Glauber em Campo

 

UM MUNDO PARA ALIMENTAR, MAS COM RENDA

GLAUBER SILVEIRA

AOrganização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) está considerando um crescimento populacional mundial de pelo menos 1% ao ano. Hoje somos mais de 7 bilhões de pessoas no mundo, e a maior concentração de pessoas é na Ásia. Com o crescimento que é uma explosão demográfica, em 2050 teremos quase 10 bilhões de pessoas na Terra. A FAO indica uma demanda de alimentos na proporção de 2% ao ano até 2050, o que, para os produtores, parece-me ser uma oportunidade de mercado. Hoje o Brasil produz 193 milhões de toneladas de grãos, sendo os principais a soja, o milho, o arroz, o trigo e o feijão. Mas o mundo hoje produz mais de 2,8 bilhões de toneladas de grãos, sendo que o Brasil é responsável por 7% dessa produção. Os principais produtores são os EUA e a China, que juntos produzem mais de 1 bilhão de toneladas.

Por mais que pareça que somos grandes produtores, o mundo espera muito mais de nosso País. Espera-se que em 2050 o Brasil esteja produzindo 1 bilhão de toneladas de grãos, ou seja, cinco vezes mais o que produz hoje. Sem dúvidas, é um grande desafio, ainda mais porque, para obtermos essa produção, precisaríamos ampliar a área agrícola do Brasil com mais 210 milhões de hectares, o que me parece ser impossível na atual legislação, uma vez que temos reservas indígenas, parques e reserva legal das propriedades.

O que o Brasil tem hoje disponível já aberto são as áreas de pastagem. Essas áreas com potencial agrícola somam em torno de 83 milhões de hectares, sendo assim, a oportunidade de mercado traz alguns desafios. Entre eles, aumentarmos a ocupação da pecuária por hectare, que hoje é muito baixa. Se a pecuária aumentar a ocupação em 40%, teremos a liberação dos 83 milhões de hectares em questão. Outro fator preponderante é aumentarmos a produtividade dos grãos/hectare.

A soja está há mais de dez anos estagnada na produtividade média em 50 sacas/ hectare. O milho cresceu sua produtividade, mas muito aquém do que se espera. Sendo assim, precisamos crescer na soja ao menos 1% e no milho, 1,4% ao ano nos próximos 34 anos para, na área disponível, obtermos o que o mundo espera dos produtores brasileiros. Observamos que algum produtor tem obtido produtividades elevadas. O desafio é transferir essa tecnologia de alguns produtores para a maioria.

Dois fatores foram identificados como primordiais ao desafio da produtividade. Um deles é a técnologia, seja a embutida na semente, seja a da agricultura de precisão, adubação em taxa variável. O produtor tem que ter a tecnologia como uma aliada à redução de custos. O outro fator é a mão de obra qualificada, fundamental ao sucesso da atividade, pois se identificou que da tecnologia adquirida pelos produtores, em média, ele tem usado apenas 40%. É muito pouco.

O desafio de se desenvolver ainda mais tecnologias direcionadas ao agro tem recebido muito incentivo de grandes multinacionais. Em nível de mundo, mais de US$ 40 bilhões estão sendo empregados empregados. Mas de nada adianta ter uma colheitadeira de última geração, com sensores e mapeamento de produtividade, se o produtor não usar os dados para reduzir custos na hora de planejar e plantar a próxima safra.

Com todo esse crescimento que se espera, precisaremos ter no campo pelo menos o triplo de mão de obra que temos hoje, pois mesmo as máquinas sendo cada vez maiores, elas precisam ser operadas. E o diagnóstico mostra que 88% dos produtores reclamam da qualificação da mão de obra. Por isso, a instituição de educação tem um enorme trabalho pela frente em treinar e educar pessoas para as novas tecnologias, para que todo proveito seja tirado delas.

Claro que uma enorme oportunidade para produzir não só grãos, mas alimentos em geral, está posta e é real. Mas para ser viável, esse crescimento de produção tem que vir aliado a um fator fundamental que é a rentabilidade. Os produtores nas últimas safras vêm obtendo menor rentabilidade, custo crescente e preço decrescente, resultando em baixa rentabilidade ou nenhuma. Sendo assim, o momento para muitos produtores é péssimo, e talvez não possam aproveitar o que está por vir. E venham, inclusive, a sair da atividade, ainda mais após um ano como este, que foi trágico devido ao clima.

Mas o Brasil mundo afora é visto como um celeiro alimentar para o futuro. Tanto que, se tudo correr bem, seremos responsáveis por quase 20% de toda produção de grãos do mundo em 2050. Resta o desafio de vencermos os pontos fracos e as ameaças como burocracia, insegurança jurídica, logística, etc. Torço para que possamos fornecer o que o mundo espera e o povo brasileiro todo, ao invés de corrupção, possa colher grãos.

Presidente da Câmara Setorial da Soja, diretor da Aprosoja e produtor rural em Campos de Júlio/MT