Agricultura Familiar

 

Uso de energias ALTERNATIVAS na pequena propriedade

Engenheiros agrônomos Marco André Junges, assistente técnico regional da Emater/RS-Ascar,e Carlos Olavo Neutzlig, e integrante da Unidade de Cooperativismo da Emater/RS-Ascar

A energia nos últimos anos tem sido considerada um dos itens que mais agrega valor no custo de produção agropecuário. Ao longo dos anos tem recebido reajustes que variam entre 12% e 15% ao ano. A base da energia para a produção agropecuária é originada basicamente no petróleo e em grandes e médias hidrelétricas. O consumidor final sofre os impactos do alto custo do transporte rodoviário para os derivados de petróleo e da transmissão a longas distâncias para a energia elétrica. As perdas na transmissão, em alguns casos, podem chegar entre 15% e 20% da energia produzida.

Os altos custos verificados para a utilização da técnica da irrigação ou da manutenção da temperatura e produção de rações para avicultura e suinocultura, para resfriamento e aquecimento de água com vistas à higienização de equipamentos utilizados na produção do leite, entre outras, têm levado muitos produtores a buscar formas alternativas de produção de energia na propriedade.

Energia solar: a legislação permite a produção e injeção de energia nas redes normais e possibilita também que os produtores de energia possam utilizá-la de forma compensatória

A Emater/RS-Ascar, instituição que há mais de 60 anos auxilia os produtores gaúchos em seus desafios para a produção, está integrada a essa necessidade de diminuição dos custos de produção. Além de realizar orientações sobre planejamento, implantação, condução de lavouras produtoras de grãos e forragens e orientar para o melhor manejo de rebanhos, passa, a partir de 2016, a intensificar suas ações para viabilizar a produção de energia nas propriedades rurais a partir de fontes alternativas renováveis e sustentáveis.

À esquerda, o aquecedor campeiro, com garrafas pet, encanamento de PVC, caixas de leite longa vida e uma bombona plástica; acima, o carneiro hidráulico, cuja alimentação que se dá por um cano, que sofre uma brusca interrupção criando o "golpe de ariete"

Entre as tecnologias discutidas pela Emater/RS-Ascar estão a produção de gás metano através da utilização de biodigestores, o aquecimento de água utilizando a energia solar em aquecedor campeiro, o uso da energia hidráulica para bombeamento de água, por meio do carneiro hidráulico, a aeração de água em tanques de piscicultura e a produção de energia elétrica por meio do uso de placas fotovoltaicas que utilizam a energia do sol. É importante reconhecer que as tecnologias discutidas foram produzidas por diversas instituições e produtores que não a Emater/RS-Ascar, mas a empresa verifica sua eficácia e apresenta-as em visitas e dias de campo aos produtores para avaliação.

Biodegestor: é uma estrutura na qual os dejetos animais sofrem a decomposição por bactérias anaeróbicas. Essa decomposição produz o biogás e o biofertilizante. O biogás possui na sua composição principalmente gás metano que serve de combustível para geração de calor ou alimentação de motores a combustão. O biofertilizante é o esterco “curtido” e que pode ser utilizado na adubação de hortas, pastagens, etc. A quantidade de biogás a ser produzido é proporcional ao tamanho do biodigestor bem como à composição dos materiais utilizados.

Aquecedor campeiro: é um equipamento simples construído com garrafas PET, encanamento de PVC normal, caixas de leite longa vida e uma bombona plástica. As caixas de leite têm seu lado aluminizado pintado na cor preta fosca e são acondicionadas no interior das garrafas PET, por onde passa o encanamento que conduz a água. O equipamento não utiliza qualquer fonte de energia convencional, a não ser a irradiação solar, e tem seu funcionamento baseado na diferença de densidade da água.

Dentro da bombona, a água fria, por ser mais densa, deposita-se na parte inferior, de onde se alimenta o aquecedor. Essa água, conforme vai sendo aquecida, ao passar pelas garrafas PET, torna-se menos densa e tende a subir, depositando-se na parte superior da bombona. O equipamento em questão, em dias ensolarados, consegue elevar a água da temperatura ambiente a até 50ºC.

Carneiro hidráulico: atua utilizando- se da força da gravidade. A alimentação que se dá por um cano sofre uma brusca interrupção, criando o chamado golpe de aríete. Esse golpe cria pressão suficiente para bombear água de um nível mais baixo para um nível mais alto, levando-a para o reservatório destinado à manutenção familiar ou dos animais. Tem capacidade de elevar a água em torno de 6 a 8 metros de altura para cada metro de desnível entre a fonte de alimentação e seu local de instalação.

Aerador: para tanques de piscicultura, é outro invento simples que não consome energia convencional. Utiliza-se também a força da gravidade para injetar e enriquecer a água com oxigênio. O invento simples é de Samuel Gomes, do Espírito Santo. No invento original, a água é fornecida por uma fonte protegida através de um cano de 20 milímetros e depois forçada a passar em um orifício diminuído para 5 milímetros. Nessa passagem, ocorre um aumento de pressão e da velocidade da água que cria uma força de arrasto que capta o ar do ambiente e mistura-o com a água. A recomendação é que a altura de desnível entre o fornecimento da água e o local de instalação do aerador seja de no mínimo 5 mestros.

Energia solar: produzida a partir da irradiação solar, é gerada por placas solares fotovoltaicas. Essas placas absorvem a energia do sol, produzindo eletricidade 12 volts, em corrente contínua. Acoplado aos painéis temse o inversor de energia, que a transforma em 220 volts e em corrente alternada, para que seja injetada na rede normal das concessionárias. A legislação brasileira permite a produção e injeção de energia nas redes normais e permite também que os produtores de energia possam utilizá-la de forma compensatória.

Em meses de produção maior que o consumo, o excedente depositase em uma espécie de banco de energia, para que seja utilizada em meses com produção menor em relação ao consumo. Fabricantes e comerciantes indicam eficiência das placas solares de até 80% na produção de energia até os 25 anos de utilização. Para o meio rural e expectativa de retorno do investimento, no Rio Grande do Sul, situa-se entre 6 e 8 anos.

Sustentáveis e de baixo custo — Todas as cinco tecnologias descritas são possibilidades de aproveitamento e produção de energia a partir de fontes alternativas altamente sustentáveis e de baixo custo, utilizando-se de forças naturais, muitas delas presentes em grande parte das propriedades rurais pelo Brasil.

O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) oferece linha de crédito para financiamento de energias alternativas. Os juros são de 2,5% ao ano e prazo de até dez anos para a devolução do capital e juros. Outras informações podem ser obtidas em um dos escritórios municipais da Emater/RS-Ascar do Rio Grande do Sul ou outras instituições de assistência técnica e extensão rural.