Armazenagem

 

SILO-BOLSA: a utilização correta

Como é emergencial, sem os recursos tecnológicos de uma estrutura de metal, é preciso ter muitos cuidados com o sistema, como fazer uma eficiente pré-limpeza e promover a secagem e a limpeza até valores mais baixos do que no caso de silos

Prof. Dr. Moacir Cardoso Elias, Prof. Dr. Nathan Levien Vanier e Prof. Dr. Maurício de Oliveira, Laboratório de Pós-Colheita, Industrialização e Qualidade de Grãos, da Faculdade de Agronomia “Eliseu Maciel”, da Universidade Federal de Pelotas, eliasmc@uol.com.br

As crescentes produções de grãos constituem a base para o desempenho positivo experimentado pelo agronegócio brasileiro, mesmo com todo o panorama de índices predominantemente negativos da economia nacional nos últimos tempos. Lástima que no País os avanços experimentados na produção não encontram paralelo no que ocorre na pós-colheita, uma vez que todos os indicadores apontam para um descompasso entre esses dois importantes elos das cadeias produtivas.

Para atendimento do abastecimento do mercado interno, além do poder aquisitivo dos consumidores, é necessária a sustentação de quatro pilares: produção e logísticas de armazenagem e transportes e distribuição dos alimentos, havendo necessidade de que estejam em equilíbrio. Para exportação, o tripé é dos três primeiros, em equilíbrio.

Um dos maiores desafios nacionais da atualidade é a produção de alimentos para populações sempre crescentes e mais concentradas nas áreas urbanas, distantes geográfica e culturalmente das atividades do meio rural. Deve haver grande eficiência para atender demandas cada vez maiores. O desafio mostra-se ainda maior quando são incluídas as exigências de qualidade, que necessita ser preservada nas etapas de pós-colheita. A tarefa não se esgota dentro das fronteiras, ganhando importância crescente o mercado externo, onde o agronegócio se destaca na geração de divisas para o País pelas exportações. Nesse contexto, a armazenagem aparece como o grande gargalo a ser superado.

Quase ao final do último século, preocupações com dificuldades crescentes no contexto da armazenagem fizeram surgir um grande esforço de setores vinculados à pós-colheita para disciplinar o sistema. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) tomou importantes decisões na área de armazenamento de grãos, cujos conceitos e aspectos operacionais culminaram nos termos da Lei nº 9.973/ 2000, regulamentada pelo Decreto nº 3.855/2001, normatizada pela IN 33/2007, que trata do Sistema Nacional de Certificação de Unidades Armazenadoras, e consolidada pela IN 29/ 2011, acrescida da IN 24/2013, que define os prazos de implantação de 31 de janeiro de 2014 até 31 de dezembro 2018 para certificação escalonada de todas as unidades armazenadoras enquadráveis na legislação.

O arcabouço jurídico-normativo disciplina aspectos tecnológicos, ambientais, de segurança e saúde, estabelecendo procedimentos para modernização das atividades de guarda e conservação de produtos agropecuários, atendendo anseios reivindicados pelos segmentos que se relacionam com a armazenagem. O estabelecimento de regras para construção, instalação e funcionamento de estruturas de armazenamento, juntamente com a criação de normas para licenciamento de tais estruturas ou mesmo a idealização de um sistema de certificação são procedimentos que podem contribuir para a modernização do setor de armazenamento no País.

A complementação indispensável aparece na exigência da participação de pessoal especializado da área técnica, na implantação de novos padrões de instalações, equipamentos e processos, qualificação de pessoal e aumento do profissionalismo para reduções de perdas que ocorrem durante o armazenamento, para operação de forma racional, com os preceitos científicos e tecnológicos.

Sistema emergencial — Se, por um lado, há normatização e implantação de armazenamento cada vez mais tecnificado, por outro lado o déficit é cada vez maior. Nessas circunstâncias, sistemas emergenciais ou complementares de armazenamento, como o que é feito em silo-bolsa, são cada vez mais utilizados por produtores, cerealistas e industriais. Não é um sistema certificável por não se enquadrar nos termos da legislação brasileira, por ser emergencial, sem recursos tecnológicos corretivos, mas é bastante útil em circunstâncias específicas.

O sistema caracteriza-se pela hermeticidade, com alteração gradativa da aerobiose para a anaerobiose, o que interfere nos metabolismos de todo o ecossistema que se forma dentro de cada silo-bolsa. Esse fato engloba consequências positivas e situações que exigem grandes cuidados, uma vez que a respiração é a propriedade mais característica dos grãos armazenados, pois eles não interrompem as atividades metabólicas quando separados da planta-mãe, ou seja, mesmo depois de colhidos continuam respirando.

