Soja

 

ESTRATÉGIAS de manejo do solo para alta rentabilidade

As ações buscam evitar ou minimizar fatores que limitam a produtividade da oleaginosa, como os causadores de estresses bióticos e abióticos: nematoides, fungos de raízes, compactação, acidez, oferta limitada de nutrientes, disponibilidade hídrica, entre muitos outros

José Salvador Simoneti Foloni, Cesar de Castro e Adilson de Oliveira Junior, pesquisadores da Embrapa Soja

Há discussões recorrentes no meio agronômico sobre as premissas para se atingir a máxima produtividade de soja. Quando o debate é acadêmico-científico, buscam- se simulações realizadas em condições controladas (ambiente climatizado, irrigação, nutrição equilibrada, etc.), em que são compartimentalizadas e detalhadas o máximo possível das variáveis que influenciam o desempenho da planta. Porém, quando o questionamento é feito por agricultores, os estudiosos e estrategistas passam a ponderar seus argumentos, pois é acertado considerar o contexto prático (real) no qual as lavouras estão inseridas. No caso dos sojicultores brasileiros, a análise agronômica é ainda mais complexa, visto que a cultura é explorada nas mais diversas condições de clima e solo.

No Brasil, em torno de 58 milhões de hectares são ocupados com produção de grãos, dos quais cerca de 34 milhões com soja, que tem sido fator-chave no desenvolvimento econômico de muitos municípios, do Rio Grande do Sul a Roraima. Como a soja normalmente compõe sistemas de produção, não seria correto abordar o manejo do solo para apenas uma cultura, mas sim estabelecer parâmetros agronômicos que contemplem a diversificação de espécies.

Grande parte da sojicultura brasileira é praticada em solos muito intemperizados, ácidos e pobres em nutrientes. Há, portanto, elevada dependência de corretivos e fertilizantes. Por outro lado, tem-se na soja nacional, por exemplo, incontestável eficiência na fixação biológica de nitrogênio (FBN), dispensando completamente a adubação nitrogenada, inclusive nas mais variadas situações em que foram alcançadas altas produtividades, acima de 100 sacas/hectare. Além das características químicas do solo, é imprescindível trabalhar a qualidade física, biológica e sanitária. Há que se pensar também no perfil pedológico em profundidade, e não somente na camada agricultável (“arável”) de 0 a 20 centímetros.

Interferir no solo para alçar altas produtividades não se baseia somente em uma estratégia. Existem peculiaridades que devem ser respeitadas para cada talhão, no sentido de estabelecer as chamadas unidades de manejo. Não há como definir programas para trabalhar a qualidade química, física, biológica e sanitária do solo sem elaborar mapas. Ressalta-se que esses levantamentos podem ser executados de maneira simples, até manualmente, desde que sejam adotados critérios agronômicos adequados.

Em termos conceituais, as estratégias de manejo visam evitar ou minimizar fatores que limitam a produtividade. Especificamente para o manejo do solo, causadores de estresse (bióticos e abióticos) compreendem nematoides, fungos patogênicos de raízes, compactação, acidez, oferta de nutrientes, disponibilidade hídrica, entre outros. Por isso, os mapas devem ser abalizados em informações do solo e do histórico do sistema de produção.

Outro embate agronômico contrapõe a produtividade de grãos e a rentabilidade financeira. A princípio, produtividade e rentabilidade são palavras sinônimas, contudo, mensurar a quantidade de grãos por unidade de área e/ ou de tempo é completamente diferente de analisar a viabilidade econômica da lavoura. Ou seja, estratégias de manejo do solo para alcançar a máxima produtividade de soja devem ser compreendidas no contexto da lucratividade.

Todo investimento agrícola precisa ser avaliado do ponto de vista do risco. Nesse sentido, por exemplo, não há como comparar uma lavoura de soja conduzida em uma localidade a 1.000 metros de altitude, onde normalmente os déficits hídricos são amenos, em um solo altamente fértil, com outra lavoura instalada a 300 metros de altitude, em um solo com menos de 20% de argila, pobre em matéria orgânica, onde frequentemente incidem períodos de veranico no decorrer da safra (mais de 15 dias de estiagem associada a altas temperaturas).

