Biodiversidade

 

Em defesa dos POLINIZADORES

A Associação Brasileira de Estudos das Abelhas trabalha na difusão de informações científicas para conscientizar sobre a importância desses insetos para a agricultura

Com pouco mais de um ano de atuação, a Associação Brasileira de Estudos das Abelhas (A.B.E.L.H.A.) tem a proposta de superar a carência de informações a respeito da importância dos insetos polinizadores para a produção agrícola. O objetivo vem sendo colocado em prática por meio de interação e comunicação com diferentes públicos, como pesquisadores, produtores rurais e estudantes.

“Percebemos que a informação estava muito restrita entre produtores e meio acadêmico. Sabemos que não é fácil conversar com todas as pontas, mas estamos trabalhando para expandirmos essa rede educativa em torno do assunto”, relata o secretário- executivo da A.B.E.L.H.A., Antonio Celso Villari.

Pautada pela multidisciplinaridade, a A.B.E.L.H.A. é formada pela Associação Brasileira do A g r o n e g ó c i o (Abag), Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja/MT), Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), União da Indústria de Canade- Açúcar (Unica) e pelas empresas Syngenta, Bayer e Basf.

Ana Lucia Assad: preservação das abelhas passa por atitudes como boas práticas agrícolas, recuperação de áreas degradadas e correta aplicação de defensivos

A difusão do conhecimento sobre a polinização vem ocorrendo principalmente por meio de publicações específicas e com a ajuda da Internet, que é usada ainda para estimular a curiosidade e o interesse sobre o tema. Uma parceria com a Embrapa também está sendo formatada para ampliar o alcance dessa divulgação. A diretora executiva da associação, Ana Lucia Assad, explica que um comitê científico foi montado com sete pesquisadores da própria Embrapa e de universidades de diferentes regiões do País para reforçar o trabalho. “Uma das nossas intenções é mostrar que é possível uma convivência harmônica e sustentável entre apicultores e agricultores”, cita.

Hoje, segundo Ana Lucia, existem bons e maus exemplos no agronegócio brasileiro. “Queremos comprovar que as soluções para os problemas vêm de boas práticas agrícolas, da recuperação de áreas degradadas, do plantio de plantas que atraiam as abelhas, da correta aplicação de defensivos, entre outras medidas que podem ser adotadas nas propriedades rurais”, acrescenta.

A A.B.E.L.H.A. também desenvolve um projeto de georreferenciamento em algumas regiões do estado de São Paulo para mapear e identificar a localização de colmeias e, assim, melhorar a gestão das questões associadas à criação.

Impacto econômico — Levantamentos realizados pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) revelam que a maior parte dos brasileiros não tem conhecimento sobre a importância da polinização na agricultura e na produção mundial de alimentos. No entanto, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), em torno de 70% das culturas agrícolas dependem dos polinizadores. “É preciso considerar o impacto econômico sobre os cultivos, em um contexto em que existem as plantas 100% dependentes do processo e outras cujos reflexos aparecem na produtividade”, destaca Ana Lucia.

A bióloga Tereza Cristina Giannini, pesquisadora do Instituto Tecnológico Vale Desenvolvimento Sustentável (ITVDS), relata que foram identificados os polinizadores de 75 culturas agrícolas brasileiras. O total soma 250 espécies, sendo que 87% são abelhas. A pesquisadora lembra que duas espécies merecem destaque: a Apis mellifera, chamada de abelha do mel ou africanizada, citada como polinizadora de 28 culturas, e a Trigona spinipes (irapuá), apontada para dez culturas. Ambas têm ampla distribuição geográfica e estão presentes em todas as regiões do País.

Há indícios de que mais de 90% das plantas com flores dependem de polinizadores animais. Estudos conduzidos desde a década de 1990 por cientistas de diversos países dividem a dependência das culturas agrícolas por polinização em quatro classes: essencial, grande, modesta e pequena. Quando é estimado o alcance econômico do processo, a taxa de dependência é multiplicada pelo valor da produção anual de cada cultivo.

Tereza descreve que em uma avaliação realizada em 2013 foi possível estabelecer o valor da polinização para 44 plantas, e o montante chegou a US$ 12 bilhões. Praticamente a metade desse número foi creditada à soja, que é classificada por ter uma dependência modesta (entre 10% e 40%) por polinizadores, mas um valor alto de produção. Outras culturas de destaque são o café, algodão, laranja, cacau e tomate. Entre aquelas que são citadas com dependência essencial (entre 90% e 100%) estão abóbora, acerola, cajazeira, castanha-do-pará, cupuaçu, maracujá, melancia e melão. Em alguns casos, a polinização não aumenta a produtividade, mas pode colaborar para ampliar a produção de sementes, como na cebola e na cenoura.


A POLINIZAÇÃO

A polinização é um processo de transferência de grãos de pólen de uma flor para outra. Os polinizadores, ao visitarem as flores para se alimentar de pólen ou néctar, acabam ficando com os grãos de pólen aderidos em seus corpos. Ao se deslocarem entre as flores, eles levam os grãos de uma flor para a outra. O grão de pólen, ao ser depositado na flor, funde-se ao óvulo, o que dará origem às sementes e aos frutos. Assim, muitas plantas dependem de animais para a produção de frutos e sementes, o que tem relação direta com a agricultura.

Fonte: pesquisadora Tereza Cristina Giannini