãos. No Matopiba, as perdas foram altas. No Maranhão, a quebra de soja foi de 40%; no Tocantins, de 33%; no Piauí, de 58%; e na Bahia, de 28% (Conab, 2016).

Área de recuperação de pastagem degradada, utilizando SPD (início em 2012) com soja no verão e sobressemeadura de forrageiras para duplo propósito: alimentação animal e cobertura para o SPD. A - sucessão soja-milheto; B - sucessão sojamombaça. Gurupi/TO, safra 2015/16

A quebra da safra de soja afeta diretamente a safrinha de milho na região, sendo observada no estado do Tocantins, por exemplo, redução na área plantada com milho safrinha de 42% e expectativa de quebra de safra de 30%. A má distribuição de chuvas, além de afetar a safra no período chuvoso, afeta também a safrinha na região. Os efeitos de quebra de safra afetam negativamente o acúmulo de biomassa anual no sistema de produção, tão importante para garantir o aumento e a manutenção dos teores de matéria orgânica no solo.

Armazenamento de água — O acúmulo de biomassa, associado à construção do perfil do solo, permitem o aprofundamento radicular, bem como o aumento da capacidade de armazenamento de água disponível no perfil do solo. A produtividade das culturas é função da interação de vários recursos naturais, sendo os principais a água, a radiação solar e os nutrientes. A radiação solar é extremamente importante para processoschaves como a fotossíntese, na qual é gerada energia para as plantas de forma que elas consigam metabolizar os compostos necessários para seu crescimento e desenvolvimento.

Os nutrientes, aplicados com a fonte certa, a quantidade certa, o momento certo e o local certo, tendem a propiciar à cultura a resposta almejada. Obviamente que, para que o uso de nutrientes em sistemas agrícolas seja eficiente, o manejo do sistema deve ser adequado, objetivando, por exemplo, alto aporte anual de biomassa, principalmente em regiões de altas temperaturas (inclusive noturnas) e com período seco definido.

A água é o fator de maior importância e o uso eficiente nos sistemas de produção deve ser aumentado. Sistemas de maior aporte de biomassa anual tendem a melhorar a estrutura do solo e consequentemente aumentam a capacidade de armazenamento de água no solo. Com isso, a eficiência no uso da água pelas culturas é aumentada, principalmente pelo solo conter água armazenada em estágios críticos das culturas, como no enchimento de grãos. Devido ao cenário de aumento crescente na área plantada com culturas de grãos no Tocantins, à elevada área de pastagem degradada que necessita recuperação, ao risco de insucesso com as culturas de safrinha por questões climáticas e à necessidade de alto aporte anual de biomassa, houve a necessidade de buscar soluções científicas e tecnológicas para suprir essas demandas.

Cultura da soja em ponto de colheita com milheto implantado em sobressemeadura no experimento de Gurupi

Em 2012, na Estação Experimental da Universidade Federal do Tocantins (UFT), campus de Gurupi, em uma parceria entre UFT e Embrapa, foi implantado um estudo visando recuperação de pastagens degradadas utilizando a técnica de sobressemeadura de forrageiras na soja. O objetivo, além da recuperação da pastagem degradada, foi de propor um sistema que produzisse grãos no período chuvoso, forragem no período seco e palha para o SPD. A sobressemeadura de forrageiras na soja consiste em semear as forrageiras de interesse quando a soja atinge o estágio R5-R7.

As forrageiras testadas para esse sistema foram Urochloa (Syn. Brachiaria) brizantha cv. Marandu, Urochloa ruziziensis, Panicum maximum cv. Mombaça, Panicum maximum cv. Massai e Pennisetum americanum (milheto). Durante três safras foram avaliados diversos componentes do sistema, considerando a inter-relação soloplanta- atmosfera. Após três anos de pesquisa, foi possível identificar que a sobressemeadura de forrageiras na soja, além de propiciar rendimentos maiores do que os obtidos, tanto com a soja-pousio quanto a sucessão soja-milheto (sistema tradicional do cerrado), aumenta a eficiência no uso de nutrientes e da precipitação em mais de 50%.

O uso das forrageiras em sobressemeadura na cultura da soja possibilita que se tenha forragem de qualidade e quantidade por dois a três ciclos de pastejo durante o período seco e um residual de palha para o sistema plantio direto em quantidades superiores a 8 toneladas/hectare. No entanto, um dos maiores benefícios observados foi em ano de má distribuição pluviométrica, como a safra 2015/2016. Foi observado que mesmo com a má distribuição de chuvas durante o cultivo da soja, sendo de 1.094 milímetros durante o cultivo, 915 milímetros caíram em janeiro, ou seja, 85% do total.

Nesse sentido, observou-se que, mesmo tendo havido má distribuição de chuvas durante o ciclo da oleaginosa, quando houve alto aporte de biomassa (massai, mombaça, ruziziensis e brizanta), a produtividade chegou a ser entre 31% a 55% maior do que quando a soja foi cultivada no sistema pousio ou soja-milheto. Como o objetivo desse estudo é de longa duração, os resultados iniciais permitem direcionar que, em regiões nas quais a safrinha com milho, por exemplo, é de alto risco, o uso de forrageiras implantadas em sobressemeadura na soja, seja com o intuito de alimentação animal ou de cobertura vegetal, é uma excelente alternativa para a recuperação de pastagens degradadas, bem como para superar os eventos climáticos irregulares, os quais são cada vez mais frequentes.