Gestão

 

BARTER como apoio ao financiamento da safra

A operação permite que o produtor financie sua lavoura junto ao fornecedor de insumos, que entrega seus produtos em troca de grãos como pagamento após a colheita. Mas quando tal relação é vantajosa ao produtor?

Justino Mendes de Aquino, gestor da Unidade Técnica da Famasul

Com um volume de recursos de R$ 202,8 bilhões previsto no Plano Agrícola e Pecuário 2016/17 para o novo ciclo agrícola, o que representa aumento de 8% nos volumes de recursos em relação à safra anterior, para o produtor escolher as linhas de financiamento para o plantio de suas lavouras. E caso esse volume ainda não seja suficiente, ele tem a operação denominada de barter, conhecida pelos produtores como troca envolvendo produtor, fornecedor de insumos e trading ou indústria.

O comportamento registrado este ano em Mato Grosso do Sul foi que as contratações de custeio agrícola, de janeiro a abril, aumentaram 172,6% (dados do Banco Central), quando comparando com o mesmo período da safra anterior. O aumento nas contratações confirma a divulgação feita pelo agente financeiro de crédito rural oficial, que disponibilizou R$ 665 milhões até junho para custeio antecipado no estado, o chamado “pré-custeio”, com taxa de juros controlados, recursos para que o produtor compre os insumos da próxima safra.

O produtor deve tomar cuidado com os juros traiçoeiros existente no mercado. Para os financiamentos rurais, as taxas de juros variam conforme as fontes de recursos. São encontradas as melhores taxas quando essa fonte são os chamados “recursos controlados”. Para o custeio na safra 2016/2017 variam de 8,5% a 9,5% ao ano, respectivamente, para médios (pelo Pronamp) e para grandes produtores. Se ainda faltarem recursos para o plantio, o produtor pode acessar outras fontes de recursos, os denominados “recursos livres”. Nessa linha de financiamento, as taxas de juros (taxa de mercado) são mais altas e podem elevar o nível de comprometimento da receita do produtor, podendo comprometer grande parte da sua produção ou, em alguns casos, inviabilizar sua atividade.

Vendas antecipadas da soja — Outra linha de crédito disponível para o produtor é a operação de barter. Essa é uma modalidade de crédito que inicia pelo agente da “originação da operação”, que é o operador da troca que fornece o insumo e recebe uma Cédula de Produto Rural (CPR) Física, referente à parte da produção (grãos) que foi comprometida para entrega após a colheita. O prazo dessa operação varia de acordo com a época de formalização e plantio da lavoura. Em média, pode ser de até um ano. Após a entrega do produto físico, ocorre na liquidação financeira da operação, quando é feita entre a fornecedora e a trading/indústria interessada nesse produto, principalmente na exploração agrícola de soja e de milho, em que esse mecanismo tornou simples e de fácil acompanhamento pelo produtor rural, que já tem o conhecimento da sua moeda de troca, a saca de grão.

Os principais insumos agrícolas negociados destinados ao plantio das lavouras são calcário, fertilizantes, sementes e fitossanitários. Em algumas regiões produtoras onde há uma demanda maior por recursos de investimento, as negociações podem envolver máquinas e implementos agrícolas. Nessas regiões com grande carência de recursos para investimentos, pela falta de linhas de financiamentos específicas, o produtor recorre a essa modalidade, seja para garantir recursos financeiros para compra de insumos de custeio, seja para investimentos da sua atividade.

Relação de troca — O produtor deve sempre acompanhar o mercado para verificar a relação de troca mais viável e aquela que melhor se enquadra dentro dos seus custos de produção. Um pacote de insumos pode ter uma relação de troca entre 18 e 20 sacas de soja, em uma determinada época do ano. Já em outra, a relação pode estar entre 20 e 28 sacas para o mesmo pacote. É bom lembrar que a decisão é do produtor em fechar sua negociação com o operador de barter.

Aquino: “Para o plantio das lavouras, é importante que o produtor faça o equilíbrio do custo do dinheiro, dividindo entre as fontes de recursos disponibilizadas nos agentes financeiros de crédito ou empresas que operam com o barter”

Outro exemplo de uma relação de troca favorável foi quando recentemente o preço da soja atingiu um alto valor em reais. Esse momento foi uma boa opção para o sojicultor fechar negócios e fazer as vendas antecipadas de parte de sua safra. Nesse cenário favorável, houve a combinação de outros fatores, como o preço dos fertilizantes, que caiu cerca de 25% em comparação ao registrado no ano passado.

O produtor realiza essa operação quando a relação de troca está favorável, por isso, a importância de um bom relacionamento comercial do produtor com as empresas de insumos e trading, para a complementação dos recursos que faltam para o plantio das lavouras e também quando o produtor necessitar de capital de giro para a gestão de sua propriedade.

Planejamento e gestão — Para o plantio das lavouras, é importante que o produtor faça o equilíbrio do custo do dinheiro, dividindo entre as fontes de recursos disponibilizadas nos agentes financeiros de crédito rural ou empresas que operam com o barter. Essa distribuição pode girar em torno de 65% até 80% de créditos oficiais (juros controlados + juros livres), de 20 a 30% de barter (sacas por pacote de insumos) e de 10% a 20% de recursos próprios do produtor. Ele deve sempre fazer o planejamento e a gestão dos custos de produção das suas lavouras antes de realizar o plantio. Caso tenha disponibilidade ou necessidade, pode também recorre ao barter como modalidade de crédito complementar ou para financiar parte de suas lavouras.

A grande maioria dos produtores conhece e faz a operação de barter como complemento de recursos para a sua lavoura, dependendo da tendência do mercado e o preço das commodities. Em média, o percentual de produtores que adotam esse tipo de operação gira em torno de 25% a 30% da safra. Lembro que a moeda de troca do produtor é seu produto (grãos) e isso pode alavancar as operações de barter na agricultura brasileira, caso o produtor não consiga acessar os financiamentos oficiais. Na minha avaliação, essa tendência é manterse estável, nos mesmos índices anteriormente mencionados.