Fitossanidade

 

Eficiência passa pela CAPACITAÇÃO do operador

A indústria de máquinas e implementos agrícolas investiu e desenvolveu inovações precisas para a aplicação de defensivos. No entanto, é preciso qualificar a mão de obra para que tais tecnologias não sejam mal aplicadas ou subutilizadas, comprometendo a eficácia e a segurança da atividade

Hamilton Humberto Ramos, pesquisador do Centro de Engenharia e Automação do Instituto Agronômico (IAC)

Desde a década de 1970, a agricultura brasileira tem tido um desenvolvimento significativo, fazendo com que o Brasil passasse de importador para um grande exportador de alimentos. Neste período, milhões foram investidos pela indústria de máquinas, para que as máquinas, implementos e consequentemente as operações agrícolas se tornassem mais seguras e precisas. O mesmo pode ser dito da indústria de agrotóxicos, que investiram no desenvolvimento de produtos que fossem eficazes em menores doses, mais específicos em seu espectro de controle, mais seguro ao ambiente, além dos investimentos no tipo e modelo de embalagens e no sistema de recolhimento e reciclagem de embalagens vazias.

No entanto, apesar de toda essa evolução, pouco investimento tem sido observado na qualificação do trabalhador rural, naquele que irá utilizar toda essa tecnologia, fazendo com que, via de regra, ela seja mal ou mesmo subutilizada. Esse trabalhador, segundo estudo desenvolvido pela Secretaria de Agricultura Abastecimento do Estado de São Paulo, possui até quatro anos de escolaridade, aprendeu a trabalhar com leigos, principalmente integrantes da família ou outros agricultores, e nunca recebeu um treinamento específico. Mesmo os técnicos que os orientam podem ter seu conhecimento limitado.

Apesar de o número de faculdades com a disciplina de Tecnologia de Aplicação ter ampliado muito nos últimos 20 anos, a qualificação dos professores que ministram essa disciplina, em muitos casos, ainda é um problema a ser resolvido. Isso, no campo, faz com que, mesmo em equipamentos com alto grau de tecnologia, algumas falhas que interferem diretamente na eficácia e na segurança da aplicação de agrotóxicos sejam frequentemente observadas nas avaliações de máquinas e treinamentos realizados nos nove anos do Programa Aplique Bem, parceria entre o Centro de Engenharia e Automação do Instituto Agronômico (CEA/IAC) e a Arysta Lifescience.

Uma das falhas está na agitação da calda no tanque de pulverização. Praticamente todos os produtores preocupam-se com o volume de calda aplicado por hectare e, por consequência, com o volume sendo pulverizado pelos bicos de pulverização, mas poucos estão preocupados com o volume de calda retornando ao tanque para sua agitação e homogeneização. Esse problema é especialmente grave em sistemas que utilizam bombas de pistão no qual o volume gerado pela bomba é compartilhado entre a agitação e a pulverização. Uma rotação de trabalho inadequada (diferente de 540 rpm na TDP) pode fazer com que haja um volume de calda muito baixo sendo direcionado ao tanque, prejudicando a agitação e favorecendo a segregação do produto.

Dependendo da formulação utilizada, o produto pode decantar (causando um excesso de dose no início da aplicação) ou subir (causando uma deficiência de dose no início da aplicação). Em ambos os casos, a dose no início da pulverização será maior ou menor do que a desejada, podendo causar problemas como a intoxicação da cultura ou mesmo a indução de resistência da praga em função da aplicação de subdoses. Esse problema é especialmente significativo em pulverizadores de pequeno porte, como os semiestacionários utilizados na horticultura, mas, mesmo com o uso de controladores da pulverização, tal deficiência é comum e não notada uma vez que o que eles avaliam é o volume de calda aplicado. Um exemplo clássico disso são os pulverizadores multitanques, utilizados na cultura da cana-de-açúcar.

