Plantio Direto

 

Quanto se economiza com o plantio em nível e TERRAÇOS

Jonez Fidalski e Graziela Moraes de Cesare Barbosa, pesquisadores do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar)

A problemática da erosão do solo no Brasil está diretamente ligada ao manejo dado ao solo e à cultura implantada. Com o aumento da intensidade das precipitações, muitos problemas erosivos estão ocorrendo em lavouras brasileiras, principalmente em áreas em que houve a retirada dos terraços e o plantio é feito no sentido da pendente, morro-abaixo.

O acúmulo de água nos terraços mostra o quanto é importante que eles sejam mantidos para proteger a lavoura da erosão causada pelas fortes chuvas

Nas décadas de 1970 e 1980, pesquisadores do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) utilizaram simulador de chuvas para realizar avaliações de perdas de solo em várias regiões do Paraná. Os principais resultados geraram informações de que se o agricultor utilizasse terraços em sistema convencional do solo, iriam reduzir as perdas de solo em 50%, e se mudassem para o sistema plantio direto, com terraços e plantio em nível, reduziriam as perdas em 75%. A redução das perdas excedentes de solo poderia ser ainda maior, desde que o agricultor utilizasse rotação de culturas de verão e de inverno para aumentar a infiltração de água no solo.

Os resultados obtidos na época em parcelas experimentais de perdas de solo foram divulgados em dias de campo para estimular os agricultores paranaenses a adotarem o sistema plantio direto com terraceamento agrícola. Paralelamente, inúmeros programas estaduais de conservação de solo e da água foram desenvolvidos, e integrando os terraços entre as propriedades agrícolas nas microbacias hidrográficas.

Inicialmente, a construção de terraços superdimensionados, denominados “murundum”, foi uma alternativa para reduzir as perdas de solo e de água em sistema de preparo convencional do solo. Posteriormente, com o sistema plantio direto, as estruturas dos terraços murundum foram mecanicamente transformadas em terraços tipo “base larga”, para facilitar as operações mecânicas de semeadura, pulverização e colheita.

Retirada dos terraços — A partir da década de 1990, o sistema de plantio direto se consolida com a adesão de um número expressivo de propriedades rurais e se mostra eficiente em reduzir as perdas de solo. Em razão dessa eficiência, houve excesso de confiança dos agricultores, que optaram pela remoção de um terraço a cada dois e até mesmo para a remoção de todos os terraços.

Paralelamente, houve alteração progressiva do manejo em sistema plantio direto, com a opção de cultivo de segunda safra de verão, o que comprometeu a rotação de culturas de inverno, associada ao plantio no sentido da pendente (morro-abaixo), para aumentar o rendimento da mecanização agrícola, tais como semeadura, pulverização e colheita, com máquinas agrícolas cada vez maiores.

Com todas essas alterações no sistema plantio direto, problemas de erosão por causa da menor qualidade da estrutura dos solos e redução da infiltração das águas das chuvas se acentuaram em anos de El Niño na década de 2010, pela maior frequência e intensidade das chuvas.

Imagem de uma lavoura que foi submetida à erosão laminar e que ocorreu a formação de sulcos em área de plantio direto com semeadura em nível

Em 2010, o Iapar publicou o Boletim Técnico nº 71, disponível na Internet, chamado de “Espaçamentos Entre Terraços Em Plantio Direto”, para atender a comunidade agropecuária frente ao agravamento da erosão agrícola. As recomendações técnicas de espaçamentos entre terraços foram mantidas para o manejo conservacionista em sistema plantio direto. Ampliaram-se as opções de tabelas de espaçamentos entre os terraços, utilizando-se as recomendações técnicas de Lombardi Neto e colaboradores do Instituto Agronômico (IAC), de Campinas/SP, exigindo dos engenheiros agrônomos a interpretação de tabelas, associada com os grupos e manejo de solos, culturas e manejo de seus resíduos culturais.

No Show Rural, os pesquisadores do Iapar fizeram demonstrações práticas de perdas de solo e de água realizadas a partir da simulação de chuva de 70 milímetros por hora, verificadas após 10 minutos de funcionamento do simulador

A publicação do Boletim Técnico nº 71 possibilitou a retomada das discussões de manejo e conservação do solo e da água em sistema plantio direto, resultando em vários cursos nessa década, realizados em diversos municípios do Paraná, com apoio da Emater, Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea), Senar e Programa ABC, complementados por inúmeras palestras e dias de campo em eventos sobre manejo e conservação do solo, específica para a assistência técnica (cursos de capacitação) e de modo informativo aos agricultores.

Durante o recente Show Rural Coopavel, em Cascavel/PR, pesquisadores do Iapar mostraram aos visitantes duas unidades demonstrativas de sistema de plantio direto. A primeira, de acordo com as recomendações técnicas feitas pela pesquisa, sistema plantio direto em nível com terraceamento, e a segunda, com plantio “morro-abaixo” e sem terraceamento. Cada unidade demonstrativa foi isolada com chapas galvanizadas, constituindo parcelas de 3,5 metros de largura e 11 metros de comprimento paralelo ao declive do terreno. Na parte mais baixa do relevo, foram instalados coletores transversais, com a finalidade de coletar o excedente das enxurradas, canalizadas por tubulação para os coletores.

Perdas mensuradas em R$ — Paralelamente, os pesquisadores apresentaram os custos das perdas com as enxurradas em plantio correspondentes aos fertilizantes fósforo e potássio, e ao corretivo da acidez do solo ou calcário. Esses custos foram baseados nos estudos realizados pelos pesquisadores do IAC e do Iapar, que compararam o sistema plantio direto com 90% de cobertura do solo e solo descoberto, descrito no artigo científico “Perdas e custos associados à erosão hídrica em função de taxas de cobertura do solo”, publicado na revista técnicocientífica Bragantia, no ano passado.

Os custos das perdas relativos aos fertilizantes e corretivos em solo praticamente descoberto (R$ 427,81 por hectare por ano) aumentam quase cinco vezes quando comparado com o solo mantido coberto em 90% (R$ 72,06 por hectare por ano). Esse resultado teve boa receptividade pelos agricultores, quando eles transformavam essas perdas em sacas de soja ou milho, ou equivalente ao preço de fertilizantes. A interpretação das perdas com adubos e calcário era mais evidente quando os agricultores extrapolavam para o tamanho de suas propriedades rurais, como, por exemplo, 10 ou 100 hectares.

Nas demonstrações práticas de perdas de solo e de água realizadas no Show Rural, com a simulação de chuva de 70 milímetros por hora, verificadas após 10 minutos de funcionamento do simulador, seguidas da coleta do que havia escorrido pela superfície do solo em provetas, confirmaram que o sistema plantio direto, semeado em nível e com terraceamento, reduziu 1/5 das perdas de água, quando comparado com o plantio “morro-abaixo” e sem terraceamento.

Essas apresentações reiteraram a necessidade do uso de práticas conservacionistas como a manutenção do solo coberto, manejo do solo em sistema de plantio direto, com terraços, para minimizar os custos com as perdas de água e solo e, consequentemente, com a perda de nutrientes. Isso veio a complementar as atividades de manejo e conservação do solo e da água da Campanha Estadual do Plante seu Futuro, desenvolvida no Paraná. Práticas como essas auxiliam os produtores a reduzir os custo de produção e aumentar a lucratividade.