Plantio Direto

 

ALGODOEIRO em SPD: desafios para manutenção da qualidade do solo

Engenheira agrônoma Leticia Helena Campos de Souza, mestre em Agronomia e doutoranda em Agricultura Tropical, Universidade Federal de Mato Grosso

O plantio direto é um sistema de produção agrícola baseado em três princípios básicos: mínimo revolvimento do solo, cobertura do solo permanente e rotação de culturas. Difere, portanto, dos sistemas de cultivo convencionais, que são caracterizados por constante mobilização do solo (aração e gradagem) e monocultivo. A adoção do sistema de plantio direto permite uma exploração intensiva do solo, de forma racional. Seus principais benefícios são os seguintes: proteção do solo contra erosão, controle de plantas daninhas, manutenção da umidade do solo, aumento da matéria orgânica, ciclagem de nutrientes, etc., sendo, portanto, considerado um sistema de produção altamente conservacionista. Segundo a Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação (Febrapdp), no ano agrícola de 2011/2012, eram mais de 30 milhões de hectares sob plantio direto no Brasil.

Os benefícios advindos da implantação desse sistema são observados ao longo do tempo, sendo que, quanto maior o período de adoção do sistema, mais proeminentes são seus benefícios. Nos primeiros cinco anos de implantação os benefícios podem não ser percebidos. A partir desse tempo, inicia-se um período caracterizado pelo acúmulo de palhada em superfície, concomitantemente com aumento da matéria orgânica do solo. Após, em média, dez anos de implantação considera- se que o sistema de plantio direto está consolidado, com acúmulo de matéria orgânica, aumento da capacidade de troca de cátions, reciclagem de nutrientes, etc.

É um desafio a inserção do algodão no esquema de rotação de culturas, um dos pilares do plantio direto, dificuldade a começar pelo ciclo longo da cultura, com colheita no final do período chuvoso

É importante esclarecer que a consolidação do plantio direto é um processo dinâmico, que é dependente das particularidades de cada local onde será implantado, como tipo de solo, culturas inseridas no esquema de rotação de culturas, temperatura, precipitação, etc.. E, portanto, o tempo de consolidação pode variar, para mais ou para menos. Muitas vezes, esse tempo de consolidação é tido como longo. Contudo, não deve ser visto como uma barreira para adoção pelos produtores, já que pode ser considerado um relevante investimento do ponto de vista ambiental, já que promove a conservação de recursos naturais como o solo e a água. E do ponto de vista econômico, pois tende a diminuir a dependência de insumos externos à propriedade, como fertilizantes e defensivos.

O sucesso do sistema de plantio direto está diretamente relacionado com as culturas escolhidas para compor o esquema de rotação ao longo do tempo. Para atender, por exemplo, o princípio de cobertura permanente do solo, devese atentar para inserção de culturas com potencial de aporte de resíduos, em quantidade e qualidade suficiente para proteger o solo, até que a próxima cultura de interesse se estabeleça.

Sendo assim, é um desafio a inserção de uma cultura como o algodão no esquema de rotação de culturas. Primeiramente, por conta de seu ciclo longo, com colheita no final do período chuvoso, que inviabiliza o plantio e o estabelecimento de uma planta de cobertura até o início das próximas chuvas. Somado a isso, os resíduos em pós-colheita deixados no solo pelo algodão não são suficientes para mínima cobertura do solo. Contudo, trata-se de uma cultura com produto final de valor agregado, que a torna de muito interesse para o produtor, e, portanto, pesquisas que viabilizem essa cultura em um sistema de produção sustentável tornam-se importante.

Um dos problemas provocados pelo algodão ao sistema de plantio direto é que os resíduos em pós-colheita da cultura deixados no solo não são suficientes para a mínima cobertura do solo

No ano agrícola de 2005/2006, sob coordenação do pesquisador dr. Fernando Mendes Lamas, da Embrapa Agropecuária Oeste, iniciou-se um experimento de longa duração, na área do Instituto Matogrossense do Algodão (Ima/MT), em Primavera do Leste/ MT, com intuito de avaliar a cultura do algodão em sistema de plantio direto (SPD1, SPD2 e SPD3) e convencional (SC, SC1 e SC2).

