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Soja: perspectivas em meio à alta dos CUSTOSSoja: perspectivas em meio à alta dos CUSTOS

A soja segue rentável, mas há perdas regionais em razão do clima. E segundo levantamentos do Cepea, os custos operacionais médios da cultura entre fevereiro e abril estavam cerca de 12,5% maiores que os do mesmo período de 2015

Lucilio Rogerio Aparecido Alves, professor do Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Esalq/USP e pesquisador do Cepea/ Esalq/USP, e Geraldo Sant’Ana de Camargo Barros, Fábio Francisco de Lima, Luiz Henrique de Almeida, Mauro Osaki e Renato Garcia Ribeiro, da Equipe de Custos Agrícolas Cepea/Esalq-USP

O objetivo deste texto é descrever as condições que prevaleceram na safra de soja 2015/16 e breves perspectivas para a temporada 2016/17. Entretanto, é importante também tecer algumas considerações sobre o ambiente registrado em 2014/15, os quais deram a dinâmica inicial para a temporada colhida no ano atual. No geral, a temporada 2014/ 15 gerou resultados favoráveis para a cadeia produtiva de soja. Porém, algumas regiões sofreram com índices pluviométricos baixos ou em excesso. Consequentemente, a produtividade teve expressiva oscilação quando se comparam os dados entre regiões. Enquanto na Região Sul a produtividade média aproximou-se de 70 sacas de soja por hectare – a exceção foi Camaquã/RS, em que o excesso de chuva derrubou a produção –, regiões dos estados do Nordeste e do Centro-Oeste tiveram produtividade abaixo da média. Em alguns casos, ficando na casa de 40 sacas por hectare.

Ao analisar os níveis de custos de produção e retorno sobre investimentos, dados do Cepea/Esalq-USP, em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), no Projeto Campo Futuro, envolvendo informações para sementes convencionais, para tecnologias geneticamente modificadas tolerantes a herbicidas, assim como tolerante a herbicida e resistente a insetos, também mostraram níveis distintos de custos de produção por hectare. Porém, houve resultado positivo em termos de custos operacionais. Os maiores custos totais de produção foram observados nas regiões de Guarapuava, Castro e Cascavel, todas no Paraná. Gastos com sementes e defensivos agrícolas elevaram o desembolso nessas regiões. Porém, como essas regiões também apresentaram as maiores produtividades agrícolas, conseguiram obter receitas líquidas operacionais maiores que as outras regiões, em nível de hectare. Isso vale para diferentes tecnologias utilizadas – convencionais ou geneticamente modificadas.

Quando se analisam a diferença entre receita e os custos totais de produção, várias regiões apresentaram resultados negativos. Os maiores prejuízos foram calculados para aquelas regiões que tiveram perdas de produtividade, como Camaquã/ RS e as pertencentes ao Nordeste. No período de decisão quanto ao cultivo da safra de verão em 2015/16, ou seja, no segundo e terceiros trimestres de 2015, a rentabilidade calculada para a soja era melhor que a do milho – que apresentava retornos negativos na maioria das regiões. Naquele momento, não havia expectativa de recuperação de preços de milho. Os produtores substituíram área de milho por soja, apesar de os custos de produção de soja, na média de julho a setembro de 2015, estarem 18% maiores que no mesmo período de 2014.

No geral, a área com soja em 2015 cresceu no Brasil e em todos os principais países produtores. Entre os estados, houve redução da área, inclusive por perdas devido à seca, em Goiás, Maranhão, Piauí e Roraima. Pará e Minas Gerais tiveram os maiores crescimentos percentuais de área. Um ponto importante é que diante das dificuldades de crédito e problemas financeiros de produtores, houve necessidade de venda antecipada em ritmo mais acelerado que em anos anteriores. Em Mato Grosso, por exemplo, enquanto em dezembro de 2014 cerca de 1/3 da produção de 2014/15 estava vendida, em dezembro de 2015 mais de 55% da oferta estimada para 2015/16 já havia sido negociada, segundo informações do Instituto Matogrossense de Economia Agropecuária (Imea). No Paraná, as vendas eram de 1/3 em dezembro de 2015, contra 10% em dezembro de 2014. Isso é importante, porque a recuperação seguinte de preços da soja não foi “aproveitada” por produtores.

