Eduardo Almeida Reis

 

MORAR NA ROÇA

EDUARDO ALMEIDA REIS

Nascido em cidade grande, no tempo em que as cidades grandes eram habitáveis, meti-me na cabeça o desejo de morar na roça. De resto, sonho compartilhado até hoje por uma porção de gente.

Digo que o Rio era habitável porque nossa casa tinha muro de um metro de altura e ficava entre as duas maiores favelas da Zona Sul carioca, respectivamente a Catacumba e a Praia do Pinto. No futebol da infância, todos os meus colegas eram favelados. De volta da escola, recolhiam sacos de serragem nas carpintarias de Ipanema para cozinhar em seus barracos. Muitos deles se perderam no vício e no tráfico de drogas, a exemplo de muitos nascidos nas melhores casas daquele bairro.

Um dos problemas da droga, dizem os estudiosos, é que nunca foi uma droga. Até pelo contrário, parece que muitas são “gostosas” e quase todas viciam. A heroína, disse-me um amigo que a experimentou profissionalmente, vicia na primeira dose ao proporcionar sensação parecida com a de entrar nos céus.

Como explicar o desejo de morar na roça? A julgar pelas reações dos amigos que nos visitavam, o bizu estava no silêncio. Todos exclamavam: “Este silêncio!”. Sinal de que as cidades já eram barulhentas. Não tanto quanto hoje, mas havia barulhos que incomodavam.

O silêncio nas roças em que se produz leite é relativo. Bezerros e vacas berram. Há barulhos que cortam o coração do fazendeiro. Dou-lhes dois exemplos: inverno chuvoso, noite ainda escura e os gritos de um menino tangendo a vacada nos altos dos pastos.

Menino de 12 ou 13 anos como o Pingolim, que trabalhava fora das horas da escola para ajudar nas despesas de sua família. Só agora, através do Dicionário inFormal da Internet, descubro o significado do apelido: pênis pequeno ou pintinho. Era o “nome” do menino que estudava à tarde, trabalhou na roça fluminense muitos anos e mereceu bela indenização quando vendemos a fazenda.

A Junta exigia pagamento cash, um pacote de dinheiro que retirei do banco. Ficava em cima da rodoviária de Três Rios/RJ, lugar de muito movimento. Pingolim assinou os papéis e se esqueceu do pacote em cima de um balcão: dinheiro para comprar uma bicicleta e dar o resto aos pais. Felizmente o pacote lá estava quando percebi seu esquecimento e voltamos ao segundo andar.

Outro barulho de cortar o coração é o das noites de sábado quando os compadres voltam da venda, ligeiramente trêbados, e resolvem adiantar o serviço do dia seguinte. Domingo tem futebol no campo da fazenda vizinha.

É a barulheira da picadeira de capim operada pela turma trêbada. Cachaça de quinta categoria, que pelo visto não mata. Há poucos meses, em um casamento da neta de ex-empregado, encontrei quase todos. Os cinquentões festejando o reencontro: “Meu primeiro patrão!”. E os seus pais ainda firmes.

O desejo de sair da cidade pode ser visto pelo número espantoso de condomínios construídos ou em construção no entorno das aglomerações urbanas. Moro em uma cidade mineira de 600 mil habitantes, que tem uma infinidade de condomínios nas imediações e se prepara para a inauguração do inevitável Alphaville já anunciado: “More com segurança 24h e lazer completo com amplas áreas verdes!”.

Em Belo Horizonte, centenas de condomínios construídos a dezenas de quilômetros do núcleo urbano oferecendo segurança (relativa) depois que a pessoa é obrigada a transitar por estradas mais que inseguras. Alguns dos condomínios belo-horizontinos, de tão distantes, já se confundem com as outras cidades como Conselheiro Lafaiete, que demora 96 quilômetros da capital.

Em 1996, antes de me mudar para a capital de Minas, andei espiando diversos condomínios em que os moradores podiam ter cavalos de montaria. “Nenhuma hora passada em cima de um cavalo é uma hora perdida” disse Churchill, que também fumava charutos.

Visitei condomínios do arco-da-velha. Lotes pequenos com residências enormes parecendo peru em um pires. Brigas entre vizinhos iguais às dos condomínios verticais urbanos. Brasileiro cordial é figura de literatura. Junte meia dúzia de patrícios em um condomínio horizontal ou vertical e depois me conte. Nos edifícios, as pessoas brigam pelas vagas nas garagens, pelo uso dos elevadores, pelo barulho que vem dos apartamentos de cima, do lado ou de baixo. Nos condomínios horizontais o vizinho está logo ali do outro lado da cerca. E faz barulho.

Sons modernos atenazam pessoas a centenas de metros de distância. Vocês querem saber de uma coisa? Estou muito pessimista: deve ser a idade. Mas fiquei feliz com a expulsão da búlgara. Tchau e bênção.