No ano agrícola 2013/2014, sete anos após implantação do experimento, sob coordenação do dr. Eduardo Matos, da Embrapa Agrossilvipastoril, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso, a Universidade Federal de Mato Grosso (campus de Sinop/ MT) e a Fundação Agrisus, foram coletadas amostras de solo desse experimento, até um metro de profundidade, com o intuito de avaliar a influência do sistema de plantio direto sobre a qualidade do solo, com a cultura do algodoeiro inserida no esquema de rotação de culturas. A Tabela 1 apresenta a sequência de culturas utilizadas nos quatro últimos anos agrícolas que antecederam essas coletas nas áreas estudadas.

Os resultados das análises do solo coletado após sete anos de implantado o sistema de plantio direto demonstram os primeiros indícios dos benefícios desse sistema. Constatouse, por exemplo, uma tendência de diminuição da densidade do solo na camada mais superficial nas áreas de SPD comparado com o SC, como pode ser observado na Figura 1.

A densidade do solo permite inferir sobre sua compactação e, de maneira geral, admite-se que, quanto maior a densidade do solo, maior sua predisposição à compactação. Essa densidade menor nos tratamentos com SPD, além de indicar menor compactação, e, consequentemente, menores riscos de ocorrência de processos erosivos, colabora também para desmitificar um receio que paira sobre os produtores: a compactação superficial do solo.

Esse tipo de compactação em SPD geralmente ocorre naturalmente, já que o solo nesse sistema não é revolvido como no SC, o que acarreta a uma reorganização natural do solo. O que infelizmente pode ocorrer é que a constatação de compactação superficial frequentemente deixa o produtor receoso de começar ou dar continuidade na condução desse sistema. Nossos resultados, portanto, demonstram o potencial de redução dessa compactação com o SPD.

Um conjunto de fatores contribui para a redução da densidade. Como exemplo, podemos citar a diversificação das culturas em esquema de rotação, que por sua vez exploram porções diferentes de solo, a inserção de gramíneas, como a Brachiaria, que possui sistema radicular volumoso, pode contribuir para a menor densidade do solo.

Matéria orgânica — Outro resultado muito importante é o potencial de aumento da matéria orgânica do solo. Novamente são os primeiros cinco centímetros que expressam a evolução do sistema (figura 2). A matéria orgânica é um indicador-chave de qualidade do solo, por desencadear a melhoria de atributos físicos, químicos e microbiológicos do solo.

Contribui para aumentar a agregação do solo, infiltração e retenção de água, capacidade de troca de cátions, ciclagem de nutrientes (potencial fonte de nutrientes), além de fomentar o sequestro de carbono, contribuindo para minimizar impactos ambientais por emissão de gases que contribuem com o efeito estufa. A matéria orgânica, portanto, é uma aliada do produtor na eficiência produtiva e energética da propriedade.

O aumento da matéria orgânica do solo é possível por meio, principalmente, do aporte de resíduos das plantas, o que no SPD ocorre de maneira mais eficiente e constante. Portanto, sistemas de produção como o SPD que priorizem o aporte de resíduos vegetais ao solo, dando importância pela inserção de plantas de cobertura eficientes, são de extrema importância para minimizar a degradação do solo e do meio ambiente como um todo.

Vale frisar que essa dinâmica de aumento da matéria orgânica constatada neste estudado foi verificada em área de SPD com o algodoeiro no esquema de rotação de culturas. Mesmo diante de toda dificuldade inerente à cultura em si, já descrita anteriormente, o SPD tem potencial para aumentar os teores de matéria orgânica.

Leticia: "A consolidação do plantio direto é um processo dinâmico, que depende das particularidades de cada local onde será implantado, como tipo de solo, culturas inseridas no esquema de rotação de culturas, temperatura, precipitação, etc.

Pelos resultados obtidos, que demonstram os benefícios do SPD em um primeiro momento apenas para a camada de zero até cinco centímetros de solo, deve-se atentar para o seguinte fato: dependendo da fase de evolução do sistema, a amostragem de solo que tradicionalmente é feita na camada de 0-20 centímetros pode não ser capaz de demonstrar a eficiência desse sistema, já que o aumento da matéria orgânica, por exemplo, ocorre da superfície do solo para as camadas mais profundas gradativamente. Sendo assim, uma amostragem de solo nas camadas mais superficiais deve ser considerada para avaliação do sistema e auxílio na condução dos cultivos.