Fitossanidade

 

Amaranthus palmeri, atenção com o novo CARURU

A invasora já foi encontrada no Mato Grosso e preocupa, pois além de não ter herbicidas registrados para seu controle, ainda se mostra resistente ao glifosato e a outros princípios

Rafael Romero Mendes, Denis Fernando Biffe, Jamil Constantin e Rubem Silvério de Oliveira Jr., pesquisadores do Núcleo de Estudos Avançados em Ciência das Plantas Daninhas da Universidade Estadual de Maringá e parceiros da Iniciativa 2,4-D

Na Argentina, em 2012, uma espécie de caruru denominada Amaranthus palmeri, encontrada até então apenas na Ásia, na Europa e na América do Norte, foi identificada na província de Córdoba, em áreas de produção de soja. Em julho de 2015, a mesma espécie foi encontrada pelos pesquisadores Edson Andrade Jr., do Instituto Mato-Grossense do Algodão (IMAmt), e Anderson Cavenaghi, do Centro Universitário de Várzea Grande/MT (Univag), em lavouras de produção de grãos e algodão no Mato Grosso. A novidade colocou produtores, técnicos, pesquisadores e profissionais da agricultura em alerta.

O A. palmeri possui características que auxiliam na diferenciação das outras espécies de carurus. Suas folhas são mais ovaladas, lembrando formato de “diamante”, enquanto as folhas do A. rudis são mais estreitas e lineares, o que diferencia uma espécie da outra. A principal característica que distingue essa espécie de A. hybridus e A. retroflexus é a ausência de pilosidade no caule e na superfície das folhas. Outra característica marcante da espécie é o comprimento dos pecíolos (a estrutura que sustenta as folhas), os quais são iguais ou maiores do que o comprimento de sua própria lâmina foliar, especialmente nas folhas mais velhas. Outras evidências que podem ocorrer é a presença de manchas prateadas em formado de “V” na superfície das folhas e a formação de um espinho ao final das nervuras centrais das folhas, no início de desenvolvimento da planta.

A inflorescência de A. palmeri, na maioria das vezes, apresenta coloração verde e é geralmente maior do que as panículas de outros carurus, podendo medir até 60 centímetros. As flores femininas possuem brácteas pontiagudas que, ao serem tocadas, emitem a sensação semelhante ao tato a espinhos. O porte dessa planta daninha talvez seja a característica mais marcante, uma vez que pode atingir até dois metros de altura.

Essa espécie está entre a minoria das espécies de caruru que possui característica dioica de reprodução. Isso significa que as flores masculinas masculinas estão presentes em algumas plantas e as flores femininas estão presentes em outras plantas distintas. A fecundação das flores femininas pelo pólen ocorre por meio do vento e da chuva. Por outro lado, a espécie ainda pode produzir uma pequena taxa de descendentes sem que haja fecundação, fenômeno denominado de apomixia. Devido aos mecanismos reprodutivos, é possível que ocorra cruzamento entre A. palmeri e outros carurus. A chamada hibridização pode ocorrer com o caruru-de-espinho (A. spinosus) mais frequentemente, pelo fato da proximidade genética existente entre ambas.

Temperaturas entre 20º e 30ºC são ideais para a germinação das sementes e para o desenvolvimento dessa espécie. Em condições favoráveis, essas plantas podem apresentar crescimento extremamente rápido, podendo crescer em média de 2 a 3 centímetros por dia. Plantas de A. palmeri podem produzir de 600 mil a mais de 1 milhão de sementes. A disseminação ocorre principalmente pelo tráfego de máquinas agrícolas e de pessoas e a contaminação de sementes comerciais e o simples fluxo de aves migratórias podem ser formas importantes de distribuição dessa planta daninha. Em função de suas características biológicas, espera-se que A. palmeri seja uma espécie facilmente adaptável aos sistemas de agricultura aqui utilizados.

O potencial de dano pode alcançar 79% de perda de produtividade em soja, 91% em milho e até 57% em algodão. Além disso, são observadas perdas também em função da redução no rendimento da colheita, do aumento nas impurezas e da redução da qualidade do produto final. A Dra Nilda Burgos, professora da University of Arkansas, EUA, é uma das maiores especialistas sobre essa espécie. Em visita ao Brasil, a pesquisadora destacou o que considera mais importante nessa espécie: “Além da resistência a vários herbicidas, ela é a mais competitiva dentre todos os carurus já conhecidos”.

Resistência a herbicidas — Em 2005, no estado da Georgia, EUA, foi constatado o primeiro caso de resistência dessa espécie ao glifosato.

Hoje, praticamente todas as populações dessa planta nos EUA apresentam resistência a esse herbicida. Pesquisadores do IMAmt já confirmaram que o biótipo encontrado no Brasil também é resistente.

Mas o problema não para por aí. Para quem já ouviu a recomendação “é necessário alterar o mecanismo de ação do herbicida” ou “deve utilizar outro produto com ação diferente”, é preciso ter cuidado. Essa espécie de caruru pode apresentar resistência a vários outros herbicidas além do glifosato. Em alguns estados dos EUA já existem locais onde as plantas apresentam resistência aos inibidores da ALS (imazethapyr e chlorimurom, por exemplo), e a inibidores do fotossistema (atrazina, por exemplo), muito utilizada em lavouras de milho.

As medidas de controle devem ser integradas, o que requer ações conjuntas de capinas, catações, rotação de culturas, manejo físico com formação de palhada e prevenção da disseminação de sementes. Em relação ao uso de herbicidas, todas as estratégias que têm apresentado algum sucesso implicam necessariamente na utilização de herbicidas em pré-emergência, isso porque o crescimento rápido pode fazer com que o momento ideal para a aplicação de herbicidas em pós-emergência seja perdido facilmente. No Brasil, até o momento não existe nenhum herbicida registrado visando ao controle dessa planta daninha.

Ainda existem perguntas a serem respondidas. Será que essa espécie realmente irá se adaptar a todos os ambientes agrícolas brasileiros? Se isso acontecer, em quanto tempo essa planta irá se disseminar? A quais herbicidas essa planta daninha também é resistente, além do glifosato? Enfim, não vale à pena esperar para ver! As características de agressividade e o potencial de dano dessa invasora não permitem erros. É necessário monitorar as lavouras, identificar a espécie, trabalhar com a prevenção e com a erradicação, se for o caso. Se houver suspeita da presença dessa invasora em sua propriedade, comunique pesquisadores, agrônomos ou técnicos especializados mais próximos.