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COMPACTAÇÃO: como evitar, como resolver

Os usos inadequados dos solos promovem a sua compactação, e são necessárias ações para evitar que esse mal que tanto prejudica a produtividade seja revertido

José Ronaldo de Macedo, pesquisador da Embrapa Solos

Solos compactados são aqueles em que ocorre uma diminuição do espaço poroso entre os seus agregados, ocasionando uma diminuição do volume total de poros do solo, causado por um rearranjamento e uma reorientação mais densos das partículas do solo devido à ruptura e destruição dos seus agregados. Esses processos são influenciados pelo conteúdo de água do solo e pela pressão externa nele aplicada em função dos diferentes sistemas de manejo adotados.

Essa compactação é causada pelo uso inadequado do solo, ou seja, pela ação antrópica. A compactação pode dificultar ou mesmo impedir o desenvolvimento das raízes das plantas cultivadas, o que afetará a exploração pelas raízes das plantas de um volume maior de solo, fazendo com que a planta tenha dificuldade de se estabelecer e absorver água e nutrientes de que ela precisa para o seu desenvolvimento vegetativo pleno. Em última instância, vai afetar a produtividade da lavoura. A degradação da estrutura do solo decorrente da compactação tem provocado efeitos negativos em suas propriedades físicas, químicas e biológicas, com prejuízos ao desenvolvimento das plantas e, consequentemente, à produção de alimentos.

Além das questões agronômicas, a compactação do solo também afeta o processo de infiltração de água no solo, pois impede ou reduz a sua entrada, afetando a recomposição do conteúdo de água no solo para as plantas, a recarga dos aquíferos e, também, intensificando o escoamento da água na sua superfície. As consequências da redução da infiltração da água no solo são várias: plantas com senescência precoce das plantas, seca das nascentes, rebaixamento dos corpos hídricos e erosão do solo.

A importância da avaliação da resistência do solo à penetração pode ser realizada pelo Índice de Cone, definido como a resistência do solo à penetração de uma ponta cônica

Dentre as práticas mecânicas que mais compactam o solo está o preparo do que resulta da aração e de gradagens da sua camada mais superficial, denominada geralmente de camada arável. A práticas do preparo do solo com aração e gradagem promove a diminuição do tamanho dos agregados, apesar de gerar um aumento temporário do espaço poroso e da atividade microbiana, além da incorporação dos resíduos, deixando o solo descoberto.

Com o passar do tempo, ocorre a diminuição do conteúdo de matéria orgânica e, consequentemente, do número de micro-organismos, resultando na redução da agregação promovida por eles. Isso faz com que haja maior suscetibilidade à desagregação e ao transporte, ou seja, maior suscetibilidade à erosão. Além disso, o peso das máquinas e implementos pode imprimir a aproximação das partículas, decorrendo na formação de camadas compactadas. Em função dessas alterações físicas, o preparo do solo é a prática que mais induz compactação e a erosão do solo na agricultura.

Outra fonte de compactação é a pressão externa sobre o solo, imposta por veículos e implementos agrícolas nas atividades de cultivo, o que tem sido enfatizada na literatura como a principal causa da compactação (Soane et al., 1981; Marsili et al., 1998), principalmente nas culturas intensificadas, como nos reflorestamentos, nos cultivos de cana e nos cultivos de grãos em grandes áreas. Fatores relacionados com as máquinas, como pneus estreitos ou com elevada pressão de inflação e alta carga por eixo, causam o aumento da compactação do solo (Hakansson, 1990).

Esse fenômeno agrava-se quando o solo é trabalhado com um conteúdo de água elevado, inadequado para as atividades agrícolas. A aplicação de cargas sobre o solo após o seu afrouxamento pelo preparo para o cultivo também tem aumentado a compactação dos solos agrícolas (Camargo & Alleoni, 1997). De acordo com Souza (1988) e Pruski (1997), o uso intensivo do solo pode predispô- lo à formação de camadas compactadas, à redução da estabilidade dos agregados e ao aparecimento, em maior número, dos microporos, aumentando a propensão à perda de solo. Segundo Daniel et al. (1995), não somente o sistema de utilização das máquinas no campo, mas também as características físicas do solo, o teor de água e a presença de resíduos culturais são fatores importantes ao entendimento do processo de compactação. As propriedades físicas e mecânicas dos solos os tornam mais ou menos propensos à compactação.

Diagnóstico — O produtor deve procurar meios para diagnosticar se está ou não ocorrendo o processo de compactação nas suas terras. Atualmente esse conceito tem sido usado para várias aplicações como a detecção de camadas compactadas, estudo da ação de ferramentas de máquinas no solo, prevenção de impedimento mecânico ao desenvolvimento do sistema radicular das plantas, predição da força de tração necessária para execução de trabalhos, conhecimento de processos de umedecimento e ressecamento, dentre outras (Vieira e Sierra, 1993).

Pela curva de compressão do solo, determina-se a pressão de precompactação, que é a capacidade máxima do solo de suportar carga, e o índice de compressão, que é um indicador da susceptibilidade do solo à compactação, pois representa a redução da porosidade em relação ao aumento da pressão aplicada. Quanto maior o índice de compressão, mais compressível o solo (Larson et al.,1980). Diversos autores têm usado, ao longo do tempo, a resistência mecânica do solo à penetração como indicador de compactação com várias aplicações em diversos campos da pesquisa agronômica.

