Mecanização

 

PREPARO DO SOLO nos diferentes sistemas de cultivo

O melhor preparo da lavoura é aquele que proporciona as melhores condições para germinação, emergência e desenvolvimento do sistema radicular, com o mínimo de operações mecanizadas e sempre conservando o solo

Marcelo Silveira de Farias, Gilvan Moisés Bertollo, Gustavo Oliveira dos Santos, Giácomo Müller Negri, do Núcleo de Ensaios de Máquinas Agrícolas (Nema), da Universidade Federal de Santa Maria/RS

Encarregado de fornecer nutrientes minerais às plantas, fazendo com que produtividades recordes de grãos, fibras, cereais e hortifrutigranjeiros sejam alcançadas a cada nova safra agrícola, o solo, considerado meio de crescimento das plantas, deve ser manejado de forma racional. Através desse manejo, pode-se aumentar sua capacidade produtiva, isto é, o equilíbrio entre com- Gustavo Oliveira dos Santos postos minerais, matéria orgânica, organismos vivos, água e ar.

No modelo empresarial, adotado por parte da agricultura brasileira, o manejo do solo consiste em um conjunto de operações agrícolas mecanizadas, realizadas com o objetivo de desenvolver uma estrutura ótima para a semeadura, facilitando rápida infiltração e boa retenção de água, provendo adequada aeração, armazenamento de calor e minimizando a resistência mecânica ao crescimento radicular.

A primeira operação a ser realizada é o preparo do solo, que compreende um conjunto de práticas que, quando executadas de forma racional, pode permitir alta produtividade das culturas com baixos custos de produção. Mas pode também, quando feita de maneira incorreta, levar rapidamente o solo à degradação física, adequaquímica e biológica e, ao longo dos anos, diminuir o seu potencial produtivo.

O preparo do solo pode ser dividido em primário e secundário. O preparo primário consiste em operações que visam principalmente à eliminação e/ou à incorporação da vegetação e dos restos culturais. Já o preparo secundário define-se como o conjunto das operações superficiais subsequentes ao preparo primário, que visa ao seu destorroamento e ao nivelamento, à incorporação de fertilizantes e corretivos e à eliminação de plantas daninhas no início de seu desenvolvimento, objetivando promover adequado contato semente-solo. Devido aos riscos de compactação do solo, essas operações devem ser limitadas ao mínimo possível de passadas dos implementos e realizadas próximo da época de semeadura/plantio.

Para algumas culturas agrícolas, tais como arroz irrigado, cana-de-açúcar, batata, hortaliças, dentre outras, a utilização dessa técnica de manejo do solo, conhecida como sistema convencional, é justificada. Tendo em vista que, dentre as atividades agrícolas mecanizadas, as operações de preparo do solo são as que possuem maior parcela no custo total de produção, em qualquer atividade produtiva, o planejamento é fator importante para reduzir erros e riscos e aumentar as chances de sucesso.

Adequação da área às culturas agrícolas — O Brasil pode ser considerado referência na produção de cana-de-açúcar. Essa cultura é a responsável pelo abastecimento de grandes usinas produtoras de açúcar e etanol, de agroindústrias familiares produtoras de aguardente de cana e é ainda utilizada na geração de bioenergia. Para que essa cultura apresente índices produtivos satisfatórios, a adequação da área e o preparo do solo, nos anos de renovação dos canaviais, é um fator extremamente importante. Para proporcionar o melhor desenvolvimento da cultura, faz-se necessário que a resistência mecânica do solo à penetração das raízes não seja um fator limitante à elongação radicular, o que justifica a realização do preparo profundo do solo.

No caso da cultura da batata, o revolvimento do solo torna-se essencial, pelo fato de essa cultura apresentar frágil sistema radicular. O solo em que se pretende implantar a cultura deve estar livre de tocos, pedras, raízes e o mais adequado possível para o desenvolvimento dos tubérculos. As práticas de preparo do solo variam em função das diversas regiões produtoras, mas basicamente dependendo de como se encontra o solo em que a cultura será implantada, são recomendadas, em média, duas arações seguidas de duas gradagens.

A adequação da área para a implantação de uma cultura agrícola varia em função do manejo adotado pelo agricultor, da região produtora e do tipo de solo, clima e topografia. Na cultura do arroz irrigado, por exemplo, o preparo do solo é feito de acordo com o sistema de cultivo adotado, sendo que pode iniciar logo após a colheita ou poucos dias antes da operação de semeadura. Tanto no sistema de cultivo mínimo, como no sistema de plantio direto, recomenda-se que o preparo do solo seja realizado com certa antecedência, a fim de obter maior controle das plantas daninhas e melhores condições para a implantação da cultura.

Implementos para preparo do solo — Os implementos de preparo do solo são classificados em dois grandes grupos distintos: os de preparo pesado ou primário do solo, e os de preparo leve ou secundário. Os implementos de preparo primário, tais como arados de discos e de aivecas e grades aradoras de arrasto, revolvem o perfil de solo de modo a deixálo desnudo, ou seja, invertem uma camada de solo (leiva) para cima. Tais implementos possuem uma profundidade de trabalho que varia de 20 a 40 centímetros, podendo em alguns casos formar os chamados “pé-de-arado” e “pé-de-grade”.

Os implementos de preparo secundário do solo são aqueles que exercem um trabalho mais superficial, ou seja, não o revolvem completamente, mas criam uma camada de solo mais fina na qual é feita a semeadura ou transplante das culturas. Exemplos de tais implementos são as grades niveladoras, escarificadores e cultivadores, que possuem uma profundidade de trabalho de até 20 centímetros.

Os implementos de preparo primário exigem maior demanda de tração do trator quando comparados aos de preparo secundário, devido ao esforço necessário para que esses implementos rompam as barreiras físicas presentes no solo. Por isso, em alguns casos, é necessário ajustar a lastragem do trator, a fim de adequálo às mais diversas condições de trabalho. Esse ajuste diz respeito à adição de pesos metálicos no trator, contrapesos fixados no para-choque ou nos rodados, e/ ou adição de água no interior dos pneus, sempre respeitando a distribuição de peso entre os eixos dianteiro e traseiro e os limites estabelecidos pelos fabricantes.

Condições ideais para o preparo — Normalmente, as operações de preparo do solo dispõem de um período maior para realização, quando comparadas às demais atividades agrícolas, as quais são executadas em períodos específicos, como é o caso das pulverizações (presença de plantas daninhas, pragas e doenças), semeadura (período de implantação da cultura, “janela de semeadura”) e colheita (ponto de maturação). Assim, as operações de preparo do solo podem ser realizadas nos períodos mais adequados, tanto em função da disponibilidade de conjuntos mecanizados na propriedade quanto nas melhores condições de umidade do solo.

Devido ao aumento das operações mecanizadas ocasionado pelo uso intensivo do solo com o objetivo de mantê-lo com culturas o maior período possível, sua compactação é uma consequência, principalmente quando não se tem uma estratégia de rotação de culturas adequada ou critérios para se trafegar com as máquinas. A compactação do solo é prejudicial ao desenvolvimento radicular das plantas, e também diminui a porosidade do mesmo, a qual é responsável pela infiltração de água, acarretando em erosões, principalmente quando ocorrem precipitações de chuvas mais intensas.

Além da necessidade do preparo do solo para implantação de algumas culturas agrícolas como no caso do arroz irrigado, batata e cana-de-açúcar, também se tem observado algumas estratégias de preparo localizado do solo. O objetivo é eliminar a compactação provocada pelo tráfego de máquinas agrícolas na área e facilitar a infiltração de água em locais com certa declividade.

A textura é o primeiro fator que deve ser observado ao preparar o solo com máquinas agrícolas, a fim de conhecer o teor de umidade adequado para a realização dessa operação. Solos argilosos possuem maior quantidade de microporos, armazenando maior quantidade de água devido à energia com que ela está aderida na estrutura do solo. Isso faz com que o intervalo de tempo entre uma precipitação e a entrada de máquina na área seja maior quando comparado a solos arenosos, os quais drenam a água mais facilmente por possuir quantidade superior de macroporos.

O ponto ideal para a realização do preparo do solo é aquele em que o trator opera com o mínimo esforço possível. Em uma situação de solo com elevado teor de umidade, o mesmo poderá ficar retido nos órgãos ativos dos implementos (discos e hastes), demandar maior potência do trator, aumentar o patinamento das rodas motrizes, compactar o solo e, em alguns casos, comprometer a operação. Por outro lado, se o solo estiver muito seco, será necessário realizar sucessivas operações de gradagens para eliminar os torrões e nivelar a área, provocando aumento dos custos de produção, especialmente os custos com combustível e manutenção.

Uma forma prática para a verificação da umidade do solo em campo é o método do tato, desenvolvido pela Embrapa Mandioca e Fruticultura, de Cruz das Almas/ BA. Essa técnica consiste em coletar pequenas amostras de solo na profundidade desejada e utilizar as mãos para observar as características do solo comparando com as “características padrões”, apresentadas na tabela a seguir. Com base nos resultados e conhecendo a textura do solo, é possível determinar o nível de umidade e decidir o melhor momento para realizar o preparo do solo.

Analisar cada sistema — Em busca de uma conclusão sobre a temática discutida, recomenda-se analisar cada tipo de sistema de manejo do solo e buscar em cada um deles um meio de melhorar a eficiência das operações mecanizadas de preparo do solo. O conhecimento das propriedades físicas do solo, tais como umidade, textura, consistência, agregação, densidade, porosidade e resistência à penetração podem auxiliar na adoção do melhor manejo.

Bem como contribuir para o entendimento do comportamento do solo e das plantas, visto que possuem diferentes características em função do manejo adotado. O melhor preparo do solo é aquele que proporciona as melhores condições para germinação, emergência e desenvolvimento do sistema radicular das culturas, com o mínimo de operações agrícolas mecanizadas e sempre conservando o solo.