Integração

 

QUATRO safras no mesmo ano. Por que não?

Exemplos em áreas de sequeiro e irrigadas no Oeste paulista, com três safras mais a palhada para cobertura de solo. São mais possibilidades da integração lavoura-pecuária, com uma atividade contribuindo para o melhor desenvolvimento da outra

Edemar Moro, coordenador da Pós em ILPF da Unoeste, e Amarildo Francisquini Júnior, doutorando em Agronomia na Unoeste

No início da década de 1980, o Brasil deixou de cultivar apenas milho no verão e passou a cultivar também na safrinha. Duas safras por ano foi um grande avanço no uso do solo. O milho safrinha ultrapassou 1 milhão de hectares na safra 1992/93 e a partir desse marco cresceu linearmente. Esse avanço atraiu os olhares do mundo do agronegócio para o Brasil, afinal, duas safras no mesmo ano agrícola era algo incomum.

O fator que mais favoreceu a expansão do milho safrinha foi o crescimento da área com a cultura da soja. Na safra 1996/97, o cultivo de soja ultrapassou a área com milho verão, e a partir dessa safra a área de soja cresceu vertiginosamente, passando de 11 milhões de hectares para os atuais 32 milhões. O milho verão, que na safra 1996/97 ocupava uma área superior a 13 milhões de hectares, hoje ocupa apenas 6 milhões, enquanto a safrinha passou de 2 milhões de hectares em 1996/97 para mais de 9 milhões.

A B. ruziziensis em pleno desenvolvimento após a senescência do milho, pastagem semeada a lanço simultaneamente com o milho, utilizando taxa de semeadura 15 kg/ ha de sementes puras

A maior área com soja no verão e o ciclo mais curto da oleaginosa oportunizou o aumento de área para o cultivo de milho de segunda safra. Além disso, as grandes regiões produtoras passaram a semear soja ainda em setembro, o que permitiu uma condição de época excelente ao milho safrinha. Essa condição resultou ao milho de segunda safra maior área, maior produção e maior produtividade em relação à de verão. A produção atual de milho verão é próxima a 30 milhões de toneladas, frente a 55 milhões na segunda safra.

Com relação à produtividade, a safra de verão produz aproximadamente 4.900 quilos/hectare, enquanto que na segunda safra a produtividade já ultrapassa 5.700 kg/ha. Apesar do avanço do milho safrinha, o uso da área na segunda safra (somadas todas as culturas) é de apenas 30% do total da área destinada às culturas de verão. Portanto, o Brasil deixa de cultivar na segunda safra 29 milhões de hectares.

A análise do histórico de produção de grãos demonstra que a grande virada na produção de alimentos no Brasil aconteceu na década de 1990. As principais conquistas foram consolidação do sistema plantio direto, a expansão da área cultivada com soja tornando-se superior à do milho no cultivo de verão e início da produção em grande escala do milho safrinha. Esse conjunto de fatores, somado às demais culturas, permitiu o Brasil passar de importador de alimentos para um grande exportador de grãos.

Apesar do status de grande exportador de alimentos, o Brasil usa mal as áreas agrícolas. Como já relatado, o País deixa de cultivar na segunda safra 70% da área utilizada no verão. É uma área imensa que poderia ser aproveitada. No passado as áreas eram abandonadas ao chamado pousio. Muitos, inclusive técnicos, diziam que se deveria deixar o solo “descansar”. A defesa do pousio ocorreria em detrimento do uso inadequado do solo e baixos investimentos em corretivos e fertilizantes. Ainda hoje o extrativismo predomina em algumas atividades, principalmente na pecuária de corte, de modo que as áreas precisam ser deixadas sem uso por longos períodos para que a pastagem se desenvolva novamente.

Quatro safras no sistema sequeiro — No conceito moderno de exploração agropecuária, hoje o correto é intensificar o uso do solo. No Oeste paulista a Integração Lavoura-Pecuária (ILP) tem possibilitado quatro safras por ano agrícola. Nessa região, considerada imprópria ao cultivo de grãos, a ILP viabilizou o uso do solo de forma mais intensa no sistema sequeiro. A Fazenda Campina, de Carlos Viacava, é um exemplo sólido do sucesso do uso do solo na região. A Campina foi inserida em um projeto de ILP em que a reforma de pastos é feita com a cultura da soja e do milho. Essa combinação de culturas resulta no que se considera hoje de quatro safras por ano, da seguinte forma:

Primeira safra, soja: a primeira safra é com a soja implantada no início de outubro, de modo que a colheita é realizada ao final de janeiro. No último ano agrícola, a média de produtividade de 700 hectares com soja na Campina foi de 50 sacas/hectare. É importante destacar que a soja ajudará a viabilizar as culturas subsequentes.

Segunda safra, milho + capim: no início de fevereiro, logo após a colheita da soja, é semeado o milho consorciado com capim, cuja colheita do milho para silagem é realizada em meados de maio. A produção média da silagem é 40 toneladas/hectare.

