Na Hora H

 

QUANDO VAMOS TER DE FATO GOVERNO?

ALYSSON PAOLINELLI

A Câmara dos Deputados cumpriu fielmente a sua missão e o Senado Federal vem fazendo o mesmo, conforme determina a nossa Constituição. O Governo interino vem tentando assumir as suas responsabilidades e vem também demonstrando que a crise política, moral, ética que estamos vivendo não é para ser resolvida por remendos ou esparadrapos. Isso já está claro. Vemos, no entanto, que as nossas lideranças políticas já sabem claramente por onde devem caminhar. Além de uma Constituição já por demais emendada, temos hoje uma figura nova única, capaz de substituir os nossos falidos partidos políticos. Essa figura é a vontade do povo na rua. Já temos claras demonstrações que o País não se contentará com conversas, acordos fortuitos ou tapeações. Agora o que o Brasil quer é Governo.

Na pouca caminhada que já demos após a decisão do impedimento, já vemos com clareza que é bom parar com as mazelas, a corrupção e, de uma vez por todas, eliminar o chamado jeitinho brasileiro. Está claro que aqueles que estão dispostos a assumir as posições verdadeiras de um novo Brasil terão definitivamente de abandonar as práticas já corriqueiramente aceitas e que agora, ao serem descobertas, nos envergonha a todos. O Governo provisório só será provisório se compreender bem isso. Se é difícil atravessar uma interinidade desta, muito mais difícil será realizá-la sem novos conceitos e novas regras que limpem de fato o cenário político brasileiro.

O que o povo brasileiro quer hoje não são somente novos partidos. O povo brasileiro quer novos homens, novos conceitos, novas formas de avaliação, que eliminem de fato os males que em pouco mais de uma década quebraram um País forte em termos de capacidade de transformação de seus recursos naturais em riquezas palpáveis. E que não aceita mais que essas riquezas sejam desvirtuadas ou roubadas pelos espertinhos.

O que mais queremos hoje é um País em cujas ações e transparências possa-se enxergar bem de onde estamos vindo e para onde vamos, sem nenhum risco de malandragens, conchavos ou jeitinhos. Isso é o que o chamado governo transitório precisa enxergar. Os riscos para se perder o caminho a ser tomado já aparecem em cada esquina e em cada canto. O que esperamos de fato é que aqueles que se dispõem a realizar a chamada transição não se esqueçam de que a vontade popular não pode ser deixada de lado. Queremos, sim, governo de fato.

Já afirmei nos últimos 20 anos que nunca tive medo da dívida externa brasileira. Desde que se tomou a decisão ainda na década de 1970 de mobilizar a nossa capacidade científica da Embrapa nas universidades na iniciativa privada, estamos dando demonstrações claras de que somos competentes para manejar os nossos recursos naturais (solo, água, plantas, animais e clima) e, sem degradá-los, manter crescente a nossa capacidade competitiva. Poderemos trocar essa política?

Da mesma forma, tenho confessado nesses últimos 20 anos que o meu maior medo não é na dívida externa, mas sim na dívida interna mobiliária, que desde 1995 vem crescendo descontroladamente, e que hoje, pelo que somos indiretamente informados, já ultrapassou a casa dos R$ 3 trilhões. Três trilhões de reais que no juro Selic de 14,25% ao ano nos fará gastar anualmente, só na rolagem dessa dívida, R$ 427 bilhões por ano. Sabemos que a equipe econômica até agora convocada é competente e séria, e esperamos que possa ser também confiável.

Alertamos, no entanto, que governo não se faz só de intenções. Governo exige ações. Alertamos mais uma vez que essa dívida é o nosso Calcanhar de Aquiles. Além dela, o que temos de esperar é que o governo transitório faça o Brasil voltar a crescer. Crescer mesmo. Para frente. E não crescer como rabo de cavalo, para baixo. Para isso, o segredo também é único. Onde somos competitivos? Onde somos capazes de atender as crescentes demandas mundiais e dar ao mundo a garantia de uma segurança alimentar que preocupa a todos? Não é aí que precisamos investir? Aguardamos, nós, brasileiros. Se necessário, nas ruas, essa resposta.

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura