Eduardo Almeida Reis

 

MYANMAR

Pyidaunzu Thanmãda Myãma Nainngandaw ou República da União de Myanmar, que ninguém sabe onde fica, já foi a Birmânia, fala uma porção de línguas e oficialmente o birmanês, idioma tibeto-birmano do grupo sinotibetano, tornou-se independente do Reino Unido em 1948, tem cerca de 55 milhões de habitantes, IDH baixo, foi governada pelos militares de 1962 a 2011.

Fotos das recentes eleições naquele país, que é o maior do Sudeste da Ásia com área equivalente à soma dos nossos estados de Santa Catarina e Minas Gerais, mostraram ao mundo que o mianmarense usa chapéu esquisitíssimo, uma espécie de cuia com pequena lateral que balança.

O que levaria os atuais habitantes do país a adotar aquele chapéu? Presumese que Myanmar seja habitado no vale do baixo Irauádi desde 900 a.C. pelo grupo étnico dos mons, praticantes do budismo teravada, literalmente o “Ensino dos Sábios”.

Assustadíssimo, o caro e preclaro leitor de A Granja deve estar se perguntando sobre a relação entre o chapéu de Myanmar e uma revista agropecuária. Explico: é comparável ao critério de escolha das raças bovinas no mundo inteiro, com exceção das terras altas da Escócia onde o bom senso recomenda a criação da Scottish Highlander, uma das primeiras raças de bovinos registrados.

Por quê? Ora porque é Noroeste da Escócia e do arquipélago de Hébridas, onde suas características naturais se desenvolveram ao longo dos séculos de seleção natural: gado robusto, longevo e de boa índole. Passa o ano inteiro fora do estábulo, mesmo em terrenos acidentados, e fornece leite magro e carne com colesterol reduzido. A fonte que me abastece escreve “pouco colesterol”, mas respeito os ouvidos alheios e fujo dos cacófatos.

Há cerca de 30 anos, a Scottish Highlander foi “descoberta” pelos suíços do cantão de Ticino, de Centrovalle e de Gesero. No Vale de Colla já se criam centenas de vacas das Terras Altas da Escócia. Resumindo, é raça dócil, simpática e aguenta um frio desgraçado, ao contrário de outras que dependem de muita ração no cocho e bebedouros elétricos para descongelar a água nos invernos de 44 graus negativos de Alberta, no Canadá.

Quando me aventurei na produção leiteira, lá se vão mais de 40 anos, havia o consenso de que a mais leiteira das raças era a Holandesa malhada de preto, observadas as restrições impostas pelo clima brasileiro. Contudo, logo fiz amigos ilustres, inteligentes, bem-sucedidos nos negócios urbanos, dizendo que boa mesmo, no Brasil, era a Holandesa malhada de vermelho. Como também havia partidários das raças Jersey, Suíça, Gir, Guzerá e inúmeras outras.

Pensei, e continuo pensando, que a produção de leite nos trópicos passa pela formação de um gado euro-indiano. Naquele tempo ainda não existia a raça Girolanda, que hoje faz sucesso. Por isso, embarquei no gado Pitangueiras contando com o respaldo de um frigorífico multinacional, mas os donos do frigorífico brigaram feio, dividiram a empresa e o projeto Pitangueiras dançou. Dancei com ele e não perdi dinheiro, porque vaca adaptada ao meio é bicho abençoado.

Em 40 anos de estrada rural fiz muita bobagem e assisti a muitas outras. Um amigo-irmão, brilhante executivo de multinacional, importou 100 holandesas do Uruguai para sua fazenda fluminense, em um dos lugares mais quentes do Estado do Rio. Perdeu todas. Causa mortis: carrapatos. Bicho tão desgraçado que a fêmea é virgem e o macho não tem pênis: se ajeita com o nariz.

Robert A. Wallace, zoólogo, PhD pela Universidade do Texas, escreveu O Sexo Entre os Animais, livro divertidíssimo publicado no Brasil pela Freitas Bastos. É o tipo do livro para ser procurado e comprado nos sebos. A baleia- azul, maior animal que já existiu neste planeta, mamífero que pode atingir 30 metros de comprimento e 120 toneladas, também é virgem e o pênis de seu marido e senhor alcança 30 centímetros de diâmetro e três metros de comprimento. Diz Wallace que o acasalamento balenopterídeo é um espetáculo da natureza envolvendo mergulhos às profundezas dos oceanos e saltos impressionantes.

Hoje, se tivesse uma recaída leiteira, tenho a certeza de que embarcaria na raça Girolanda. Não para bater recordes, mas pensando em um rebanho de média razoável durante 305 dias e um bezerro/ano. Não é o melhor negócio do mundo, mas é divertido e vicia apesar das dificuldades no capítulo da mão de obra. Dos milhões de brasileiros desempregados são raros os que se animam a trabalhar na roça por dois salários- mínimos, casa, luz, carteira assinada, pomar da sede e dois litros de leite, que sempre se transformam em cinco. É um mistério e não sou pago para desvendar mistérios.