Outra falha bastante frequente em pulverizadores que trabalham com controladores é a não calibração periódica de sensores como os de velocidade ou de vazão. Normalmente, sensores não leem diretamente a variável a que se destinam. Por exemplo, existem sensores de roda que contam pulsos (pontos elevados colocados a distâncias regulares na roda) e relacionam esse número de pulsos com uma distância percorrida no solo para cálculo da velocidade de deslocamento. Tal distância, no entanto, depende de fatores como tamanho, calibração e desgaste do pneu, do índice de patinagem, etc., e por isso a constante de calibração deve ser verificada periodicamente.

Caso isso não seja feito, o pulverizador irá se deslocar a uma velocidade diferente daquela efetivamente entendida pelo controlador e colocada no cálculo da vazão. Isso necessariamente levará a uma falha de aplicação que poderá ser significativa, chegando a mais de 10% do volume aplicado. O mesmo ocorre com os controladores de vazão, que normalmente transformam o número de voltas de uma hélice em volume por minuto. Todo controlador tem um sistema para calibração desses componentes e a forma de se realizar tal operação deve ser orientada pela assistência técnica do pulverizador e exigida pelo agricultor.

A seleção das pontas de pulverização e sua interação com as variáveis climáticas é outro ponto a ser destacado. Sempre, na seleção de uma ponta, o primeiro fator a ser dimensionado é o tamanho de gotas que será necessário à operação. Não cabe aqui discutir todos os aspectos relacionados à seleção da ponta e a regulagem do pulverizador para redução da deriva, mas, de forma geral, o primeiro passo na seleção do tamanho da gota é determinar a dificuldade de se enxergar o local onde a praga a ser controlada se encontra na planta. Quanto mais difícil de enxergar, menor deverá ser o tamanho da gota e vice-versa. Gotas grossas, apesar de melhor resistência a evaporação e deriva, têm maior dificuldade em penetrar na planta, parando na superfície e muitas vezes não levando adequadamente o produto até a região onde ele é necessário, prejudicando o controle.

Assim, não existe aplicação para ferrugem da soja com gotas grossas, uma vez que é necessário atingir o terço inferior da planta, da mesma forma que não existe aplicação de herbicida no solo com gotas finas. Mesmo em um equipamento bem regulado, utilizando controladores da pulverização, com todos os sensores calibrados, uma falha na seleção do tamanho de gotas não será percebida pelo sistema, pois interferirá na quantidade de calda chegando ao alvo e não no volume por minuto ou por hectare aplicado pelo pulverizador. Dois pulverizadores aplicando o mesmo produto, na mesma velocidade, com o mesmo espaçamento entre pontas e volume de aplicação, mas com gotas de tamanho diferentes, terão resultados biológicos de controle diferentes, mas o relatório de pulverização emitido pelo controlador será o mesmo.

Uso de adjuvantes — Não é só na regulagem do pulverizador que o desconhecimento interfere, mas também no uso de tecnologias colocadas à disposição do agricultor. Hoje os adjuvantes da pulverização podem ser ferramentas importantes na redução de custos e na elevação da eficácia das pulverizações, no entanto, conhecer o produto e suas potencialidades é fundamental, uma vez que ele pode interferir positiva ou negativamente na tecnologia de aplicação. Há hoje uma discussão bastante acirrada se os adjuvantes devem ou não ser registrados como agrotóxicos.

Na imagem a cima, a aplicação correta, com as gotas do defensivo chegando ao solo; à direita, o “véu” indica que o produto está se evaporando, sem atingir o alvo

Por definição, adjuvante é qualquer substância ou composto sem propriedades fitossanitárias, exceto a água, que é acrescido em uma preparação de agrotóxico, para facilitar a aplicação, aumentar a eficácia ou diminuir riscos. Assim, se ele não tem “propriedades fitossanitárias” e só é eficaz se “acrescido em uma preparação de agrotóxico”, ele não poderia ser classificado como agrotóxico. Por outro lado, se ele interfere na tecnologia de aplicação, podendo alterar fatores como tamanho de gotas, evaporação ou deriva, ele também não poderia ser comercializado como fertilizante foliar, como é muito comum hoje.