A resistência à penetração é um dos atributos físicos do solo que influencia o crescimento de raízes e serve como base à avaliação dos efeitos dos sistemas de manejo do solo sobre o ambiente radicular (Tormena e Roloff, 1996). Assim, a importância da avaliação da resistência do solo à penetração, a qual pode ser realizada pelo Índice de Cone, definido como a resistência do solo à penetração de uma ponta cônica e expressa como a força por unidade de área da base do cone até uma determinada profundidade.

É importante ressaltar que a utilização da resistência à penetração como indicador de solo compactado deve ser muito bem detalhada, pois esse índice é muito influenciado pelo conteúdo de água no solo. Há diversos trabalhos que correlacionam o aumento da resistência à penetração com a diminuição do conteúdo de água no solo. Na maioria dos solos, quando o teor de água diminui, ocorre a alteração das relações entre a friabilidade (expressa pela facilidade de desagregação do material de solo, quando úmido) e a dureza do solo. Existem solos extremamente duros quando secos, que se tornam extremamente friáveis quando úmido.

Prevenção ou reversão da compactação — Como deve ser sempre recomendado, a prevenção é a maneira mais econômica de impedir o processo de compactação do solo. Para isso, a recomendação é de que o solo, para ser mobilizado, deve estar com o conteúdo de água adequado, configurado pelo estado de friabilidade do solo, isto é, quando seus torrões podem ser facilmente rompidos em frações menores entre os dedos, sem aderir aos mesmos.

Quando as operações, principalmente as de preparo de solo e de colheita, são feitas com maquinário pesado e o solo encontra-se no estado seco, ele apresenta alta coesão, exigindo potentes máquinas e implementos para realização do trabalho, sendo que o solo nesse estado se rompe em grandes torrões. Na situação oposta, o solo molhado apresenta estado de máxima adesão, com os filmes de água ao redor das partículas funcionando como lubrificante que favorece a desagregação pela pressão exercida pelas máquinas e pelos implementos. Nesse caso, o solo, ao invés de tornar-se mais solto, sofre compactação (Rosa, 1981).

Práticas culturais e mecânicas — A recuperação de solos fisicamente degradados degradados pelo cultivo pode ser obtida através de práticas culturais e mecânicas. As práticas culturais consistem no emprego de plantas, que possuem o sistema radicular com capacidade de recuperação da estrutura e penetração em camadas compactadas do solo, em sistema de rotação de culturas, com o aproveitamento dos restos culturais e adubação orgânica. Entre as práticas mecânicas encontram-se a lavra, a escarificação, a gradagem, o plantio direto, os tratos culturais e, em casos especiais, a subsolagem.

A cobertura vegetal contribui efetivamente para a proteção do solo, pois diminui a possibilidade de impacto direto de gotas de chuva; melhora a estrutura do solo pela adição de matéria orgânica (Coelho, 1991); reduz a velocidade de escoamento da enxurrada e aumenta a taxa de reflexão (albedo) que resulta em menor variação térmica do solo (Salton e Mielniczuk, 1995), além de favorecer o desenvolvimento da microbiota. O fator cobertura sobre o solo é de grande importância na prevenção e no controle da compactação dos solos e, por consequencia, no controle dos processos erosivos.

O sistema de manejo do solo pode exercer grande influência nos parâmetros de compactação e compressibilidade do solo. Carpenedo (1994) afirma que a adição de resíduos orgânicos e os maiores teores de matéria orgânica do solo, associados à ausência de revolvimento no sistema de plantio direto, melhoram a estrutura do solo, conferindo-lhe maior resistência às pressões externas, principalmente em baixos conteúdos de água. Atualmente, alguns sistema de produção têm trabalhado o conceito de não revolvimento do solo, associado à rotação de cultura e à produção de palhada (SPD), e o da integração entre diferentes sistemas produtivos, como o sistema da Integração Lavoura- Pecuária-Floresta (ILPF).

Operações de máquinas — No planejamento das operações agrícolas nas propriedades, algumas recomendações podem ser incorporadas, no caso de se prevenir a compactação devido à utilização de máquinas, como o chamado “controle de tráfego”, que significa restringir a movimentação de veículos a uma menor área, diminuindo os efeitos no desenvolvimento das culturas. Ou mesmo o desenvolvimento de máquinas que realizassem diversas operações de preparo de solo a um só tempo, diminuindo a movimentação de equipamento pesado sobre o solo.

Outra alternativa é o controle do tráfego de veículos às épocas quando o solo é menos sensível à compactação. Por exemplo, quando estão secos, eles são comparativamente mais resistentes à compactação. Operando-se os veículos a velocidades maiores, irá se diminuir o tempo de deformação do solo. No caso de tráfego intenso de veículos sobre a área de cultivo, recomenda-se restringir a movimentação sobre um número menor de caminhos. Dependendo da distribuição das chuvas e da programação de rotação de culturas utilizadas nos SPD, pode-se promover a descompactação do solo através do plantio de espécies vegetais que tenham raízes profundas, capazes de atravessálo. O tremoço é uma boa opção, pois tem a vantagem de melhorar o aspecto físico (descompactação) e químico (fixação de nitrogênio) do solo.