Plantio Direto

 

HISTÓRIA do plantio direto do arroz irrigado no Rio Grande do Sul

Eng. Agr. Ivo Mello, coordenador Regional Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) Fronteira Oeste, conselheiro Irrigantes CNRH

O sistema plantio direto (SPD) é com certeza uma das mais importantes revoluções na agricultura mundial dos últimos 40 anos. Nas décadas de 1980 e 1990, a quantidade de erosão dos solos evitada pela adoção dos princípios do SPD é, sem dúvida, um grande avanço da agricultura no sentido de ser mais equilibrada em relação à intensidade de degradação dos recursos naturais pela atividade antrópica para produzir alimentos, fibras e energia.

Como consequência da diminuição das operações de preparo de solo, a economia de recursos como maquinário e combustíveis foi também um importante motivador para a evolução do SPD, principalmente na busca da competitividade da agricultura das Américas no final do século XX.

Todas as vantagens listadas pelos estudiosos para o SPD de coxilha passaram a contribuir para o desenvolvimento sustentável da lavoura de arroz

Pois com essas motivações ainda quando o movimento era incipiente (início dos anos 1980), alguns produtores de arroz irrigado do Rio Grande do Sul estabeleceram áreas experimentais em suas lavouras com o objetivo de aprender e adaptar a tecnologia que avançava nas áreas de cultivo de sequeiro em solos do planalto do estado.

Entre eles, destacamos o fundador e primeiro presidente do Clube do Plantio Direto com Cultivo Mínimo de Arroz Irrigado, em 1985, Eurico Faria Dorneles, que estabeleceu sua primeira experiência de campo na Fazenda Cerro do Tigre, em Alegrete/RS, utilizando os princípios do SPD na safra 1983/84.

Importante registrar que na década de 1960 o Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), através de seus pesquisadores, estabeleceu um experimento de campo testando o plantio de arroz sem o preparo de solo. Consta nos registros desses profissionais que não aconselharam o investimento dos produtores no sistema de cultivo direto sem preparo pelo fato de obterem produtividade muito baixa, por não lograrem adequado controle de invasoras (indisponibilidade de herbicidas).

Assim como os pioneiros do SPD em soja, trigo e milho, os agricultores que iniciaram as experiências com a semeadura direta do arroz nas áreas com maior dificuldade de drenagem eram taxados de "malucos"

O Clube do Plantio Direto de Arroz Irrigado fundado, espelhado nos Clubes Amigos da Terra (CAT), desenvolveu importante papel nessa conexão da rede do plantio direto. Atuando em todas as regiões arrozeiras do estado através de coordenadores regionais, o Clube dos arrozeiros interessados em inovar e garantir competitividade através do SPD, permitiu a conexão e o intercâmbio de informações necessárias para a evolução do plantio direto em arroz irrigado. E ao mesmo tempo, a associação manteve-se conectada com a rede nacional do sistema plantio direto, sendo um dos fundadoras da Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha (Febrapdp), em 1992.

Juntamente com os CATs e outras instituições apoiadoras do sistema, atendendo demandas crescentes pelos temas da nova tecnologia que estava revolucionando o agronegócio da época, fundouse uma entidade associativa cujo rol desde o início se alinhou com o perfil de utilidade pública, considerando os benefícios dentro e fora da parteira do agricultor. Segundo o nosso colega John Landers, os benefícios do SPD dentro da porteira somam somente 35%, sendo o restante desfrutado de forma gratuita pela sociedade como um todo.

No ano de sua fundação, em 1985, o Clube do Plantio Direto de Arroz Irrigado organizou o 1º Seminário de Gramado/ RS. O objetivo desse evento era promover a troca de experiências entre agricultores, indústria e pesquisa visando à adaptação e ao aprimoramento das práticas de manejo necessárias ao SPD de arroz. Diferentemente dos CATs, que aproximavam agricultores de uma mesma localidade com esses objetivos, os arrozeiros interessados em desenvolver o sistema para as áreas de várzea pertenciam a várias regiões da Metade Sul do RS. Por isso, adotaram a estratégia de promover encontros regionais e um grande encontro anual em Gramado que acabou se tornando um evento tradicional com esse objetivo.

O desafio do SPD com cada vez menos operações de distúrbio do solo continua para as novas gerações de pesquisadores, técnicos e produtores

“Malucos” — Assim como os pioneiros do SPD para as culturas de coxilha como soja, trigo e milho, os agricultores que iniciaram as experiências com a semeadura direta do arroz nas áreas com maior dificuldade de drenagem eram frequentemente taxados de “malucos”, pois para os conceitos e as tradições da agricultura na época, semear sem preparar a terra era uma afronta a tudo que se conhecia em termos de cultivos. Para vencer essas crenças, o arrojo e o empreendedorismo dos pioneiros foram fundamentais, mas também o apoio de visionários do setor industrial como gestores e técnicos da Monsanto e da Semeato, que desempenharam papel importante nas primeiras experiências de campo.

