Mecanização

 

MECANIZAÇÃO: uso planejado no gerenciamento da propriedade

A utilização das máquinas agrícolas pode representar até 40% dos custos em uma propriedade, o que justifica seu planejamento nos trabalhos. O índice de mecanização pode ser avaliado pelo número de hectares por unidade de potência, tratores por propriedade, área colhida por colhedoras ou potência utilizada por hectare

Marcelo Silveira de Farias, Juan Paulo Barbieri, Alfran Tellechea Martini, Giácomo Müller Negri, do Núcleo de Ensaios de Máquinas Agrícolas (Nema), da Universidade Federal de Santa Maria/RS

Amecanização agrícola é um dos fatores essenciais que permitem que uma economia em expansão possa assegurar e manter níveis suficientes de produções agropecuárias. Com o objetivo de conhecer e comparar a situação da mecanização em diversas regiões e países, organismos internacionais e instituições de pesquisa desenvolveram o índice de mecanização agrícola, que pode ser expresso através do número de hectares por unidade de potência, número de tratores por propriedade, área colhida por colhedoras automotrizes ou potência utilizada por hectare.

Nesse contexto, cada agricultor, isso é, cada sistema de produção agrícola, região ou cultura tem sua própria intensidade de mecanização. O grau de desenvolvimento do País também determina o índice de utilização das máquinas agrícolas. O Brasil, embora seja um país em desenvolvimento, tem principalmente nas Regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste uma agricultura tecnificada e diferente da maioria dos países, como se pode citar a África, a Ásia e também a América do Sul, os quais basicamente trabalham com a agricultura eminentemente familiar, com uso intensivo da mão de obra e da tração animal.

Frota pronta para o início da jornada de trabalho: o planejamento tem por objetivo diminuir a ociosidade e o uso ineficiente de máquinas e implementos na propriedade

O índice de mecanização tende a ser menor para as propriedades com maior área. Dessa forma, diversos estudos apontam que a maior disponibilidade de potência de tratores agrícolas ocorre nas propriedades de pequeno porte, a qual é evidenciada pelos seus altos índices de mecanização, demonstrando menor distribuição do investimento por unidade de área, permitindo, entretanto, maior cuidado no trabalho e maior tempo para a realização das operações agrícolas. De acordo com alguns pesquisadores, a utilização de máquinas agrícolas pode representar até 40% dos custos totais de produção, o que justifica a necessidade do seu planejamento, promovendo a busca pela melhoria dos sistemas gerenciais por meio do aproveitamento dos recursos produtivos disponíveis.

Planejamento da mecanização agrícola — Planejar uma propriedade rural pode parecer uma tarefa fácil, principalmente quando se refere à utilização de máquinas agrícolas, porém é uma atividade complexa. O planejamento da mecanização agrícola é muito importante, pois tem por objetivo diminuir a ociosidade e o uso ineficiente de máquinas e implementos agrícolas na propriedade e, consequentemente, os custos de produção. Vários fatores interferem no planejamento, tais como: tipo e textura de solo, clima, alta intensidade de trabalho nos períodos de semeadura e colheita, reduzida qualificação da mão de obra e dificuldade no controle das informações geradas durante as atividades executadas.

Por ser uma técnica que permite a retroalimentação dos dados, ou seja, sempre que ocorrer alguma modificação no processo, pode-se alterar o planejamento. Alguns requisitos básicos devem ser atendidos, tais como: conhecer a atividade agrícola, registrar os dados de utilização, determinar a eficiência operacional e planificar a utilização das máquinas. Assim, o planejamento da mecanização permite o estabelecimento de um calendário de trabalho, com informações do tempo real disponível para a execução das operações, do dimensionamento das máquinas agrícolas, além da possibilidade de programar a manutenção preventiva da frota agrícola.

Métodos de planejamento — Para auxiliar o agricultor na tomada de decisão, existem quatro métodos de planejamento: método passo a passo; programação linear; programação dinâmica; e simulação ou predição. Para alcançar o objetivo deste artigo, o estudo foi restrito ao método passo a passo, que é uma técnica simples e muito utilizada, também conhecida como planejamento por etapas. Nesse método, o critério básico adotado é a ordem de trabalho a ser executado, no qual, para que uma nova etapa inicie, a anterior deve ser encerrada. Pode ser melhorado constantemente, por meio da retroalimentação das planilhas de dados, em que podem ser incorporadas novas tecnologias ou até mesmo a expertise dos agricultores em algumas operações, bastando que os cálculos sejam realizados novamente.

Esse método pode ser dividido em seis etapas. Na primeira são realizados levantamentos do inventário físico das máquinas, equipamentos, infraestrutura e das atividades agrícolas realizadas na propriedade. Na segunda se estabelecem as culturas e o calendário de trabalho e assim, define-se na terceira etapa o tempo disponível para a realização das operações, em que se leva em consideração o período e a jornada de trabalho (horas/dia), os dias de chuva e os dias indisponíveis ao tráfego de máquinas, além de domingos e feriados. A quarta etapa consiste no estabelecimento da capacidade requerida (hectares/dia, ou hectares/hora), isto é, representa a taxa de trabalho que deve ser executada durante determinado período. Na quinta e sexta etapas, os conjuntos mecanizados são dimensionados, reorganizando, se necessário, as máquinas agrícolas disponíveis na propriedade.

