O Segredo de Quem Faz

Produtividade RECORDE: a vitória do conhecimento

Leandro Mariani Mittmann leandro@agranja.com

O produtor João Carlos da Cruz, 39 anos, colheu a fantástica média de 120,07 sacas de soja/hectare em uma área de 12 hectares e foi o vencedor do Desafio Nacional de Máxima Produtividade de Soja de 2015/16, concurso promovido pelo Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb). Filho de agricultor que abandonou o campo após uma crise, Cruz é, em princípio, gerente de uma distribuidora de insumos e cultiva, em Buri/SP, 320 hectares (arrendados) de soja há apenas três anos. As considerações a seguir lembram as de um engenheiro agrônomo, mas ele tem apenas o ensino fundamental. E tudo o que sabe de agricultura aprendeu em simpósios, cursos, treinamentos e outras capacitações. “O processo produtivo é um processo lento. Não existe uma receita que possa ser falada, implantada e todos vão produzir bastante e aumentar a produtividade nacional. Eu colhi 120 sacas, mas a minha média geral foi 68 sacas por hectare, sem contar a área do Cesb. O desafio (de aumentar a produtividade) é para mim também”, sugere.

A Granja — Como foi a participação no concurso Desafio Máxima Produtividade de Soja? Como chegou ao prêmio, a uma produtividade tão alta?

João Carlos da Cruz — Foi a primeira vez que participei. Tive o apoio da consultoria Detec, que contribuiu com muitas ideias, me alicerçando tecnicamente. Procuramos uma gleba que vinha demonstrando uma taxa produtiva bem interessante, e fizemos um trato especial para se conseguir chegar a nesse resultado. Adotamos um sistema de plantio cruzado, o qual eu não julgo o ideal para ser estendido (a áreas normais), porque teria que ter o dobro de funcionários, o dobro de equipamentos. Mas em uma área de 12 hectares, que foi a área do Cesb, tornouse bem interessante porque, com o plantio cruzado, consegui fazer um arranjo espacial de plantas mais adequado. A gente precisaria colocar um número de plantas maior que o normal usado por produtores da região.

E para isso precisaríamos trabalhar o arranjo espacial dessas plantas para que, adensadas, elas tivessem uma capacidade de respiração e fotossintética ativa. Então, não era apenas aumentar o número de sementes por metro, mas procurar fazer esse arranjo espacial de plantas. Fizemos uma adubação especial para esse objetivo, com o mesmo fertilizante da área comercial. Porém, como colocamos uma quantidade maior de plantas por hectare, também procuramos alimentar essas plantas de acordo. Esta é uma regra primária: quanto mais pessoas em uma casa, mais alimentos temos que ter; quanto mais plantas por hectare, mais alimentos temos que fornecer.

Colocamos 600 quilos por hectare, sendo 300 no primeiro plantio, e 300 no segundo, o que cruzamos. Um detalhe interessante foi o seguinte: no primeiro plantio, plantamos com o sulcador, que chamam de “botinha”; no segundo, alteramos a plantadeira, tiramos o sulcador e colocamos o disco. Mas mantendo a quantidade de adubo e a quantidade de sementes do primeiro para o segundo plantio. Depois, começamos a aplicação de inseticidas e fungicidas sempre associada à nutrição via folha. Usamos três aplicações de bioestimulantes junto com micronutrientes, e usando uma dose mais elevada. Sempre com associações de tanque com fungicidas e inseticidas. Não só proteger, mas também nutrir as plantas.

A Granja — Qual foi o custo de produção dessa área?

Cruz — Na verdade, não adianta você fazer um trato diferente, se a maioria dessa tecnologia você acabar não levando para a sua área total. Então, tenho duas receitas, das duas áreas. Quando a gente faz uma análise de custo, é criteriosa e extremamente profissional. Não consideramos apenas insumos e mão de obra. Consideramos o custo total, arrendamento, armazenagem, transporte, insumos na sua totalidade, assistência técnica, escritório... então, é o custo real. O produtor, quando passa o custo, normalmente é de arrendamento mais insumos, e não considera o custo total. Então, quando coloco na planilha, costumo “planilhar” o total o custo real de tudo aquilo que foi colocado. Na nossa área normal tivemos um investimento por hectare, avaliando tudo isso, de R$ 2.309,67.

E o custo da área do Cesb foi de R$ 3.480,86. E o que aconteceu? A receita bruta da área normal foi de R$ 4.760,00, contra uma receita da área do Cesb de R$ 8.404,90. Então, investiu- se mais? Investiu-se. Houve retorno? Houve retorno. Esse retorno também temos que associar ao momento que estamos passando com a soja. Principalmente pela valorização do grão pela alta do dólar, e em função da alta do bushel da soja.

Isso daí com certeza seria minimizado se não tivéssemos os patamares anteriores. Mas o investimento em tecnologia respondeu? Respondeu. E está demonstrado nos números. Mas o que você não consegue implantar em uma área comercial por enquanto? A nossa variação é o sistema de plantio cruzado. Então, aí fica um desafio para as indústrias de implementos, que possam desenvolver plantadeiras para que possamos adensar. Hoje há duas empresas nacionais que estão trabalhando com isso.

A Granja — Quais técnicas e tecnologias da área do prêmio são viáveis de serem aplicadas em áreas convencionais? E o que não é viável?

