Calagem

 

Efeitos do CALCÁRIO aplicado na superfície

Em lavouras de plantio direto geralmente a prática da calagem é realizada de maneira superficial, e assim a ação do calcário é muito mais lenta e restrita às camadas superiores do solo

Engenheiro agrônomo Luiz Henrique Marcandalli, mestre em Ciências pelo Cena/USP

O Brasil é um País com dimensões continentais, com grande abundância em recursos naturais, sendo os mais importantes o solo e o clima, que possibilitam a produção agrícola em grande escala. Devido a esses fatores, o País detém a importante missão de elevar a produção de alimentos e reduzir a carência alimentar de todo o mundo nos próximos anos. A expansão da produção atual depende da capacidade de elevar as produtividades agrícolas e também de converter áreas atualmente degradas ou ociosas em áreas agrícolas produtivas, sem que necessite a exploração de reservas florestais e outras áreas de preservação permanente. Além dos fatores climáticos que podem interferir na produtividade de uma cultura, as técnicas agrícolas ligadas ao solo e a nutrição de plantas também são fatores fundamentais que refletem as altas produtividades, e quando bem aplicadas podem até minimizar as perdas ocorridas pelas condições climáticas adversas.

Dentre as técnicas agrícolas aplicadas às lavouras, a calagem é considerada básica e primordial para se iniciar um cultivo em novas áreas agrícolas. Porém, o conhecimento por trás dessa técnica é muito complexo e deve ser bem compreendido antes de iniciar a atividade. A adição de calcário ao sistema de produção é de suma importância por corrigir atributos químicos do solo afetados pelo intemperismo e pelo cultivo. Os solos brasileiros, por terem normalmente alto grau de intemperismo, apresentam condições químicas totalmente dependentes do pH (potencial de didrogênio), pois a perda de capacidade de troca das argilas e a lixiviação de minerais com menor afinidade com as cargas do solo fazem com que os elementos em maior abundância ligados aos coloides de argila sejam o hidrogênio e o alumínio, reduzindo o pH dos solos e prejudicando o desenvolvimento das raízes de culturas com baixa tolerância ao alumínio tóxico.

Em condições de cultivo, principalmente no sistema plantio direto (SPD), essas alterações também são observadas devido à exportação dos nutrientes do solo e à liberação de ácidos orgânicos pelo sistema radicular dos cultivos. Principalmente na camada superficial, na qual apresentam uma tendência de maior acidificação, contribuindo para isso os resíduos de adubação e a decomposição de matéria orgânica, sobretudo de fertilizantes nitrogenados.

Resultados de pesquisas realizadas em solos brasileiros indicam pequeno ou nenhum deslocamento no perfil do calcário além do local de aplicação

A calagem é uma prática usual para corrigir as camadas acidificadas, favorecendo, dessa forma, o uso eficiente de fertilizantes pelas plantas e proporcionando melhorias no crescimento das raízes e, consequentemente, na absorção de nutrientes e água pelas culturas.

Os materiais corretivos de acidez do solo mais usados na agricultura são rochas calcárias moídas, constituídas por misturas de minerais como a calcita e a dolomita, os quais possuem em sua composição carbonatos de cálcio e/ou magnésio, que são pouco solúveis em água. Para que a acidez do solo seja neutralizada, as partículas de solo devem entrar em contato com calcário ou com os produtos de sua transformação.

Decorrendo daí a necessidade em se incorporar o calcário no solo da melhor forma possível. Entretanto, o efeito do calcário sobre a camada superficial do solo é maior quando o mesmo é aplicado em superfície, uma vez que a incorporação o dilui em uma camada mais espessa do solo.

No SPD, geralmente a prática da calagem apresenta uma dinâmica diferente dos preparos convencionais, sendo realizada superficialmente, esperando- se uma ação do calcário muito mais lenta e restrita às camadas superficiais do solo. Resultados de pesquisas realizadas em solos brasileiros indicam pequeno ou nenhum deslocamento no perfil do calcário além do local de aplicação. Sendo assim, o pH e os teores de cálcio e magnésio trocáveis somente seriam aumentados na superfície do solo.

