Fitossanidade

 

Combate ao MOFO-BRANCO na lavoura de soja

O fungo causador da doença pode reduzir a produtividade em até 70%. Problema exige a adoção de medidas integradas de manejo

Maurício C. Meyer e Cláudia V. Godoy, pesquisadores da Embrapa Soja, de Londrina/PR

O mofo-branco, causado pelo fungo Sclerotinia sclerotiorum (Lib.) de Bary, é uma das doenças de plantas mais antigas no mundo, afetando mais de 400 espécies, inclusive a soja. Seus danos se manifestam com maior intensidade em regiões com clima chuvoso, temperatura amena e alta umidade Maurício Meyer relativa do ar.

Lavoura de soja altamente atacada por mofo-branco. Manutenção da umidade do solo é fundamental para o desenvolvimento da doença

Os primeiros registros de mofo-branco na cultura da soja no Brasil foram reportados no final da década de 1970, mas sua ocorrência permaneceu limitada e de forma esporádica em alguns altiplanos do Sul e do Centro-Oeste. A partir da safra 2006/07 observou-se um aumento significativo na ocorrência e nos níveis de danos nas lavouras de soja, tanto nas áreas mais altas do Cerrado, como nas áreas mais tradicionais de cultivo do Sul e do Sudeste, chegando a reduzir a produtividade em até 70%. Estima-se que cerca de 23% da área de produção de soja brasileira esteja infestada pelo patógeno, compondo aproximadamente 7,2 milhões de hectares que necessitam da adoção de medidas integradas de manejo da doença.

Lesões de mofobranco em plantas de soja tratadas com fungicidas (direita) e não tratadas (esquerda)

Os estados mais afetados pelo mofo-branco são Goiás (com mais de 2 milhões de hectares infestados), Bahia, Mato Grosso e Paraná (de 1 a 2 milhões de hectares infestados), Minas Gerais (com 500 mil a 1 milhão de hectares infestados) e Mato Grosso do Sul, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul (com menos de 500 mil hectares infestados).

Principal fonte de infecção - Uma característica marcante do patógeno é a produção de escleródios, que são estruturas de sobrevivência formadas por aglomerados de hifas, comumente arredondados ou alongados, de coloração preta e consistência firme. O escleródio pode germinar de forma carpogênica ou miceliogênica, desencadeando novos ciclos da doença.

Pesquisador Maurício Meyer: em torno de 7,2 milhões de hectares necessitam da adoção de medidas integradas de manejo da doença no Brasil

A produção de apotécios a partir dos escleródios é chamada de germinação carpogênica e é a principal fonte de infecção na cultura da soja. Dentro dos apotécios se formam os esporos do fungo, denominados ascósporos, que são liberados sob pressão e, literalmente, ejetados dos apotécios, o que facilita atingirem as flores da soja, onde encontram excelente condição de germinação e início da infecção. A germinação miceliogênica é caracterizada pelo crescimento de micélio branco a partir dos escleródios, importante para a infecção em algumas culturas cujas plantas apresentam tecidos mais tenros e próximos ao solo, como feijoeiro, girassol, tomateiro, ervilha, etc.

A manutenção da umidade do solo é fundamental para o desenvolvimento da doença, pois a germinação dos escleródios depende de alta umidade (chuvas frequentes), de temperaturas entre 15°C e 25°C, e de pouca incidência de luz solar. Pela dependência dessas condições, a ocorrência de mofo-branco em soja varia de intensidade entre as safras.

O fungo é capaz de infectar qualquer parte da planta de soja, porém, as infecções iniciam-se com maior frequência a partir das inflorescências, das axilas, dos pecíolos e dos ramos laterais. O fungo pode atacar toda a parte aérea da planta, afetando folhas, hastes e vagens. A planta da soja infectada apresenta, inicialmente, lesões aquosas, de onde crescem hifas, formando abundante micélio branco, o que caracteriza o nome da doença.

Os tecidos atacados necrosam em consequência da ação das diversas toxinas produzidas por S. sclerotiorum. Nessa fase, pode ser observado o apodrecimento de ramos, vagens e folhas, ou mesmo a haste principal com morte de toda a planta. Os escleródios são formados tanto na superfície como no interior das hastes e das vagens infectadas, podendo se desprender sozinhos ou serem lançados ao solo durante a colheita, aumentado o inóculo na área.

