Na Hora H

 

A CÂMARA TOMOU A DECISÃO. AGORA ESPERAMOS O SENADO. QUANDO, AFINAL, TEREMOS GOVERNO?

ALYSSON PAOLINELLI

Só na Constituinte, quando se julgava o direito de propriedade, e eu estava lá como deputado, vi tão grande mobilização dos produtores rurais e suas lideranças como ocorreu na semana que antecedeu a votação da Câmara dos Deputados sobre o impedimento da Presidente da República. Participei de parte delas como presidente da Associação Brasileira de Produtores de Milho (Abramilho), e como ex-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Confesso que fiquei realmente bem impressionado pela forma ordeira, racional, coerente, respeitosa, mas corajosa e marcante, com que todos os líderes que foram convocados se comportaram. As discussões foram muito racionais e coerentes, nas quais se colocaram sempre os supremos interesses do País e do setor que defendem.

Quero realçar aqui a corajosa posição tomada pela atual diretoria da CNA, que próxima à unanimidade deixou de forma clara a sua irredutível posição, mesmo quando a sua presidente licenciada, Kátia Abreu, se encontrava no atual Governo. Foi uma atitude dura e difícil, mas absolutamente esclarecedora da real posição dos líderes que hoje comandam aquela entidade. Não foi propriamente um rompimento com a presidente licenciada, pois, como informaram em suas notas, entre diversos fatos que levaram àquela atitude, consideraram que o episódio de apoio à Presidente Dilma, no Palácio do Planalto, em que um líder representante de uma entidade apoiadora da Presidente anunciou que, em represália ao julgamento, iriam promover as invasões de propriedades produtivas. Ele foi aplaudido por todos e nem foi advertido pelo crime que incitava.

A própria Presidente, em sua fala, sequer admoestou ou repreendeu pelo abuso de proposta de crime claro.

Vejo que esse foi o copo d’água que faltava à classe rural brasileira para a ruptura definitiva com o Governo instalado. Creio que por essa provocação a classe rural brasileira teve de assumir a impetuosa posição no movimento que se programou. O presidente em exercício da CNA, João Martins, recebeu de vez o apoio integral de todas as entidades e associações que se reuniram em torno de suas decisões. Queremos e desejamos todos que essa nova liderança rural se coloque como firme condutor em nossa trincheira de lutas. A nossa trincheira tem de ser respeitada, pois ali estão os que fazem a manutenção econômica, alimentar e de estabilidade em nossas contas totalmente em frangalhos pelos desgovernos que as deturparam. A nossa classe tem de ser consultada e ouvida sobre os rumos e as pessoas que irão assumir as responsabilidades diretivas de nossas políticas, sejam econômicas, agrícolas e a elas relacionadas. Chega de sermos simples carregadores de piano ou de economias falidas. Queremos ser ouvidos e participarmos efetivamente nas decisões e execuções na busca de nossas verdadeiras oluções.

Se não quiserem nos ouvir, não participaremos de Governos que se organizem sob a forma dos conchavos ou trocas que nunca premiam a competência e a boa solução. Temos de deixar bem claro que não aceitamos mais roubos, safadezas, irresponsabilidades e desgovernos. Queremos ter a nossa condição de produzir e competir em pé de igualdade com os nossos competidores. Exigimos seriedade nos gastos públicos e na administração de nossa economia. Não queremos cambalachos nas obras públicas que deverão ser feitas sob a égide da própria sociedade, que de forma transparente possa se manifestar sobre as suas lisuras. Exigimos a modernização da administração pública, e que, de preferência, possa encampar as parcerias. Temos de exigir uma nova Política Pública como sabemos fazer e já foi feita neste País, e não malbaratar e desperdiçar os custosos recursos que o setor tem conseguido. Temos de ter enfim o respeito e o reconhecimento pelo muito que estamos fazendo por esta Nação.

Agora estamos iniciando uma nova luta, que é levar o Senado da República a fazer o julgamento final do impedimento de quem não soube honestamente governar o nosso País. É a última etapa para nos livrarmos de uma chaga que nos atormentou. Não vamos nos dispersar. Apoiaremos de forma firme as nossas lideranças que forçosamente terão de tomar novas posições nos embates que ainda se preveem. A fé e a esperança hoje são maiores do que ontem. Permaneçamos unidos e certos de que não mais nos enganarão.

Engenheiro agrônomo, produtor e ex-ministro da Agricultura