Terceira safra, boi: após a colheita do milho para silagem, a área é pastejada durante 60 dias com posterior vedação. A produção de carne nesse período com um GMD (ganho de peso médio diário) de 0,5 quilo e uma taxa de lotação de 3,5 UA (unidade animal) por hectare (unidade animal de 450 quilos) é de cinco arrobas por hectare. Essa produção no período de apenas 60 dias é a mesma da média da pecuária em pastos degradados no período de 365 dias.

Quarta safra, palhada: o pasto remanescente após o pastejo é considerada uma safra de palha, tendo em vista o volume de palha que fica no sistema, superior a 4 toneladas de matéria seca por hectare. Outra razão para considerar a palha um produto, é a sua importância para a agricultura tropical desenvolvida sem irrigação.

Quatro safras em sistema irrigado — A rotação e o consórcio de culturas com gramíneas forrageiras para produção de sementes têm possibilitado a obtenção de três safras de grãos no mesmo ano agrícola, além da palhada deixada para manutenção da cobertura do solo, que é considerada como um produto de alto valor em regiões de solos arenosos. Na safra 2014/15, o Grupo Sardetti fez três safras de grãos e uma de palhada em área irrigada na fazenda Estância Paraíso, em Santo Anastácio/ SP. Em outubro de 2014, foi semeado milho em consórcio com B. ruzizisensis. A semeadura da ruziziensis foi realizada a lanço simultaneamente com o milho, utilizando taxa de semeadura de 1.500 pontos por hectare (equivalente a 15 kg/ha de sementes puras).

Primeira safra, milho: o milho foi colhido em abril de 2015, com produtividade média de 120 sacas por hectare. Após a colheita do milho, a B. ruziziensis foi mantida na área até completar o ciclo reprodutivo e ocorrência da degrana natural das sementes.

Segunda safra, B. ruziziensis: a colheita da braquiária foi realizada na primeira semana de junho de 2015, com produtividade de 420 kg/ha de sementes puras. Após a colheita das sementes, a palha remanescente da colheita foi triturada, e a cultura do feijão carioca foi semeada dia 5 de junho de 2015.

Terceira safra, feijão: a colheita do feijão foi realizada em10 de outubro de 2015, com produtividade média de 30 sacas por hectare. A produtividade foi abaixo do esperado em razão da ocorrência de chuva de granizo no período de florescimento.

Quarta safra, palhada: a B. ruziziensis destinada para produção de sementes deixa no solo até 12 toneladas/ hectare de matéria seca de alta relação C/N (40 a 60). É importante destacar que o grande volume de palhada com alta relação imobiliza o nitrogênio do solo. A cultura utilizada após a braquiária foi o feijão comum.

Para essa espécie, a eficiência de fixação biológica é baixa e não atende a demanda da cultura por nitrogênio, portanto, foram aplicados 80 kg/ha de N para a cultura completar seu ciclo e para compensar o que foi imobilizado pela palhada. O volume de palha após a colheita do feijão ainda era de 5 t/ha, que servirá de cobertura para o novo ciclo de culturas, o qual foi iniciado com a cultura da soja.

Esse sistema de produção possibilita maximizar a rentabilidade econômica da área de forma sustentável, com a produção de milho, sementes de forrageira, feijão e aporte de palhada para manutenção do sistema de plantio direto para as próximas safras, reduzindo também a necessidade de irrigação da cultura.

Entretanto, nessa prática de rotação de culturas, é importante o manejo adequado de adubação, principalmente com relação ao nitrogênio, para não haver carência desse nutriente no sistema de produção. Em regiões onde não há ocorrência de histórico de geadas no inverno e com irrigação disponível, é possível intensificar o sistema de produção e realizar quatro safras por ano agrícola mesmo para produtores que não estão no setor de produção de sementes de forrageiras.

Palhada de B. ruziziensis, antes da colheita das sementes destinada para a produção de sementes, cultura que deixa no solo até 12 toneladas/hectare de matéria seca de alta relação C/N (40 a 60)

Dessa forma, a soja de cultivar precoce seria semeada na primeira quinzena de setembro após o vazio sanitário para cada região, com posterior colheita na primeira quinzena de janeiro. Posterior à colheita da soja, o milho de cultivar precoce seria semeado simultaneamente com a B. ruziziensis na segunda quinzena de janeiro e a colheita, na segunda quinzena de maio. Após a colheita do milho, a B. ruziziensis se desenvolveria até o início de julho, com posterior dessecação e semeadura do feijão comum de cultivar precoce com colheita na primeira quinzena de setembro. Assim seria possível a obtenção de três safras de culturas graníferas e aporte de palhada para a próxima safra.

Colheita das sementes de B. ruziziensis, realizada na primeira semana de junho de 2015, com produtividade de 420 kg/ha de sementes puras, sendo que a palha remanescente foi triturada