Durante o desenvolvimento da safra 2015/16, outros fatos chamaram a atenção. Do ponto de vista da produção, o clima afetou o período de cultivo e o desenvolvimento das lavouras. Houve baixos índices pluviométricos em várias regiões do cerrado e chuvas em excesso no Sul, que resultaram em queda de produtividade mais intensa no Cerrado – praticamente pelo terceiro ano consecutivo. Segundo dados da Conab, a produtividade da temporada 2015/16, comparativamente a 2014/15, teve queda nos estados de Tocantins, Maranhão, Piauí, Bahia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná.

O estrago na mosca-branca em MT, GO e MG — Em termos fitossanitários, houve incremento da necessidade de tratamentos para mosca-branca, especialmente nos estados de Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais. Segundo cálculos do Cepea, em Mato Grosso e Goiás, os gastos com inseticidas na temporada 2015/16 cresceram entre 40% e 50% em relação à temporada anterior. Do gasto total com inseticida, de 30% a 40% foram direcionados para o controle de mosca-branca em regiões dos dois estados citados.

Ainda na safra 2015/16, do ponto de vista da comercialização, a demanda mundial mostrou-se aquecida para soja em grão e farelo, em um ambiente em que a taxa de câmbio foi favorável para exportação. Contribuíram para esse cenário as chuvas intensas na Argentina, que reduziram a produção e o ritmo de esmagamento naquele país, elevando preços e deslocando a demanda externa para o Brasil.

Além disso, os prêmios de exportação do Brasil subiram, dando sustentação ainda maior para os preços domésticos. Isso atraiu vendedores, especialmente tradings, visando à exportação, fazendo com que os embarques de soja em grão e farelo dos cinco primeiros meses de 2016 tenham sido recordes. Ainda no mês de junho os preços recebidos pelos produtores e no mercado atacadista (lotes) estavam em alta, o que pode ser atrativo para a próxima safra. Porém, os custos também continuaram firmes. Por outro lado, até pelo menos a metade do mês de junho, a rentabilidade do milho mostrou-se maior que a de soja, o que pode acirrar a disputa por área para a temporada 2016/ 17.

Em termos reais (deflacionado pelo IGP-DI), os preços da soja estão nos maiores patamares desde o final de 2012. Porém, segundo dados do Cepea, os preços de negociações para exportação de soja em grão a partir do segundo semestre de 2016 apontam para níveis menores que os registrados até meados do ano, em dólares. Em meados de junho de 2016, por exemplo, os dados apontam para queda de cerca de 15% dos preços em dólares entre julho de 2016 e maio de 2017. A questão é saber qual o nível de taxa de câmbio prevalecerá em 2017, para calcular a relação de preços em reais, o qual será efetivamente recebido pelos vendedores brasileiros.

Também segundo informações do Cepea, os custos operacionais médios de cultivo de soja entre fevereiro e abril de 2016 estavam cerca de 12,5% maiores que os do mesmo período de 2015. Isso está preocupando produtores, que novamente deverão ter dificuldades para obtenção de crédito para a temporada 2016/17. A competição em área com milho também pode se elevar.

Questionamentos ao produtor — Neste período em que é preciso finalizar o planejamento para a temporada 2016/ 17, alguns questionamentos devem ser considerados especialmente por produtores. Inicialmente, é preciso analisar se será possível travar os custos operacionais de produção da temporada 2016/17. Nessa linha, questiona-se quais as alternativas de recursos podem ser utilizadas, ou seja, se haverá crédito oficial disponível e acessível e qual a melhor alternativa para compra de insumos e garantia de receita (crédito, barter, hedge, etc.).

Como haverá um bom tempo até a colheita da nova safra, é preciso analisar com cuidado e atenção como se comportará o clima nos principais países produtores (EUA, Brasil e Argentina), pois os níveis de preços podem ser afetados imediatamente. Entretanto, certamente é importante também travar e/ou garantir o nível de receita suficiente para pagamento das despesas operacionais. Mas não é tarefa fácil antecipar qual será o nível de preços entre o segundo semestre de 2016 e o primeiro semestre de 2017, assim como da taxa de câmbio. Ter as contas “na ponta do lápis” e informações corretas e atualizadas é primordial!