Prevenção e controle - O manejo da doença tem como objetivos a redução do inóculo (escleródios no solo), a redução da incidência e de sua taxa de progresso. A redução de inóculo é conseguida pela inviabilização dos escleródios no solo e pela diminuição da produção de escleródios nas plantas doentes, através de medidas como: formação de palhada para cobertura uniforme do solo, preferencialmente oriunda de gramíneas; rotação e/ou sucessão com culturas não hospedeiras; emprego de controle biológico por meio da infestação do solo com agentes antagonistas; utilização de sementes de boa qualidade e tratadas com fungicidas; emprego de controle químico, por meio de pulverizações foliares de fungicidas no período de maior vulnerabilidade da planta (R1 a R4).

Para a redução da incidência do mofo-branco e de sua taxa de progresso, as seguintes medidas são importantes: escolha de cultivares com arquitetura de plantas que favoreça uma boa aeração entre plantas (pouco ramificadas e com folhas pequenas) e com período mais curto de florescimento, e a utilização de população de plantas e espaçamento adequados às cultivares.

Outra medida que contribui na redução da dispersão do fungo S. sclerotiorum é a limpeza de máquinas e equipamentos após utilização em área infestada para evitar a disseminação de escleródios para novas áreas. A efetividade do controle do mofo-branco em soja só é conseguida com a integração dessas medidas, não apresentando resultados satisfatórios isoladamente.

Em condições de campo, escleródios podem ser atacados e degradados por microparasitas como fungos e bactérias. Dentre esses microrganismos, algumas espécies do fungo Trichoderma e da bactéria Bacillus destacam-se entre os antagonistas mais utilizados no manejo de patógenos habitantes do solo, existindo formulações comerciais registradas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e indicadas para o controle da doença.

Semeadura direta - A aplicação dos antagonistas deve ser feita antes da germinação dos escleródios, ou seja, quando os escleródios se encontram em repouso na superfície do solo, na fase inicial de desenvolvimento vegetativo da soja (entre V2 e V4). Para o bom funcionamento do controle biológico, condições de ambiente semelhantes às que favorecem a germinação dos escleródios são necessárias para o estabelecimento dos agentes de biocontrole, cujas estruturas de reprodução são mais sensíveis e dependentes de umidade e sombreamento do solo, assim como de temperaturas amenas. Por essa razão, o sistema de semeadura direta sobre palhada de gramíneas tem se mostrado um pré-requisito para o sucesso dessa medida de controle.

Resultados de três anos dos ensaios cooperativos de controle biológico de mofo-branco em soja, conduzidos em várias regiões do Brasil, indicaram que os agentes de biocontrole reduziram a germinação carpogênica de 39,3% a 56%, o que representa importante contribuição no manejo da doença e indica que o controle químico deve ser também empregado, em conjunto com o controle biológico, protegendo as plantas dos ascósporos produzidos pelos escleródios remanescentes.

Trabalho também na entressafra - Os melhores níveis de controle químico observados nos ensaios cooperativos foram obtidos com os fungicidas fluazinam e procimidona, pulverizados isoladamente ou em associação com tiofanato metílico ou carbendazim, variando de duas a quatro pulverizações em intervalos de 10 dias, iniciando no momento de pré-fechamento das entrelinhas (cultivares de crescimento indeterminado) ou estádio R1 de desenvolvimento das plantas (cultivares de crescimento determinado). Os fungicidas dimoxistrobina + boscalida e fluopyram também apresentaram elevado nível de controle com duas aplicações em intervalo de 10 dias iniciando em R1, semelhante ou superior a fluazinam e procimidona. O fungicida fluopyram encontra-se em fase de registro para uso no Brasil. Esses mesmos fungicidas proporcionaram as menores reduções de produtividade da soja devido ao controle da doença e às maiores reduções de produção de escleródios de S. sclerotiorum nas plantas infectadas, variando de 57% a 72%.

Contudo, considerando que ainda ocorre produção de escleródios, mesmo que reduzida em função do controle químico, as demais medidas de manejo devem ser adotadas com a finalidade de inviabilização desstes escleródios durante a entressafra, promovendo o manejo integrado da doença.