Inseticidas

 

O manejo da RESISTÊNCIA de insetos

A resistência de insetos a inseticidas ou plantas Bt tem comprometido as práticas de MIP em milho, soja e algodão. Para minimizar a possibilidade da seleção de insetos resistentes, alguns procedimentos podem ser adotados – obrigações de todos

Oderlei Bernardi, [email protected], e Celso Omoto, [email protected], do Departamento de Entomologia e Acarologia, Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq/USP)

A resistência de insetos a inseticidas ou plantas Bt tem comprometido as práticas de Manejo Integrado de Pragas (MIP) em culturas como o milho, soja e algodão. A resistência é uma consequência do uso repetido de inseticidas ou plantas Bt contendo o mesmo princípio ativo ou de princípios ativos distintos, porém, com o mesmo modo de ação. Alguns insetos de uma população da praga podem sobreviver às aplicações iniciais de um inseticida ou à exposição a uma determinada planta Bt que foi concebida para matá-los, e isso pode ser devido à resistência, que é uma característica genética.

Os indivíduos resistentes que sobrevivem ao inseticida ou a proteína(s) Bt irão repassar essa característica para seus descendentes, levando ao aumento da frequência de resistência, caso estratégias de manejo da resistência não sejam implementadas.

No caso de inseticidas, geralmente os produtores acreditam que os sobreviventes não receberam uma dose letal. Normalmente, eles reagem aumentando a dose e a frequência de aplicação ou substituem o produto por outro, geralmente mais tóxico, o que resulta em perda de insetos suscetíveis e aumento dos resistentes. Quando os insetos são resistentes a um determinado inseticida ou proteína Bt, eles podem evoluir mais rapidamente para resistência a novos inseticidas ou proteínas Bt, com modo de ação similar ou semelhante via de desintoxicação.

Existe uma grande preocupação com a resistência, pois não se pode contar com um fluxo constante de novos inseticidas ou plantas Bt para controle dos insetos resistentes, pois a resistência está se espalhando em uma taxa crescente, enquanto o desenvolvimento de novas tecnologias diminuiu drasticamente. Com a grande adoção de plantas Bt, em especial milho, algumas espécies-praga (Spodoptera frugiperda, por exemplo) tiveram a suscetibilidade restabelecida para alguns inseticidas. Por outro lado, os sérios problemas fitossanitários com espécies como Spodoptera frugiperda, Helicoverpa armigera, Chrysodeixis includens, Bemisia tabaci, percevejos e ácaros em culturas como milho, soja e algodão exigem que o manejo da resistência seja extremamente efetivo para minimizar a chance de seleção de resistentes.

A resistência é uma mudança hereditária na suscetibilidade de uma população da praga que se reflete na falha repetida de um produto em atingir o nível de controle esperado, quando utilizado de acordo com a recomendação para determinada espécie-praga (IRAC - Insecticide Resistance Action Committee). Em termos práticos, a resistência ocorre quando existem insetos resistentes em número suficiente para provocar dano econômico em uma determinada cultura devido a falhas no controle. No caso de plantas Bt, os resistentes devem sobreviver sobre a planta Bt e gerar descendentes.

A resistência compromete qualquer programa de MIP, em vista do uso mais frequente de inseticidas, uso de doses acima do recomendado, uso de misturas inadequadas, eliminação de inimigos naturais, maior contaminação do meio ambiente, elevação nos custos de produção e comprometimento ou perda de táticas de controle. Portanto, a adoção de estratégias de manejo da resistência deve ser considerada pelos produtores em suas propriedades. O manejo da resistência de insetos a inseticidas e plantas Bt é um conjunto de medidas que tem o objetivo de reduzir o risco de seleção de insetos resistentes nas populações de pragas-alvo de controle.

Recomendações para o manejo da resistência a plantas Bt — O uso de inseticidas, de acordo com os princípios do MIP, é a chave para retardar ou evitar a resistência e prolongar a “vida útil” desses compostos. Sendo assim, as estratégias de manejo da resistência devem ser preventivas, ou seja, serem implementadas antes que falhas de controle ocorram devido à resistência. Para minimizar a possibilidade da seleção de insetos resistentes, alguns procedimentos podem ser adotados, tais como os seguintes:

Monitoramento das pragas: monitorar a cultura regularmente para identificar a presença de pragas e inimigos naturais, estimando a população de insetos e acompanhando o estágio de desenvolvimento das pragas. O inseticida só deve ser usado quando a densidade populacional das pragas atingir o nível de ação.

Rotação de inseticidas com modos de ação distintos: recomenda-se o uso de rotação de inseticidas com diferentes modos de ação, visto ser considerada a estratégia mais eficiente para reduzir a seleção de insetos resistentes para um determinado grupo químico de inseticidas (Quadro 1). Não se deve reduzir ou aumentar as doses recomendadas pelo fabricante, pois isso pode acelerar o desenvolvimento da resistência.

Uso de inseticidas seletivos: a preservação dos inimigos naturais (parasitoides e predadores) pode manter as populações de insetos-praga abaixo do nível de dano econômico, reduzindo assim a necessidade de uso de inseticidas e a seleção de resistentes.

