Eduardo Almeida Reis

 

POT-POURRI

EDUARDO ALMEIDA REIS

Tanto nas cidades, que têm hoje 54% da população mundial, como nas roças, ninguém se livra de certos problemas. Um deles, nas cidades, seria fácil de evitar se existisse educação: o barulho. São Paulo encara os pancadões – sexo, drogas e sons ensurdecedores no meio das ruas – atenazando as noites de milhares de moradores em diversos bairros. Belo Horizonte, capital mundial dos botecos, atenaza parte de seus habitantes com a gritaria nas mesas das calçadas e os inacreditáveis sons instalados nos automóveis. Providência tão imbecil que fura os tímpanos dos donos dos carros, se os idiotas põem o volume alto sem sair do veículo.

Moro na avenida principal de uma cidade de 600 mil habitantes, mas tenho a sorte da vizinhança e da vista para a mata de um seminário católico, quadra silenciosa como nunca tive morando em diversas roças. No resto aqui da cidade a população convive com a barulheira “normal”, onde não é possível esquecer o som das motos de mil cilindradas em algumas ruas suficientemente retas para permitir as esticadas dos motoqueiros. O barulho rivaliza com o das turbinas dos jatos, que felizmente só decolam dos aeroportos.

Alguns problemas rurais, de tão antigos, já existiam em bom latim: abigeátus, us “roubo de gado”. É cíclico e voltou a aumentar recentemente, para combinar com a ladroeira que vai por aí.

Nada mais divertido do que procurar a domesticação dos bovinos na Internet para tentar descobrir as datas dos primeiros abigeatos praticados por abigeatários, ladrões de gados. Sim, porque o pilantra só podia roubar bois e outros gados domesticados.

Entre outras tolices internéticas, fui informado sobre a domesticação do burro há 6.000 anos no Noroeste da África. Considerando que o burro e a mula resultam do cruzamento do jumento com a égua, na Internet, o burro foi domesticado antes do jumento e da égua, esposa do cavalo domesticado há 5.000 anos. De repente, um jumento selvagem encontrou égua idem, cruzou com ela e nasceu o burro domesticado pela Internet. Ainda quando não se aprenda nada, a gente se diverte.

Hoje, com as fazendas e os rebanhos menores, os abigeatários pelejam para roubar dez vacas aqui, vinte acolá. Na Zona da Mata de Minas temos notícia de até 40 vacas roubadas em uma noite, junto com o caminhão-gaiola e duas máquinas agrícolas da fazenda. O empregado que mora perto do pátio em que ficavam o caminhão e as duas máquinas estava viajando e a patrulha rural da PM só dispõe de um veículo, perdão, uma viatura, para policiar centenas de quilômetros de estradinhas de terra.

Máquinas rurais são caras e não têm placas nos Detrans. Deve ser roubo rentável para o ladrão e é sinal de que o produto tem mercado: ninguém rouba um trator imenso para guardar na garagem de casa. Mercado, no sentido de receptação, crime que consiste em adquirir, receber ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que se sabe ser produto de crime, ou influir para que terceiro de boa-fé a adquira, receba ou oculte – é a alma da maioria dos roubos e dos furtos.

Na Tanzânia, 30 anos atrás, os fazendeiros produtores de cafés finíssimos recolhiam diariamente aos depósitos, com guardas armados, tubos, bombas, tratores, todo o material usado nos campos durante os dias. Parece que a praga já chegou ao interior do Brasil.

Abigeato e assalto aos caixas eletrônicos dos bancos são atividades criminosas que oferecem riscos altos e resultados limitados. Muito melhor, muito mais rentável, é assaltar a Petrobras, como temos visto desde que começou a Operação Lava-Jato. São milhões de dólares depositados lá fora em contas numeradas. Dá para imaginar o saldo bancário nas outras contas sempre que um sujeito devolve 40 ou 50 milhões de dólares. Devolve 40 e o resto dá para três gerações vivendo à tripa-forra.

Por falar em saldo bancário, na lista da Forbes fiquei sabendo que o Brasil perdeu 23 bilionários, entre os quais Michael Klein, o senhor e a senhora José Isaac Peres, o bispo Edir Macedo e o jovem banqueiro André Esteves, que desceu 493 “degraus” na lista para a 1.121ª posição, coitado, com um saldo modesto de US$ 1,6 bilhão. E o mais divertido da história, que nada tem de divertida, é que estive para entrar na lista dos despencados.

Explico: em 1987, uma das senhoras que agora saiu da lista, quando soube soube que me divorciei, pediu-me em casamento. Chique, né? A portadora do convite foi uma prima, que residia em Brasília e era amiga da bilionária. Perdi a oportunidade de saber como vivem os muito ricos.