Eduardo Almeida Reis

 

VISITAS

EDUARDO ALMEIDA REIS

Smartphones, digitalização, internet e mundo virtual são novidades, mas no capítulo das propriedades rurais, que existem há séculos, nada cresceu tanto no Brasil quanto os hotéis-fazendas.

Há 50 anos, que me lembre, só existiam dois hotéis-fazendas no Sudeste em que viajei regularmente. Hoje, não se dá um passo sem esbarrar em uma infinidade de estabelecimentos do gênero, alguns oferecendo atrações interessantíssimas como o arborismo, prática esportiva que consiste em percorrer um circuito formado por diferentes estruturas (pontes de cordas, redes, etc.), montadas entre as copas das árvores. O mesmo que arvorismo.

Pergunto ao caro e preclaro leitor de A Granja: que acha o amigo do arborismo? Já morei em fazendas cheias de arvoristas, que atendiam pelo coletivo capela, regionalismo brasileiro para bando de macacos.

Longe de mim, nestes dias olímpicos, qualquer crítica aos esportes mesmo praticados nas árvores. Sentei-me diante do computador para escrever sobre as visitas que recebemos em nossas fazendas. As minhas sempre funcionaram como hotéis-fazendas gratuitos, isto é, quartos, banheiros, alimentação, cavalos, duchas, piscinas – tudo de graça.

E havia hóspedes exigentes. Um deles, engenheiro-agrônomo, achava nossa estrada muito ruim, deixava seu carro estacionado no asfalto e exigia condução para percorrer os 11 quilômetros de barro. Realmente, terras boas sempre foram sinal de estradas ruins, salvo quando asfaltadas. O agrônomo queria condução da fazenda para apresentar suas novas mulheres. Confundia casamento com safra anual e trocava de mulher uma vez por ano. Hoje, o excelente profissional talvez se casasse duas vezes por ano atento ao sucesso das lavouras do milho safrinha.

Outro hóspede regular, pintor genial, marido amantíssimo da mãe de seus filhos, jamais se esqueceu de nos levar o uísque regulamentar. Levava uma espécie de garrafão de quase três litros, que bebíamos na primeira noite. A partir daí, esvaziávamos o estoque do fazendeiro.

Tentei ver no Google o nome do tal garrafão, que já esqueci, e acabei descobrindo que em 12 de agosto de 2012, na Escócia, fabricaram uma garrafa de 1,70 metro de altura, que recebeu 228 litros do The Famous Grouse para festejar o início da temporada de caça da British Red Grouse (Lagopus lagopus Scoticus), uma ave da região. Saudoso amigo me trouxe da Escócia um garrafão daquele uísque. Não tinha 228 litros, mas beirava os cinco.

De todos os hóspedes que recebi nas muitas roças em que morei, os mais originais foram três estudantes do ITA, o Instituto Tecnológico da Aeronáutica, de São José dos Campos/SP, uma das melhores escolas do Brasil.

A casa da fazendinha, que remendei enquanto estudava a construção da sede nova, tinha 100 anos e estava caindo aos pedaços, como de fato caiu recentemente. Estilo colonial de péssima categoria, ou estilo império, assoalhos furados, barrotes bichados, três quartos e um banheiro no andar de cima, quarto com banheiro no andar de baixo, banheiros que mandei fazer para quebrar o galho. Ótimo fogão a lenha, serpentina feita com molas de caminhão soldadas. Alma quadrada e curvas em ângulo reto, é serpentina eterna pela qualidade do aço usado nas molas.

A primeira pergunta de um dos iteanos foi: “O senhor lê o Time?”. Menti que leio, embora não fale inglês. A segunda pergunta foi mais original, considerando a precariedade da casa: “Que roupa devemos usar para o jantar?”. Respondi que jantava de smoking, que os americanos chamam tuxedo, mas ele poderia jantar de bermudão, que a região é muito quente.

A partir daí as coisas se ajeitaram, rapazes educados, inteligentes e poliglotas, localizaram o sinal de tevê no alto de um morro e fizeram uma espécie de tabela com todas as estações de rádio que chegavam ao receptor caríssimo, importado, que comprei em um momento de insensatez.

Iteano não tem no Houaiss, mas deu para perceber que é aluno ou ex-aluno do ITA. Os três passaram por lá um feriadão, cavalgaram, passearam de barco a motor e se exercitaram nos altos dos morros procurando sinais de tevê, sob protesto de minha filha interessada em um deles. Explico: a pesquisa nos altos dos morros exigiu o transporte de uma bateria de automóvel, um televisor portátil e imensa antena daquelas antigas na ponta de um mastro. Escusado é dizer que fiquei no alpendre deitado em uma rede cuiabana, das muitas que comprei no Mato Grosso.

Problemão, nas fazendas leiteiras, são as hóspedas que usam biquínis normais nas praias do Brasil inteiro. De biquíni gostam de ir ao estábulo para assistir à ordenha e desestruturam os compadres que lá estão trabalhando honestamente. Para falar a verdade verdadeira, até o fazendeiro fica desestruturado.