A restrição do efeito alcalino do calcário ao seu local de aplicação pode ser atribuída à sua baixa solubilidade, à geração de cargas dependentes de pH e à ausência de um ânion estável em sua reação no solo. Entretanto, foram verificados aumentos de pH e cálcio trocável, além de redução de alumínio trocável em camadas até 40 centímetros onde houve a aplicação de calcário apenas em superfície.

Porém, constata-se que as maiores alterações ocorreram nas camadas superficiais do solo sob o sistema plantio direto, sugerindo-se que as amostragens de solo em plantio direto, após a calagem, devam ser efetuadas em profundidades estratificadas entre 0 a 10 centímetros e de 10 a 20 centímetros.

Controvérsias e indefinições — Embora tenha havido grande crescimento de áreas sob plantio direto nos últimos anos, ainda há muitas controvérsias e indefinições sobre o manejo das culturas e fertilidade do solo nesse sistema. Trabalhos têm indicado que a necessidade de calcário no SPD talvez seja menor do que no sistema convencional de preparo.

Entretanto, faltam informações a respeito da reação do calcário aplicado na superfície do solo e de critérios de recomendação de calagem, com base na análise química do solo, em sistemas de plantio direto. Além disso, a maioria dos estudos já concluídos se concentra na Região Sul. Portanto, há deficiência de informações quanto à reação do calcário aplicado na superfície em áreas de SPD localizadas em regiões de cerrado, que possuem condições edafoclimáticas distintas.

Com as dúvidas envolvendo a aplicação de calcário em plantio direto, atualmente, recomenda-se, antes de se iniciar o SPD, aplicar o calcário a lanço na superfície do solo e posteriormente incorporá- lo com arado de discos, repetindose a análise de solo somente após três anos de cultivo.

Salienta-se que o calcário apresenta um efeito residual em torno de cinco anos nessa modalidade de cultivo. Analisando as alterações químicas do solo em função da calagem superficial a partir de pastagem natural, estudos concluíram que, antes de se iniciar o sistema plantio direto, há possibilidade de não se adotar o preparo convencional para correção da acidez superficial e subsuperfícial.

Marcandalli: “A calagem é uma prática usual para corrigir as camadas acidificadas, favorecendo, dessa forma, o uso eficiente de fertilizantes pelas plantas e proporcionando melhorias no crescimento das raízes”

Efeito esse que pode ser obtido devido a áreas de pastagem e de SPD possuírem canais formados por raízes mortas que são mantidos intactos devido à ausência de preparo do solo, propiciando condições para a movimentação física do calcário em profundidade. Demonstram, dessa forma, existir maneiras de se evitar a interrupção do SPD, mantendo as características físicas, químicas e biológicas do solo, uma vez que são vitais para a obtenção de êxito nesse sistema de cultivo.

Apesar da capacidade de alterar as condições químicas do solo com uso da calagem em superfície, deve-se estar ciente que isso resultará em efeitos positivos quando se conhecer muito bem a dinâmica do solo em que se está trabalhando e de todo o histórico de cultivo do mesmo. Em trabalhos de pesquisa se observou que quanto menor a atividade orgânica do solo e a precipitação, menor será a profundidade corrigida pelo calcário aplicado em superfície.

Em solos onde não se consegue realizar a correta manutenção de cobertura vegetal com atividade e crescimento radicular constante, dificilmente e terá sucesso na correção de atributos químicos como pH, alumínio, soma de bases entre outros, com a aplicação de calcário em superfície.

E outro ponto muito importante, apesar de a calagem ser uma técnica básica e com resultados benéficos aos cultivos, quando mal dimensionada e utilizada em doses excessivas na superfície do solo, pode alterar os atributos químicos a ponto de desbalancear a disponibilidade de nutrientes e, consequentemente, reduzir as produtividades.