Diferentemente do que ocorre na aerobiose, em condições anaeróbias o aceptor final de oxigênio não é o hidrogênio, resultando da respiração gás carbônico e o calor, juntamente com uma molécula orgânica, ao invés de água como em aerobiose. A respiração, em ambas as formas, é um processo fortemente relacionado com a deterioração, pois enquanto vivos os grãos respiram e consomem reservas como carboidratos, lipídeos ou proteínas. Em consequência, há liberação de energia na forma de calor, com maior liberação de CO2 e menor absorção de O2, em uma desorganização do processo respiratório. Nos silos e nos armazéns, o calor liberado pode ser removido pela ação do ar ou compensado pelo resfriamento artificial, mas no silo-bolsa essa possibilidade corretiva não existe.

Quanto mais a temperatura e/ou a umidade se elevam, e quanto mais impurezas acompanharem os grãos, mais eles se deterioram. Grãos amiláceos (milho, trigo, aveia, cevada) ou proteicos (feijão, lentilha) armazenados com umidade entre 11% e 13% têm discreta respiração, mas se a umidade aumentar a respiração, acelera-se e a deterioração intensificam-se. Em grãos oleaginosos (soja, canola), a umidade exerce papel ainda mais limitante. No arroz, os cuidados devem ser ainda maiores, pelas características intrínsecas dos grãos e pelas consequências que os defeitos metabólicos têm na tipificação e no valor comercial desses grãos. Não basta ter poucos quebrados; é necessário que durante o armazenamento não sejam intensificados os defeitos, porque esses determinam a tipificação (vide Portaria número 06/2009 do Mapa).

A deterioração dos grãos, inexorável e irreversível, depende da temperatura, da umidade e da ação de pragas e microrganismos. Por isso, os manejos conservativos no armazenamento estão estreitamente relacionados com os metabolismos de grãos e dos organismos associados, que em processos aeróbios produzem dois fatores de autoaceleração: a água e o calor. Em sistema hermético, como o silo-bolsa, o CO2 produzido estabiliza o processo, reduzindo a respiração e diminuindo a relação O2/ CO2, diferentemente do que ocorre em sistemas não herméticos, como em silos e armazéns, onde o gás é dissipado para a atmosfera. Esse comportamento é importante, mas por si só não garante a conservação.

É necessário que os aspectos de qualidade sejam observados na cadeia produtiva como um todo, sendo cada vez mais aplicados os conceitos de qualidade total também nessa situação, que ultimamente tem melhorado muito no País, mas que ainda necessita aumentar o patamar de melhorias para reduzir os desequilíbrios tecnológicos que ainda se verificam na produção agrícola e nas agroindústrias. Não é admissível perder significativamente quantidade e/ou qualidade do que já foi colhido, sendo necessários conhecimentos e cuidados no armazenamento. Há poucas pesquisas verdadeiramente científicas realizadas por instituições renomadas no Brasil sobre armazenamento hermético de grãos, e muito menos ainda sobre armazenamento em silo-bolsa. Na Argentina e em outros países há um pouco mais.

Os resultados das pesquisas existentes e das observações práticas indicam que essa técnica constituem-se em alternativa complementar importante, desde que utilizada como deve ser, ou seja, para armazenamento emergencial, por prazo curto, a menos que sejam adotadas previamente e com rigor as seguintes medidas: 1 - pré-limpeza “caprichada”; 2 - secagem e limpeza até valores mais baixos do que para armazenagem em silos e/ou armazéns graneleiros; 3 - controle de pragas.

Depois de os grãos serem colocados no silo-bolsa, deve haver cuidados com a vedação e a manutenção da hermeticidade, com inspeções periódicas principalmente para verificar se não há furos na estrutura (se ocorrer furação, deve ser imediatamente reparada). Desenvolvido em regiões de clima frio, o armazenamento em silo-bolsa pode ser utilizado também em regiões de clima quente, desde que sejam seguidas as recomendações técnicas e respeitados os preceitos científicos e operacionais que o caracterizam.

Elias, Oliveira e Vanier (das esq. para dir.): desenvolvido em regiões de clima frio, o silo-bolsa pode ser utilizado também em regiões quentes, desde que seguidas as recomendações técnicas