Cruz — Hoje quando falamos em migração de tecnologias, temos que entender o solo e as glebas que trabalhamos de forma independente. O que podemos trabalhar (na lavoura convencional) seriam a fertilidade e a adubação, mas não como uma receita de bolo, fazer uma regulagem no início e ir até o fim com essa regulagem. Precisamos entender nossas glebas como sendo diferentes umas das outras e com necessidades diferentes. Mesmo dando um pouco mais de trabalho, vamos fazer as regulagens diferentes. E até em algumas glebas estaremos alterando o fertilizante, para atender aquilo que é a necessidade dela. E a questão de cultivares e períodos de plantio.

Você não consegue fazer todo o plantio em uma melhor janela. Seria o sonho. Aqui na nossa região consideramos um período de 30 dias, quando conseguimos melhores tetos produtivos, de 20 de setembro a 20 de outubro. Essa é a janela do nosso filé mignon. Lutamos para conseguir colocar tudo dentro dessa janela. E as cultivares que estaríamos implantando seriam as mais estudadas por gleba, a que atenda as características daquela gleba. E a questão de proteção de plantas é mais simples, que você consegue implantar, sim.

A questão de bioativadores e nutrientes foliares com qualidade para poder atender esse complemento, também não vejo problema. Você consegue tranquilamente entender. Já a questão operacional é uma que nos impede bastante. A questão de estudos gleba a gleba, talhão a talhão para podermos ter esse aumento de produtividade. Porque a produtividade, segundo o relatório do Cesb, praticamente estagnou em nível nacional. E o objetivo do Cesb, quando lançou o desafio, nada mais era do que buscar novos mecanismos, novas ferramentas para que se pudesse alterar essa realidade nacional. Para que se possa trabalhar a média nacional de produtividade e não só nessas áreas do Desafio. O que foi feito no Desafio que possa ser expandido para outras áreas para, assim, ter um reflexo em nível nacional.

A Granja — O que você aprendeu nessa área do concurso que será aplicado na área convencional da safra 2016/17?

Cruz — São diversos fatores. Você tem bastante coisa na mente que acabou fazendo e foi o que resultou (na alta produtividade). Não foi um único fator. Se fosse apenas um, seria muito fácil a gente corrigir a questão produtiva do País. Mas eu enumero o seguinte. Primeiramente, o trato com o solo, porque você não tem como interferir na questão climática. Nós plantamos sequeiro, e dependemos de chuva. E tendo um solo não compactado, onde a raiz pode ter um desenvolvimento pleno, acaba minimizando a questão do estresse hídrico.

Há um aprofundamento das raízes onde elas forem se alimentar, beber esse alimento. E ter um perfil de solo com nutrientes, não só na primeira camada, nos 40 centímetros, mas até um metro, com nutriente sem profundidade. Um outro fator importante: hoje temos inúmeras opões de cultivares. A cultivar que muitas das vezes é a ideal para mim não é a ideal para o meu amigo de outra região. Mas temos muitas opções. Então, temos que buscar a melhor cultivar e ver as necessidades dessa cultivar e investir, porque o investimento traz retorno. Na questão da soja, principalmente, vemos claramente que o investimento em soja traz retorno. Estamos muito aquém do que poderíamos estar investindo para alcançar os níveis produtivos que precisamos.

A Granja — Pelo que você aprendeu, que dicas daria aos produtores que agora vão plantar a safra 2016/ 17 e as próximas safras para produzirem mais?

Cruz — Começar a entender que a questão produtiva é lincada –usarei uma frase do professor Fancelli (Antonio, professor da Esalq/USP) – “a centenas de milhares de detalhes”. Estamos em um patamar tão baixo, sempre fazendo as mesmas coisas e esperando resultados diferentes. Então, temos que mudar um pouco de atitude, talvez uma alteração na nossa atitude de pensar e agir. Quando falamos em produtividade, temos que avaliar de forma individual, cada um com a sua necessidade. “O meu vizinho lá plantou só com fertilizante e foi muito bom”. Mas, e pra mim? Fazer um estudo de solo. Acho que fazemos poucas análises de solo. Precisamos fazer a análise de solo no mínimo uma vez por ano. Quando finalizamos uma safra e iniciamos outra já com a análise de solo na mão para ver o que conseguimos evoluir em termos de nutrição de solo, o que falta, o que podemos corrigir. Então, você tem que estar nessa busca. Você conseguiu corrigir um elemento, tem que ver o que está derrubando. Então, vamos correr atrás de outro elemento, vamos corrigindo.

É algo que você não consegue fazer em uma única vez. É muito difícil. O processo produtivo é um processo lento. Não existe uma receita que possa ser falada, implantada e todos vão produzir bastante e aumentar a produtividade nacional. Eu colhi 120 sacas, mas a minha média geral foi 68 sacas por hectare, sem contar a área do Cesb. O desafio é para mim também. Então, o recado é o seguinte: vamos tratar a soja de uma forma individual, de gleba a gleba, vendo a cultivar que mais se adaptou à nossa realidade. Muitas vezes, para plantar a cultivar que “estourou” no vizinho, a gente teria que fazer uma mudança muito radical. A questão produtiva não se centraliza em um único aspecto, mas em dezenas, em milhares de detalhes.

Momento de plantio e janela de plantio são fundamentais. Se conseguir colocar a soja dentro da janela ideal, você já sai com passos largos à frente para conseguir uma produtividade alta. Se perdeu a janela ideal, por mais produtiva que seja a cultivar, o fertilizante, o capricho na hora de cuidar das pragas, das doenças, você já não vai conseguir chegar ao teto produtivo. Então, trato com o solo, janela ideal e escolha da cultivar são pontos primordiais para se conseguir a produtividade.