Hamilton Ramos, do IAC: mesmo os técnicos que orientam os trabalhadores rurais podem ter seu conhecimento limitado

É por isso que o Centro de Engenharia e Automação do Instituto Agronômico defende, em parceria com outros pesquisadores de outras instituições, que os adjuvantes devem ser classificados por suas características funcionais e trabalha no desenvolvimento de métodos para que essas características possam ser avaliadas.

Adjuvantes desempenham funções específicas (espalhantes, adesionantes, penetrantes, umectante, quelatizantes, etc.) e por isso sua funcionalidade é importante. Essa funcionalidade está relacionada com a química, natureza e qualidade dos componentes, o que faz com que um espalhante seja diferente de outro espalhante, dependendo de sua constituição. Pode existir um adjuvante que seja multifuncional, mas certamente não existe um adjuvante que possa desempenhar todas essas funções.

Um exemplo de falha associada ao uso de adjuvantes pode ser o não conhecimento de seu efeito espalhante. Alguns espalhantes, principalmente alguns bons siliconados, podem fazer com que o espalhamento da gota de pulverização sobre a folha possa ser até 40 vezes maior. O uso desses espalhantes sem uma redução no volume de calda aplicado pode fazer com que gotas que não coalesceriam passem a coalescer, aumentando o escorrimento, reduzindo a quantidade de ativo na planta e prejudicando o controle.

Uma análise pura e simples dessa aplicação pelo controle e não pela cobertura da folha, que é o que o espalhante destina- se a aumentar, pode fazer com que se descarte uma tecnologia que permitiria ao agricultor trabalhar com uma cobertura melhor e até 50% menos água.

Esses são apenas alguns poucos exemplos dos problemas que o investimento na qualificação dos profissionais envolvidos com a aplicação de agrotóxicos poderia resolver. No entanto, essa não é uma tarefa muito fácil e depende de uma conjugação de esforços.

Não há uma estimativa do número de trabalhadores na aplicação de agrotóxico, mas, como forma de se dimensionar o problema, pode-se pensar da seguinte forma: somos cerca de 200 milhões de brasileiros; se 10% disso trabalharem na agricultura, são 20 milhões de trabalhadores; desses, se 10% trabalharem na aplicação de agrotóxicos, são 2 milhões de pessoas a serem treinadas. Hoje, somando- se todos os sistemas de treinamento da iniciativa pública ou privada, consegue-se atingir 100 mil pessoas por ano, o que permite concluir que seriam necessários 20 anos para treinar apenas os trabalhadores que já estão no campo.

Entenda-se que treinamento refere-se a intervenções sistematicamente planejadas para promover melhorias de desempenho em tarefas atuais. Uma das maneiras de diferenciar treinamento das demais formas de transferência de conhecimento é pelo critério da intencionalidade em produzir melhorias do desempenho e do controle exercido pela organização sobre o processo de treinamento. Portanto, treinamento é entendido como desenvolvimento sistemático de padrões comportamentais de conhecimentos, habilidades e atitudes, necessários ao desempenho adequado de uma tarefa ou trabalho. Não existe treinamento eficaz sem mudança de comportamento.

Dessa forma, em maio, durante a Agrishow, em Ribeirão Preto/SP, o CEA/ IAC lançou o projeto para estruturação da Unidade de Referência em Tecnologia e Segurança na Aplicação de Agrotóxicos, por meio da assinatura do primeiro protocolo de parceria com a Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), cuja finalidade básica será desenvolver treinamentos a agentes multiplicadores (extensionistas, técnicos de revenda, professores técnicos e universitários, etc.), encarregados de difundir os conhecimentos no campo, bem como de lançar as bases para um possível sistema nacional de certificação de aplicadores. Apenas através de esforços conjuntos e integrados, soluções viáveis poderão ser disponibilizadas.