Fisiologia

 

Soja TURBINADA para produzir mais

Biorreguladores, biofertilizantes e bioativadores podem contribuir para aumentar a produtividade da oleaginosa, pois são substâncias que influenciam e modificam o desenvolvimento das plantas

João Domingos Rodrigues, Elizabeth Orika Ono, Luan Fernando Ormond Sobreira Rodrigues e Ronald Ernst Heinrich Weber, da Universidade Estadual Paulista (Unesp)

E m 2015, o Brasil produziu 97 milhões de toneladas em uma área de 32,1 milhões de hectares, rendimento médio de 3.022 quilos/hectare e necessidade de aumento da produção. Maior produtividade demanda tecnologias como melhoramento genético, biotecnologia, disponibilidade de água e nutrientes e proteção contra pragas e doenças. Na fisiologia da produção, o objetivo é manejar as plantas, tornando-as mais eficientes para explorar melhor o ambiente, maximizando a expressão do potencial genético da cultura.

Essa maximização inclui aumento do número e crescimento de ramos frutíferos, maior fixação de flores e frutos, elevação da fotossíntese e maior transporte de fotoassimilados. Todos esses fatores, na soja, dependem do uso de biorreguladores, compostos pesquisados há 90 anos, com ganhos efetivos na produção. Além dos biorreguladores, há compostos como os bioestimulantes e bioativadores, com menos dados de pesquisa, são apresentados como substâncias que influenciam na estrutura das plantas.

Os biorreguladores ou reguladores vegetais são hormônios vegetais quando endógenos ou reguladores vegetais quando sintéticos, e que nas plantas promovem, modificam ou inibem processos fisiológicos ou morfológicos. Os biorreguladores sintéticos possuem ações similares aos hormônios vegetais, afetando os balanços hormonais naturais. Os hormônios vegetais são compostos orgânicos endógenos que, em baixas concentrações, causam profundas influências na fisiologia das plantas.

Os biorreguladores são constituídos por um ou por uma mistura de reguladores vegetais, sendo utilizados de forma eficiente em concentrações baixas, característica que possibilita seu uso comercial. São substâncias não minerais que possuem papel de mensageiros químicos nos vegetais, estando presentes em todas as plantas.

Os grupos hormonais dividem-se em promotores e inibidores do desenvolvimento. Assim, as auxinas (Ax), as giberelinas (GA) e as citocininas (CK) foram classificadas como promotores; o etileno (ET) e o ácido abscísico (ABA), inibidores. Recentemente, outros compostos foram classificados como hormônios vegetais, as poliaminas (PA), os brassinosteroides (BR), os jasmonatos (JA), os salicilatos (SA), os hormônios peptídeos (PPT) e as estrigolactonas. Os hormônios vegetais influenciam todas as fases do ciclo dos vegetais, desde a germinação, passando pelo crescimento vegetativo, florescimento, frutificação, até a maturação. Os grupos hormonais mais ativos na germinação das sementes são GA, CK e ET; na iniciação e no crescimento de raízes, Ax e CK; no crescimento do caule, GA; no crescimento das folhas, Ax e CK; na fase reprodutiva, Ax, GA, CK e ET; na senescência (queda de folhas, flores e vagens), Ax e CK (inibem) e ET e ABA (estimulam).

Daí a importância dessas substâncias nos componentes que interferem na produtividade, sendo fundamental entender como funcionam, visando à melhor resposta das plantas, através do seu manejo pelo uso desses compostos. As respostas fisiológicas são consequência da ação de diferentes hormônios vegetais e não especificamente da ação individual de um deles. Cada grupo hormonal participa de processos fisiológicos diferentes, desde a germinação à formação de vagens e colheita. As concentrações dos hormônios vegetais mudam com o ciclo da planta, o que determinam as mudanças fisiológicas, tanto na sua fase vegetativa como na reprodutiva.

As plantas sempre sintetizam mais do que um hormônio vegetal ao mesmo tempo, mostrando que esses compostos atuam de forma sinérgica, conjuntamente, ou seja, mais de um regulador vegetal ao mesmo tempo, resultando em respostas mais efetivas do que um composto isolado.

O aumento da produtividade é dependente da fotossíntese, portanto, a fotossíntese é a base de toda a produção vegetal. Vários fatores ambientais interferem na fotossíntese, como luz, água, temperatura, etc., e a soja, sendo planta C3, apresenta queda fotossintética em temperaturas acima de 30oC, bem como quando há deficiência hídrica. Estudos mostram a possível ação dos reguladores vegetais na redução da temperatura foliar, na abertura estomática e com isso maior produtividade. Existem produtos comerciais que representam os principais grupos de biorreguladores, de forma isolada ou em combinações de vários grupos na mesma mistura.

O site do Giagro - Gerenciamento de Informações Agronômicas mostra apenas quatro registros de reguladores vegetais pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), com diferentes aplicações permitidas na cultura da soja, desde o tratamento de sementes, aplicação no sulco de plantio e na aplicação foliar em diferentes estádios da planta. São eles, Ethrel (ET), Kelpak (Ax), Progibb (GA) e Stimulate (CK + GA + Ax).

Estímulo à absorção de nutrientes — Os biofertilizantes são produtos que possuem substâncias ou microorganismos capazes de estimular o processo natural de absorção de nu-trientes, aumentar o nível de tolerância ao estresse e melhorar a qualidade da produção. Podem também ser misturas de biorreguladores com outros compostos como aminoácidos, enzimas, vitaminas, sais minerais, etc.

