Plantio Direto

 

FUNDAÇÃO AGRISUS e a bandeira do plantio direto

Engenheiro agrônomo e PhD em Ciência do Solo Ondino Cleante Bataglia, secretário executivo da Fundação Agrisus

Existe no Brasil uma fundação que é a única entidade privada, sem fins lucrativos, que destina recursos próprios para o apoio a projetos educacionais, de pesquisa, desenvolvimento e divulgação de novas tecnologias relacionadas à conservação e melhoria da fertilidade do solo. A Agrisus (www.agrisus.org.br) completou 15 anos de atividades em 24 de abril, tendo como uma de suas bandeiras a defesa dos benefícios do plantio direto.

Tudo começou quando o engenheiro agrônomo Fernando Penteado Cardoso, fundador da Manah, empresa de fertilizantes e gado de corte que marcou época (quem não se lembra do slogan “Com Manah, adubando dá!”), vendeu suas ações, depois de ter sido seu presidente de 1947 até 2000. Em um gesto pouco comum no Brasil, a família resolveu abrir mão de parte dos recursos ganhos para destiná-los a um organismo que continuasse as pesquisas iniciadas pela empresa, sempre com a mentalidade de melhorar as condições do solo. Dr. Cardoso presidiu a Fundação Agrisus desde a sua criação até 2011.

Uma produção agropecuária econômica e sustentável é de interesse tanto dos produtores como da sociedade consumidora. Para tanto, é preciso estimular a capacitação e o aperfeiçoamento profissional, assim como incentivar a pesquisa agronômica e a extensão rural. Com isso, pode-se gerar, desenvolver e difundir tecnologias destinadas a otimizar a fertilidade do solo de forma sustentável e favorável ao ambiente.

A Fundação Agrisus começou quando o engenheiro agrônomo Fernando Penteado Cardoso (foto) vendeu a Manah, empresa de fertilizantes que fundou, e a família destinou parte dos recursos da venda à entidade

O apoio da Agrisus tem várias linhas de projetos, tanto de educação individual, como bolsas de graduação e pósgraduação, auxílio de participação em eventos e em viagens de estudos, como em educação coletiva, com o apoio a eventos variados e formação de bibliotecas. O destaque fica por conta dos projetos de pesquisa agronômica e pesquisa do estado da arte, que já despertaram interesse dos principais pesquisadores do País, inclusive de órgãos públicos como Embrapa, Instituto Agronômico (IAC), de Campinas/SP, e diferentes universidades.

São muitos os artigos científicos já publicados até agora, no Brasil e no exterior, que tiveram como base os estudos financiados pela Agrisus. Um destaque e uma exigência de financiamento de todos os projetos de pesquisa é a formalização de um artigo técnico para divulgação que possa beneficiar o agricultor.

Bandeira da Agrisus: um dos principais fatores para a garantia da sustentabilidade é o sistema plantio direto na palha, tecnologia que revolucionou a agricultura brasileira, e hoje são 35 milhões de hectares praticados em PD no Pais

Para se ter uma ideia, de abril de 2001 a abril de 2016 foram recebidos um total de 1.798 solicitações de apoio, dentre as quais foram aprovadas 795, sendo 224 pesquisas científicas, 172 bolsas de estudo e 399 eventos técnico- científicos.

Sustentabilidade e plantio direto — A sustentabilidade da produção agrícola e a adequação ambiental são indissociáveis. Grandes avanços estão ocorrendo na agropecuária brasileira e para continuar crescendo e se firmar nas posições de liderança da produção, o Brasil precisa também posicionar-se na liderança da implantação de ações que garantam essa situação.

Bataglia, secretário-executivo da Agrisus: o apoio tem várias linhas de projetos, tanto de educação individual, como bolsas de graduação e pós-graduação, auxílio de participação em eventos e em viagens de estudos, assim como em educação coletiva

Um dos principais fatores para a garantia dessa sustentabilidade foi, justamente, a adoção e a implantação do sistema do plantio direto em seus campos, uma tecnologia que viria a revolucionar a agricultura brasileira. De acordo com Alfonso Antonio Sleutjes, presidente da Federação Brasileira de Plantio Direto e Irrigação (Febrapdp), que esteve presente na comemoração dos 15 anos da Agrisus, realizada no mês passado, no IAC, atualmente no País já são 35 milhões de hectares que utilizam o sistema.

