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Lavouras sob as nuvens do LA NIÑA

Msc. Cátia Valente, Somar Meteorologia, catiavalente@met.com.br

Atualmente estamos vivendo um período chamado de neutralidade climática, ou seja, um momento em que não há fenômenos climáticos de grande escala atuando. Desde o início do outono passado, o fenômeno El Niño que vinha ditando as regras do clima, perdeu força e ao longo dos últimos meses deixou de influenciar as estações. Com isso, o outono foi um período em que os padrões climáticos predominaram, bem como, o que vem acontecendo agora no inverno. Tudo dentro da normalidade com frentes frias, massas polares atuando entre no Sul do Brasil, e o tempo seco típico desta época do ano no Brasil central.

Mas, e agora? O que esperar para os próximos meses? Bem, todos os prognósticos, modelos matemáticos e estatísticos usados em meteorologia indicam resfriamento das águas do Pacífico Equatorial, ou seja, ao contrário do que vinha predominando, a partir de agora, é uma La Niña que está em andamento.

Para lembrar, a La Niña, assim como o El Niño, é um fenômeno climático de grande escala que influencia o clima no mundo inteiro. É considerada a fase fria do Oceano Pacífico e, por isso, o resfriamento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Por sua interação entre oceano e atmosfera, pode mudar os padrões de vento afetando o regime de chuvas em diversas partes do globo, alterando as características normais das estações do ano. Assim como o El Niño, a La Niña tem maior ou menor influência dependendo da época em que atua e também da intensidade e duração do fenômeno.

Em imagens pode-se observar anomalia de temperatura da superfície do mar, assim como é possível ver que boa parte das águas estão mais frias do que o normal, desde a região próxima à costa da América do Sul até quase a metade do Oceano Pacífico. De acordo com o Centro Meteorológico Norte Americano (NCEP-NOAA) os desvios de temperatura variam entre -0,5°C a -1,2ºC entre o Niño 3 e Niño 3+4. Já na área bem próxima a costa da América do Sul, as temperaturas ainda estão próximas do normal.

Além disso, o Instituto Internacional de Pesquisa, da Universidade de Columbia (IRI), indica que a chance de desenvolvimento do fenômeno La Niña aumenta para 50% no trimestre agosto-setembro-outubro aumentando para 58% no trimestre dezembrojaneiro- fevereiro. Para o desvio de temperatura previsto pelas simulações dinâmicas monitoradas pelo International Research Institute for Climate and Society (IRI), estima-se até - 0,5°C durante a primavera, ante o desvio de até +2,3°C registrado no mesmo período do ano passado quando o El Niño atuava. Trocando em miúdos, isso significa um fenômeno mais fraco e possivelmente de curta duração.

Dito isto, vamos agora analisar o que tudo isso significa. Para o Brasil, a maior parte dos efeitos será sentido no decorrer do próximo período de chuva, ou seja, entre a primavera de 2016 e o verão de 2017. Até lá, leia-se agora, durante o inverno, a época é normalmente seca na maior parte do País. Somente na Região Sul é que haverá um período mais chuvoso por causa da passagem de sistemas frontais (frentes frias) e uma estação de baixas temperaturas, em função da entrada das massas polares. Aliás, estas têm sido bem frequentes e intensas, caracterizando uma estação bem típica, com temperaturas negativas, geadas e ventos gelados do quadrante sul.

Seguindo mais adiante, na primavera, então, começarão a ser sentidos os primeiros sinais da La Niña. Sinais estes que devem se concentrar apenas na Região Sul, onde haverá um acumulado de chuva menor que o registrado no mesmo período do ano passado. Vale lembrar que em 2016 a influência era do El Niño e que já estava bem configurado, resultando numa primavera mais chuvosa do que o padrão nos estados do Sul. Portanto, significa dizer, que haverá uma primavera menos chuvosa do que foi a última.

Em síntese, para o Brasil, como um todo, ao longo da primavera, como é normal para a estação, as chuvas começarão a migrar pelo País (regiões Sudeste e Centro Oeste) embora, seja bem provável, que possa atrasar o início assim como os primeiros eventos sejam bastante irregulares. De qualquer forma, para o trimestre outubro-novembro-dezembro, o volume de chuva pode oscilar dentro a ligeiramente acima da média na maior parte do Sul e dentro da média no Centro-Oeste e São Paulo, diminuindo de frequência no início do verão sobre o Rio Grande do Sul.

Com relação à temperatura, a La Niña tende a diminuir a chance de calor extremo e duradouro como o registrado nos últimos anos no Brasil. Tanto que a previsão é de temperatura ainda abaixo da média no Rio Grande do Sul e oeste e sul de Santa Catarina e dentro da média desde o Mato Grosso do Sul e Paraná até a costa leste do Nordeste. O calor será mais intenso que o normal somente no interior do Brasil, Estados de Goiás, Mato Grosso, Tocantins, Pará e Maranhão.