Verificação dos equipamentos de pulverização: calibrar os equipamentos para obter uma pulverização de boa qualidade, usar a pressão e os volumes recomendados. Geralmente, os fracassos no controle de pragas estão associados à calibragem deficiente dos equipamentos de pulverização e/ou pulverização em alta densidade populacional da praga, fato que compromete a eficiência dos inseticidas e pode permitir a sobrevivência dos resistentes.

Tratamento de sementes com inseticidas: as sementes tratadas com inseticida podem oferecer controle de pragas durante as fases iniciais de estabelecimento e desenvolvimento da cultura e retardar a necessidade de pulverização de inseticidas foliares.

Rotação de culturas: planejar o sistema de produção de cultivos (rotação de culturas) para garantir um período do ano sem cultivo de plantas hospedeiras de insetos-praga e minimizar a exposição a inseticidas e a proteínas Bt com o mesmo modo de ação, permitindo o restabelecimento da suscetibilidade. Isso é particularmente importante, pois o controle de pragas do milho, por exemplo, pode ter influencia no controle das mesmas pragas em soja e algodão, e vice-versa, bem como das práticas adotadas na entressafra. Devido à alta mobilidade de alguns insetos, as estratégias de manejo da resistência devem ser implementadas no âmbito regional para serem mais efetivas.

Gerenciar resto de cultura póscolheita e plantas voluntárias: fazer o controle do campo durante a dessecação pré-plantio com um herbicida e, se forem observados insetos nos resíduos da plantação, o uso de inseticidas aplicados via foliar é recomendado para controle.

Recomendações para o manejo da resistência a plantas Bt: alta dose e refúgio — A alta dose visa garantir que a concentração da(s) proteína(s) na planta Bt ocasione a mortalidade dos descendentes resultantes do cruzamento dos insetos resistentes sobreviventes na área Bt, com insetos suscetíveis provenientes da área de refúgio. A área de refúgio consiste no plantio de uma variedade de porte e ciclo iguais ao da área cultivada com plantas Bt, ou seja, é a área onde a praga não é exposta à seleção pela planta Bt.

Em outras palavras, o refúgio funciona como um “reservatório” de insetos suscetíveis. Assim, espera-se que os insetos suscetíveis do refúgio se acasalem com qualquer resistente que sobreviver na área Bt e, desse modo, mantenha a suscetibilidade ao Bt nas gerações futuras das pragas. Portanto, para que seja possível o acasalamento de insetos resistentes com os suscetíveis, a área de refúgio deve ser implementada conforme recomendação.

Plantas com duas ou mais proteínas Bt (pirâmide de genes) — O princípio básico dessa estratégia é que cada proteína Bt ocasione elevada mortalidade da mesma praga-alvo. Em outras palavras, cada proteína Bt deve matar todos ou a maioria dos insetos suscetíveis, ou seja, esses insetos serão mortos “duas vezes”. Em contraste, os insetos resistentes a uma das proteínas serão mortos pela(s) outra(s) proteína(s). Deve-se dar preferência para o uso de plantas Bt que expressem duas ou mais proteínas, especialmente para o controle de Spodoptera frugiperda que possui resistência a Cry1F e Cry1Ab. Além disso, dar preferência ao uso de plantas Bt que expressam proteínas de grupos distintos (Cry1, Cry2 ou Vip3A), pois proteínas do grupo Cry1 se ligam no mesmo receptor no intestino dos insetos e podem favorecer a seleção de insetos resistentes (Quadro 2). Para plantas Bt que expressam duas ou mais proteínas é igualmente importante adotar o refúgio para evitar ou retardar a resistência.

No caso do algodão, o tamanho da área do necessário refúgio é de 20% para o cultivo da pluma não- Bt, mesmo percentual para a soja, e 10% para o milho

Considerações finais — No sistema brasileiro de produção de cultivos (milho, soja e algodão), o estabelecimento de estratégias de manejo da resistência é de extrema urgência para a preservação da “vida útil” dos inseticidas e plantas Bt. Não obstante, o uso adequado das táticas de controle, implementação de práticas de MIP e planejamento do sistema de produção são indispensáveis ao sucesso das estratégias de manejo da resistência.

Nos últimos anos, houve avanços no manejo da resistência de insetos a inseticidas e plantas Bt. Esses avanços estão ligados ao treinamento e à formação de pesquisadores especializados em diversas instituições de pesquisa e ensino (Embrapa, Esalq, UFV e outros) e de um Comitê Brasileiro de Ação à Resistência a Inseticidas (Irac-BR) em 1997.

Esse comitê é composto por representantes de várias indústrias químicas e tem por objetivo manter todas as táticas de controle viáveis, através de um programa de parceria com instituições de pesquisas, extensionistas e produtores para o uso de inseticidas e plantas Bt de maneira sustentável.

Recentemente, também foi instituído o Grupo Técnico de Manejo da Resistência (GTMR) no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, pela Portaria nº 950, de 24 de setembro de 2014, para estabelecer diretrizes visando à preservação de plantas Bt no Brasil. Para o futuro, os esforços na conscientização do uso correto de inseticidas, adoção de áreas de refúgio para plantas Bt e o monitoramento da resistência devem ser intensificados, pois casos de resistência têm sido reportados com frequência. O manejo da resistência é responsabilidade de todos, faça sua parte!