A adoção da técnica, iniciada no Paraná, em 1972, por Herbert Bartz, no município de Rolândia, teve também como protagonistas Manoel Henrique Pereira e Franke Dijkstra. Baseado na cobertura permanente, no mínimo revolvimento do solo e, sempre que possível, na rotação de culturas, sua utilização demonstra como a agricultura brasileira evoluiu nesses anos, gerando vantagens tanto para o meio ambiente quanto para o produtor.

Além de ser uma prática conservacionista, o plantio direto também traz benefícios econômicos que se traduzem na redução do uso de máquinas e no ganho de produtividade, entre muitos outros. É da maior importância para os produtores a continuidade de seu sistema agrícola, evitando a erosão, a perda de fertilidade e a consequente decadência. Dessa forma, não se concebe mais o uso isolado de algumas práticas de produção.

Atualmente a agricultura conservacionista nos sistemas agrícolas produtivos é conceituada por processos tecnológicos que objetivam melhorar e otimizar os recursos naturais mediante o manejo integrado do solo, da água e da biodiversidade de forma integrada ao uso de insumos externos. O complexo de processos tecnológicos usados nesta agricultura moderna não pode se limitar a conceitos passados onde predominava o reducionismo visando exclusivamente à redução da intensidade de mobilização do solo em relação ao preparo convencional com arações e gradagens.

Nesse contexto moderno da agricultura conservacionista, presume-se o envolvimento concomitante de redução ou eliminação de mobilizações do solo, preservação de resíduos na superfície, manutenção de cobertura permanente, ampliação de biodiversidade por uso de diferentes plantas, integração de sistemas agrícolas com pastejo de animais, manejo integrado de pragas e doenças, controle de tráfego de máquinas, uso preciso de insumos agrícolas e emprego de práticas complementares para controle total da erosão.

O conceito moderno exige que os sistemas de produção envolvam a conservação do solo, da água, do ar e da biota, prevenindo a degradação dos sistemas e do entorno de modo que a agricultura possa ser interpretada como eficiente ou efetiva no uso dos recursos disponíveis. O plantio direto no seu conceito amplo é a base essencial dos sistemas.

Situação do plantio direto no Brasil — Entre as pesquisas apoiadas pela Fundação Agrisus, uma merece especial destaque e se refere ao Rally da Safra, projeto destinado a fazer um balanço in loco da situação das safras de milho e soja. Como parte dessa atividade, por vários anos, a partir de 2006 e até 2015, a entidade financiou uma pesquisa específica que fez o levantamento do Estado da Arte no plantio direto em diferentes regiões. Em 2009, foram coletadas 2.348 amostras de solo de 1.147 pontos diferentes, por todo o País. Essa análise rendeu dois trabalhos específicos de muita relevância, um sobre os níveis de fósforo e outro sobre bases trocáveis em solos sob o sistema de plantio direto. Esses relatórios estão disponíveis no site da Agrisus.

O trabalho como um todo evidenciou, de forma bastante consistente, a predominância de boa cobertura de solo na Região Sul onde o plantio direto é praticado há mais tempo. No Centro- Oeste, no Norte e no Nordeste, regiões caracterizadas por inverno quente e semi-úmido ou quente e seco, o plantio de culturas no inverno é dificultado pela escassez de chuvas. Dessa forma, os dados evidenciam que o percentual de áreas com quantidades de resíduos nos níveis desejáveis para indicar um bom plantio direto ainda é insuficiente e bem abaixo do observado no Sul.

Nas regiões novas e em especial na chamada Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) começam a aparecer indícios de resíduos de capim braquiária. É uma indicação do uso da integração lavoura-pecuária, ou mesmo de uso da braquiária após o cultivo principal de soja ou em plantio consorciado com milho para incrementar a produção de palha visando à melhoria do sistema de plantio direto.

Apesar do crescimento da área de plantio direto no Brasil, ainda faltam muitos estudos sobre os melhores sistemas em cada região para garantir palha suficiente e de qualidade desejável. Muitas experiências são praticadas pelos próprios agricultores e em projetos de pesquisa. O crescimento do tamanho das máquinas de plantio e outras atividades exige áreas desimpedidas de terraços e outros meios complementares de conservação do solo, o que vem de certa forma reduzindo a eficiência dos sistemas de plantio direto no controle da erosão. São temas que precisam ser resolvidos no futuro para garantir o sucesso desse importante sistema de plantio nas lavouras do País.