Na imagem, um conjunto mecanizado superdimensionado, isto é, está “sobrando” ´potência no motor para a realização da operação de aplicação de ureia a lanço

Dimensionamento da fonte de potência — O trator é uma das principais fontes de potência na agricultura e está presente na maioria das atividades agrícolas. Em um trator podem ser acopladas várias máquinas e implementos os quais requerem energia para que possam realizar as operações demandadas na propriedade.

Essa máquina pode ser dimensionada a partir da potência disponível no motor. Sabe-se que nem toda energia produzida pelo motor é transmitida aos rodados devido às perdas que ocorrem no sistema de transmissão de potência (caixa de câmbio, diferencial e redução final), por patinamento das rodas motrizes e resistência ao rolamento.

Para o correto dimensionamento da fonte de potência e assim obter um conjunto mecanizado (trator e implemento) harmônico, podem-se utilizar duas metodologias, de naturezas distintas. O primeiro método, chamado de Método Técnico de acordo com a ASAE D497.5, faz uso de uma equação que leva em consideração a textura do solo, os parâmetros tabelados de acordo com o tipo de máquina, a velocidade, a largura e a profundidade de trabalho da máquina ou implemento para bem planejar e obter maior eficiência.

Outro método bastante utilizado, inclusive ao nível de propriedade rural, porém menos preciso em relação ao anterior, é o Método Prático ou do Fator 86, desenvolvido por Bowers. O método prático consiste na utilização do fator de conversão, obtido por meio de repetidos testes e ensaios de tratores realizados em universidades norte-americanas. É um método baseado em cálculos repetidos que introduzem um coeficiente médio de perda ou acréscimo de potência (0,86) em função da condição de trabalho da máquina (solo agrícola firme, cultivado e solto). Assim, com base em um valor médio, utiliza-se esse fator com o objetivo de simplificar uma série de cálculos.

Otimização de máquinas e operações agrícolas — Para que se possa administrar adequadamente a utilização das máquinas agrícolas disponíveis na propriedade, é indispensável que o produtor conheça as reais necessidades de tempo disponível e os equipamentos para a execução das operações agrícolas, ao longo do ciclo das culturas. Esse é o primeiro caminho para bem planejar e encontrar maior eficiência na execução dessas operações.

A eficiência de campo ou eficiência operacional representa o quanto uma operação mecanizada é eficaz em relação ao seu máximo potencial, representada pela porcentagem de tempo total em trabalho efetivo, a qual é influenciada pelos diversos fatores relacionados à operação como, por exemplo, à variação do clima, o formato e o tamanho da área a ser trabalhada, o trajeto escolhido para a operação, o tipo de máquina e implemento utilizados, a habilidade do operador e a perda de tempo em determinadas tarefas, inerentes ao trabalho de campo, como as manobras, o abastecimento, a reposição de insumos, as descargas, entre outros.

Com áreas planas, combinadas com talhões retangulares, obtêm-se as melhores eficiências, pois o número de manobras é reduzido e essas são rápidas. Porém, sem a menor dúvida, o treinamento do operador, que tenha pleno domínio da máquina e que conheça a área a ser trabalhada, é fator que contribui para que o conjunto mecanizado alcance eficiências de campo elevadas. Máquinas mais eficientes fazem mais trabalho ao longo do dia, por conseguinte, pode-se racionalizar o parque de máquinas, reduzindo a potência necessária por área (índice de mecanização). Isso favorece a redução de custos (rentabilidade econômica), pelo melhor aproveitamento do investimento imobilizado na compra de máquinas agrícolas.

Considerações finais — Após a execução do planejamento da mecanização agrícola, a próxima etapa é a seleção das máquinas. O objetivo do processo de seleção é encontrar no mercado de máquinas agrícolas os modelos que têm possibilidades de executar, eficientemente, as operações requeridas pelo planejamento da mecanização. Esse processo deve ser feito de forma racional, para que supra a real necessidade do agricultor durante as operações agrícolas mecanizadas e não ocorra sub ou superdimensionamento da fonte de potência e, consequentemente, a perda de capital investido.

Na foto, um conjunto mecanizado bem dimensionado: trator + plaina niveladora multi-lâminas no preparo do solo para a cultura do arroz irrigado

Assim, o planejamento da mecanização, por meio do correto dimensionamento das máquinas agrícolas, é uma forma de adequação e otimização do uso da frota. Dessa forma, o estabelecimento de informações acerca da questão de planejamento da mecanização passa a ser de suma importância, pois é uma técnica de incremento da lucratividade nas empresas rurais.