Os biofertilizantes atuam dependendo da proporção das substâncias presentes na mistura, da sua composição e da concentração do produto utilizado. Porém, os resultados esperados não são facilmente atingidos, pois os estádios da cultura afetam as respostas. Assim, os grupos com maior atividade na germinação não são os mesmos que afetam a fase vegetativa, bem como não os são na fase reprodutiva.

Apesar de estudos com biofertilizantes em diferentes culturas, os resultados até agora têm sido variados, sendo necessárias mais pesquisas para melhor avaliação desses produtos na agricultura. Por sua composição ter baixas concentrações, bem como pelas doses recomendadas, a aplicação de biofertilizantes dificilmente poderá regular, por si só, um processo fisiológico. A ação de biofertilizantes é complemento na manutenção fisiológica, o que é importante em condições ambientais extremas (seca, geada) ou condições bióticas limitantes (pragas e doenças).

Modificadores do crescimento — Com relação aos bioativadores, também citados como produtos com efeitos fisiológicos, são substâncias orgânicas modificadoras do crescimento, com atuação em fatores de transcrição e na expressão gênica vegetal, em proteínas de membrana alterando o transporte iônico e em enzimas metabólicas do metabolismo secundário. Podem modificar a nutrição mineral e produzir precursores de hormônios vegetais, levando à síntese hormonal.

Alguns fungicidas e inseticidas, além da proteção contra doenças e pragas, interagem em processos fisiológicos nas plantas, principalmente, no aumento do vigor e reduzindo os efeitos negativos do estresse, são considerados bioativadores. A utilização de bioativadores visa aumentar o potencial produtivo das culturas, modificando processos metabólicos específicos, proporcionando equilíbrio fisiológico.

No Brasil, o uso de bioativadores começou há 20 anos, com experimentos demonstrando melhoras na produtividade. Alguns defensivos considerados como bioativadores são as estrobilurinas (piraclostrobina), carboxamidas (boscalida e fluxapiroxade), fungicidas com efeitos fisiológicos positivos, além do controle de doenças; neonicotinoides (thiamethoxam, clothianidin), inseticidas para sementes, melhorando a germinação e arranque inicial, além da ação inseticida. Outras substâncias consideradas como bioativadores são classificados como adubos foliares (complexos nutricionais/ nutritivos), por não terem registro no Mapa.

Antiestresse — Deve-se ou não usar esses produtos? O primeiro fato é a mudança do conceito do uso de biorreguladores apenas como produto complementar, de “acabamento”. Pela ação fisiológica dos biorreguladores em todas as fases da vida da planta, desde a germinação até a produção, com função preponderante na fotossíntese, no combate ao estresse, na fixação de estruturas reprodutivas, são substâncias que devem ser usadas durante todo o ciclo.

O uso de biorreguladores minimiza os efeitos do estresse nas plantas, causado por falta ou excesso de água, luminosidade e nutrientes, além dos ataques de pragas e doenças, reduzindo a produtividade e a viabilidade econômica das culturas. Dentre os fatores estressantes, temperaturas foliares elevadas e a falta de chuva tendem a prejudicar o desenvolvimento da soja, já que, para a obtenção do rendimento máximo, essa cultura necessita de água e temperaturas foliares em torno dos 30oC durante todo o ciclo.

Para combater ou minimizar os efeitos do estresse, o professor Gustavo Maia, da Universidade Federal de Pelotas/ RS, em seus estudos, ressalta que os biorreguladores têm se mostrado uma alternativa bastante efetiva, pois atuam em processos fundamentais para a sobrevivência e a manutenção do bom estado da planta, podendo amenizar os danos causados pelo estresse.

Quando a planta é afetada por algum estresse, acaba utilizando grande parte dos fotoassimilados nesse combate, refletindo assim na redução do crescimento, desenvolvimento e produção. “O uso do biorregulador Stimulate, utilizado no estudo, contribuiu de forma significativa para reduzir em mais de 20% as perdas de produção em ambientes com deficiência hídrica. Tal efeito se dá por uma influência positiva no processo fotossintético”, explica o professor.

São bem visíveis e expressivas as diferenças nas plantas de soja tratadas e não tratadas com biorreguladores

O principal processo afetado é a fotossíntese, devido a sua importância para a planta e para a produtividade, já que esse processo é o responsável pelo acúmulo de biomassa de interesse econômico, além da energia para o reparo dos danos dos estresses. Os biorreguladores precisam estar nas quantidades corretas e ser aplicados no momento certo para gerar as respostas fisiológicas desejadas.

O produtor deve ser criterioso no momento da escolha de produtos dessa linha, optando por aqueles que têm a garantia da presença dos reguladores, em termos de quantidade e qualidade, definidos no rótulo do produto. O emprego adequado desses produtos requer o seguinte: (a) a seleção do produto adequado para a finalidade- alvo; (b) o momento correto da aplicação do regulador vegetal para maximizar o seu efeito; (c) utilizar a dose correta do produto e de volume de calda para cobertura adequada. Deve-se seguir a recomendação das empresas para obtenção dos melhores resultados, pois o uso desses produtos apresenta alternativa para o produtor conseguir maior produtividade. O preço dos biorreguladores, bioativadores e biofertilizantes varia, mas seu benefício justifica o custo. O retorno do investimento deve ser obtido dentro da mesma safra agrícola, com a comercialização da colheita obtendo valor mais elevado, pela maior quantidade e qualidade da produção final.