O manejo do solo para sojicultura demanda tempo. Em muitos casos, avalia-se somente o retorno em curto prazo das tecnologias e processos adotados. Em se tratando de avanços de produtividade, é fundamental aceitar que os diferenciais de qualidade do solo são consolidados em médio e longo prazo. Há que se considerar também questões de ordem ética no manejo do solo, no âmbito da sustentabilidade social e ambiental. Respeitar os limites da não poluição (dejetos de animais, resíduos industriais, etc.), saúde pública (toxicidade de fertilizantes, produtos fitossanitários, etc.) e conservação de recursos naturais (solo e água).

Definição de padrões — Ter parâmetros significa estabelecer padrões que possibilitem comparações. Quando se discute qualidade do solo impreterivelmente surge a seguinte questão: quais são os níveis críticos de atributos químicos, físicos, biológicos e sanitários do solo para definir as ações de manejo? Ou melhor: quais são os critérios para distinguir a qualidade baixa, média, alta e muito alta? O desafio é estabelecer padrões para decidir quando, onde e como executar as práticas de adubação, calagem, gessagem, escarificação, rotação de culturas, controle de nematoides, etc.

Quanto ao fator genético, na atualidade, no Brasil, há amplo número de cultivares de soja com elevado potencial produtivo, oriundas de diferentes empresas nacionais e multinacionais. Contudo, é equivocado afirmar que a cultivar existe somente para expressar o máximo potencial produtivo. Propaga- se a falsa ideia de que é imprescindível otimizar todos os fatores que promovem o desenvolvimento vegetal (água, luz, temperatura, nutrientes, etc.), assim como que é obrigação manter um ambiente totalmente livre de pragas, doenças e plantas daninhas. Sumariamente: é desonesto fazer esse tipo de abordagem, principalmente quando se considera a realidade de cada região sojícola brasileira.

Tão importante quanto exigir potencial produtivo, é ter consciência de que há inúmeros desafios para fortalecer a estabilidade das cultivares de soja perante adversidades bióticas e abióticas, tais como convivência com nematoides, supressão de pragas, manejo de plantas daninhas, resistência à ferrugem asiática e outras doenças, adaptabilidade a variações térmicas, estiagem, fotoperíodo, tolerância ao alumínio tóxico do solo em profundidade, eficiência na extração de nutrientes, entre outros.

Nos últimos anos, a organização Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb) vem realizando o concurso Desafio Nacional de Máxima Produtividade, no qual se tem atingido produtividades de soja realmente desafiadoras quando Cláudio Nonaca comparadas às médias brasileiras. Um dos casos de sucesso foi alçado por um agricultor de Ponta Grossa/PR na safra 2014/15, com 142 sacas/hectare em área delimitada de cinco hectares (www.cesbrasil.org.br).

No Brasil, em torno de 58 milhões de hectares são ocupados com produção de grãos, dos quais cerca de 34 milhões com soja, que tem sido fator-chave no desenvolvimento econômico de muitos municípios

Evidencia-se, portanto, que é tecnicamente possível obter altos rendimentos de soja em condições brasileiras de clima e solo, sem apoio de irrigação, utilizando-se tecnologias disponíveis aos agricultores. Porém, mesmo considerando somente a região do referido produtor, para evitar discussões sobre ambiente de produção, pergunta- se: por que são raras as produtividades dessa magnitude?

Analisando esse exemplo, conclui-se que o grande diferencial foi a engenharia. Aplicou-se com primazia o conhecimento científico. Há que se compreender a seguinte lógica: quase nenhuma ideia vira informação; pouquíssimas informações são transformadas em tecnologias; e grande parte das tecnologias não agrega valor à cultura. Portanto, para que uma determinada tecnologia contribua de fato para o processo de produção é preciso que sejam feitas validações nas condições reais de cultivo, e para tanto são indispensáveis os profissionais que dão suporte agronômico às lavouras.