Defesa Vegetal

 

Controle BIOLÓGICO em ascensão

O interesse de empresas no setor e as demandas do mercado sustentam a projeção de incremento para a utilização de biodefensivos nas lavouras brasileiras

Denise Saueressig
denise@agranja.com

O mercado de produtos biológicos voltados à proteção vegetal cresceu de maneira consistente no País nos últimos dez anos. O maior incremento ocorreu a partir de 2013, quando a agricultura brasileira levou um susto com o ataque fulminante da lagarta Helicoverpa armigera em lavouras de diferentes culturas. “Foi uma situação que abriu os olhos de muita gente para as fragilidades das soluções químicas. Era preciso equilibrar o manejo da praga”, relata o engenheiro agrônomo Pedro Faria Jr., presidente da Associação Brasileira das Empresas de Controle Biológico (ABCBio), entidade criada em 2007 e que tem 23 associadas.

Apesar do avanço recente do segmento, os biodefensivos ainda representam uma parcela muito pequena do mercado quando comparados aos convencionais. Em 2014, por exemplo, enquanto esse setor movimentou em torno de US$ 12 bilhões no Brasil, conforme o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), os biológicos chegaram perto de R$ 200 milhões. A comparação entre o número de registros também mostra essa disparidade. No ano passado, de acordo com dados do Ministério da Agricultura, enquanto foram registrados 65 defensivos químicos, o número de biológicos ficou em 29. Mas a diferença já foi bem maior. Em 2009, a relação foi de um biodefensivo para 101 químicos. “O recado que fica é que há muito espaço para crescer em um cenário de oportunidades altamente atrativas. Não é à toa que as gigantes multinacionais também estão entrando no negócio”, avalia Faria Jr.

Segundo o dirigente, o segmento vem registrando ampliação por volta de 15% ao ano nos últimos cinco anos no País. Em 2015, devido à conjuntura econômica, todo o mercado sofreu com impactos negativos, mas a projeção para 2016 é de recuperação. “A tendência é que tenhamos, cada vez mais, empresas interessadas em desenvolver novos produtos, assim como novas formas de posicionar tecnologias que já existem no mercado”, afirma o agrônomo.

Soluções complementares — Além do investimento das empresas que atuam especificamente na área, o aporte de grandes companhias químicas, os estudos liderados por instituições de pesquisa como a Embrapa e a demanda crescente por alimentos livres de resíduos devem ajudar a sustentar a expansão. No entanto, alguns aspectos do mercado precisam ser trabalhados para que esse tipo de solução seja largamente disseminada entre os produtores. “Ainda existe carência de informação. Os fabricantes de químicos investem fortunas em divulgação, o que é uma realidade embrionária no âmbito dos biológicos. Muitos produtores desconhecem e até duvidam da eficácia das tecnologias e, por isso, é um público que precisa ser treinado e esclarecido”, analisa o presidente da ABCBio. “Precisamos destacar, por exemplo, que o controle biológico é a única forma de manejar a resistência a defensivos que tanto provoca perdas nas lavouras”, acrescenta.

Ao mesmo tempo, é necessário planejar um controle integrado, em que as duas soluções – química e biológica – são complementares. “Para isso, é importante conhecer a biologia da planta e a formulação dos produtos, já que não são todas as moléculas químicas que se prestam a esse tipo de manejo”, pondera Faria Jr.

Pedro Faria Jr., presidente da ABCBio: produtor pode considerar um controle integrado, em que as soluções química e biológica são complementares

Alerta para as fraudes — Além de trabalhar pela difusão do conhecimento junto aos produtores, as empresas de biodefensivos enfrentam desafios importantes para sustentar o crescimento. Um deles refere-se à legislação, que ainda não atende especificamente o setor.

“Existem apenas instruções normativas que integram a lei de defensivos, ou seja, são regulamentações gerais”, assinala o presidente da ABCBio.

Outra questão é o comércio irregular de produtos não registrados ou registrados como se fossem fertilizantes. “São casos em que identificamos fraude. O produtor precisa saber que corre riscos com essas substâncias sem garantia”, alerta Faria Jr.. Mais do que não apresentar os resultados agronômicos esperados na lavoura, o uso de produtos irregulares pode provocar contaminação biológica, proliferação de patógenos humanos e descontrole de pragas. Uma das modalidades ilegais mais perigosas são os kits para a reprodução caseira de fungos e bactérias.

A ABCBio vem trabalhando em um Programa de Conformidade de Insumos Biológicos, em que atua em parceria com os órgão reguladores, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), nas análises de produtos com alguma suspeita. A associação também estabeleceu um código de conduta ética para determinar o seguimento de normas entre as empresas do segmento.

O uso mais expressivo de biodefensivos no Brasil é observado na cana-deaçúcar, cultura que há mais tempo utiliza esses produtos, principalmente no combate à cigarrinha. As lavouras de soja, milho e algodão também representam mercados importantes, além dos hortigranjeiros, frutas e plantas ornamentais. As lagartas são os principais problemas fitossanitários combatidos pelos biológicos, que também ajudam a controlar ácaros e doenças. As soluções de biocontrole estão divididas em microbiológicos (fungos, bactérias e vírus) e macrobiológicos (ácaros predadores, insetos predadores e insetos parasitoides).