Mas nem tudo são flores. Diferentemente do SPD da coxilha de sequeiro, o arroz é irrigado por inundação superficial e, para isso, necessita de uma infraestrutura de irrigação que, na época, era construído após a semeadura: as taipas ou marachas em nível compõem até hoje o sistema de irrigação que garante a distribuição uniforme da água em toda a arrozeira. Essa era uma dificuldade a mais para a adaptação do SPD no arroz irrigado, pois após realizar um plantio nos moldes preconizados, dessecando a cobertura vegetal de inverno (palhada) e semeando diretamente no solo estruturado, o sistema de taipas era construído.

As lavouras ficavam de um jeito nas taipas e de outro totalmente diferente nos quadros entre elas. Como o plantio direto com cultivo mínimo de arroz foi importante ferramenta para o controle de arroz vermelho daninho, era comum visualizar os quadros com um controle eficiente e as taipas com uma infestação aguda. Essa característica limitava o uso do SPD, já que, quanto maior a declividade, mais taipas e menos manejo com SPD, pois essas estruturas acabavam totalizando uma área significativa da lavoura com preparo convencional deficiente que limitava o manejo determinando menores produtividades.

Desafiados por essas características, nos preparativos da safra 1988/89, duas equipes de lavouras da região da Fronteira- Oeste iniciaram experiências com a instalação de estruturas de irrigação (taipas) de base larga construídas previamente ao plantio visando à semeadura direta em quaisquer partes do terreno (quadro e taipa). No verão de 1988, na Fazenda Cerro do Tigre, com solos planos, construíram-se taipas com desenho retificado, levantando-se a estrutura da mesma forma que se constrói um terraço – várias passadas de arado e, com uma caçamba, puxando material para preencher o leiveiro. O projeto era de diminuir o curso dos equipamentos de semeadura ao máximo possível, para que eles pudessem “copiar” as taipas e depositar uniformemente sementes em todo o perfil alterado de solo.

Já na Granja Novos Ares, em Uruguaiana/ RS, com solos apresentando maior declividade, um equipamento precursor da taipeira de base larga desenhava estruturas muito mais suaves que as taipeiras tradicionais, e adaptou-se uma semeadeira de plantio direto com o formato da estrutura de irrigação permitindo a deposição uniforme de semente em todo o perfil.

Incentivados pelo Clube do Plantio Direto de Arroz Irrigado, as duas equipes trabalharam seus projetos em conjunto na safra seguinte, desenvolvendo em parceria com a Semeato os protótipos da taipeira de base larga e sistema de articulação da semeadora para que seus equipamentos de deposição de sementes e adubo pudessem “copiar” as curvas do terreno uniformemente. Estava inventado e testado o sistema de cultivo em estruturas de irrigação de base larga, que passou a ser utilizado maciçamente pelos arrozeiros do RS. Mesmo os que não eram adeptos do SPD passaram a utilizar esse sistema no cultivo de arroz por ser muito mais funcional e permitir melhor aproveitamento da infraestrutura da granja.

Mesmas vantagens — Todas as vantagens listadas pelos estudiosos para o SPD de coxilha passaram a contribuir para o desenvolvimento sustentável da lavoura de arroz: economia de combustíveis, otimização de maquinário e mão de obra, diminuição da quantidade de químicos e, principalmente, melhor aproveitamento da janela ótima de semeadura. Foi muito importante nessa fase inicial a contribuição do cultivo mínimo para o controle do arroz vermelho, recolocando em produção algumas áreas onde a produção estava comprometida pela dificuldade de controle dessa importante invasora.

Em janeiro de 1994, quando comemorávamos dez anos do início da adoção do SPD em arroz irrigado na Fazenda Cerro do Tigre, o Clube do Plantio Direto de Arroz Irrigado organizou um evento com demonstrações dinâmicas a campo, a qual denominamos Expodireto Arroz Irrigado. Foi um marco para o setor, pois se comemorou a consolidação de uma tecnologia que é intensamente utilizada até nossos dias.

Cultivo mínimo — Devido às características dos solos arrozeiros, principalmente nos anos mais chuvosos, é muito difícil encerrar um ciclo anual de cultivo de arroz sem ocasionar danos à superfície do solo que prejudicam quaisquer operações de semeadura planejadas para a rotação. Por esse motivo, ainda utilizamos em grande escala o que se denomina cultivo mínimo, quando o produtor busca constantemente a minimização das operações de preparo de solo em sistemas arrozeiros.