Soja

 

RESPONSABILIDADE sempre em alta

A 11ª Conferência Anual da Associação Internacional de Soja Responsável (RTRS), no mês passado, em Brasília, reuniu 120 participantes de nove países para debater o futuro da soja gerada sob compromissos ambientais e sociais

Leandro Mariani Mittmann*
leandro@agranja.com

Na última safra, os produtores brasileiros foram responsáveis por 60% da soja certificada pela Associação Internacional de Soja Responsável (RTRS, sigla do inglês), ou 1,4 milhão de toneladas, volume gerado em 432,2 mil hectares de 73 fazendas certificadas – sendo que outras estão em processo de credenciamento.

No mundo, são 700 mil hectares e 2,3 milhões de toneladas. E para debater os rumos dessa soja produzida a partir de uma centena de indicadores sociais e ambientais, Brasília sediou no mês passado a 11ª Conferência Anual da RTRS, evento que reuniu 120 participantes de mais oito países além do Brasil. Produtores, representantes de indústrias, governos Fotos: Paulo Negreiros e sociedade civil (como ONGs ambientalistas) e traders analisaram o momento e debateram o futuro da produção e comercialização dessa soja sustentável.

A RTRS nasceu há dez anos (veja quadro) e teve sua primeira safra certificada cinco anos depois, de duas fazendas brasileiras. Hoje o crescimento anual do volume certificado é de 40%, segundo Olaf Brugman, presidente da RTRS. A previsão é chegar a 3,2 milhões de toneladas neste ano, e a meta é seguir crescendo 20% ao ano. Segundo ele, todas as melhorias e ajustes no programa são discutidos por todos os elos da RTRS.

“O diálogo é voltado para o futuro. Onde melhorar, ser mais eficiente, mais efetivo ao longo prazo”, revelou. “O produtor (da soja certificada) sabe que está cumprindo a legislação, não é multado pela lei, não será embargado”, lembrou Brugman os benefícios recebidos ao gerar a soja certificada. “Eles indicam para o mercado que estão fazendo a coisa séria”.

Juliana Lopes, integrante da RTRS e diretora de sustentabilidade da empresa AMaggi, destacou que já no segundo ano após aderir ao processo de certificação o produtor já observa melhorias significativas na gestão da propriedade, como redução do consumo de combustível, por exemplo. Segundo ela, o processo de certificação orienta o agricultor a entregar o que o mercado deseja. “O produtor precisa de apoio e informação”, explicou.

O vice-presidente da RTRS, Jean-François Timmers, e também líder global da ONG ambientalista WWF para a soja, destacou que ainda existe muito espaço para o crescimento da soja sustentável no Brasil, e que a certificação é transparente até para a oleaginosa produzida em áreas outrora desmatadas. “O que aprendemos em dez anos é que produção e conservação não são antagonistas”, acrescentou. Os dirigentes da RTRS lembraram também que as melhorias promovidas pelos produtores estendese também para a comunidade onde estão inseridos, e ainda que a certificação pode ter a adesão de diferentes perfis de tamanhos de produtores.

Olaf Brugman, presidente da RTRS: “Os produtores indicam para o mercado que estão fazendo a coisa séria”


O QUE É A RTRS

Fundada em 2006, a Associação Internacional de Soja Responsável (RTRS) é uma iniciativa internacional formada pelos principais representantes da cadeia de valor da soja, como produtores, indústria, comércio, finanças e sociedade civil. Os atores dessas diferentes áreas reúnem- se em torno de um objetivo comum, garantindo o diálogo e a tomada de decisão por consenso.

A missão da entidade é promover o uso e o crescimento da produção sustentável de soja e, por meio do Padrão RTRS de Produção Responsável da Soja, aplicável mundialmente, garantir uma produção ambientalmente correta, socialmente adequada e economicamente viável. Atualmente a RTRS conta com mais de 180 membros dos países do mundo inteiro. Mais informações em www.responsiblesoy.org.

Fonte: RTRS


Exemplo mato-grossense — A AMaggi foi a primeira empresa no mundo a comercializar um lote de soja produzida de acordo com os princípios RTRS. Foi em 2011, quando um lote de 85 mil toneladas foi adquirido pela Associação Holandesa da Indústria da Alimentação. Já no ano passado, a empresa sediada no Mato Grosso respondeu por aproximadamente 30% do volume total de soja comercializada no mundo com a certificação RTRS.

Foram 700 mil toneladas de soja certificada, provenientes de duas fazendas próprias e também de outros 37 produtores. Esses fornecedores foram certificados pela própria AMaggi, que faz um trabalho junto a esses fornecedores, para que eles atendam os cinco princípios da RTRS: conformidade legal e boas práticas, condições justas e responsáveis de trabalho, relação responsável com a comunidade, responsabilidade ambiental e boas práticas agrícolas.

Roberto Rodrigues: “Onde há fome não há paz”, lembrou sobre a necessidade do mundo produzir mais alimentos

O evento teve como um dos palestrantes o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, coordenador de Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas, que falou sobre a importância da geração de alimentos para preservação da paz. “Onde há fome não há paz”, lembrou, e mencionou o que classificou de “migrações malucas” na Europa como consequência da falta de comida no Norte da África.

Rodrigues citou um dado de 2011 da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que apontou a necessidade de o planeta expandir em 20% sua produção de alimentos para atender a demanda da população global de 2020. E que para isso, visto restrições de expansão de área e/ ou produtividade em outros países, caberia ao Brasil aumentar a sua produção agrícola em 40%.

E ele não considerou tal incremento inviável, já que, citou, de 1990 a 2016 o País aumentou sua área agrícola em apenas 53%, mas a produção cresceu 261%, fruto do desenvolvimento e da aplicação de tecnologias. “Em outras palavras, foram preservados 78 milhões de hectares”, mensurou Rodrigues a área que precisaria ter sido acrescentada para atingir a mesma produção com a produtividade de 1990.

* O jornalista esteve em Brasília a convite da Associação Internacional de Soja Responsável (RTRS)